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Mário Raposo, reitor da Universidade da Beira Interior UBI do mundo para o mundo 27-09-2021

Mário Raposo tomou posse como reitor da Universidade da Beira Interior (UBI) há cerca de dois meses. Nesta sua primeira grande entrevista fala de como a UBI é uma universidade do mundo e para o mundo, defende uma nova fórmula de financiamento das instituições de ensino superior, salienta a importância da rede alumni e destaca o facto da UBI ser hoje uma universidade europeia, com a criação da rede UNITA.

A UBI é uma universidade do mundo e para o mundo, como referiu na sua tomada de posse?
A Universidade da Beira Interior surgiu, de início, como um projeto de desenvolvimento regional. Foi de facto uma aposta para o desenvolvimento de uma região do interior do país, por parte dos governos. Mas desde o início que nascemos com uma clara visão internacional. No princípio tivemos uma grande ligação aos Estados Unidos, onde vários professores fizeram formação. Depois, com a entrada na União Europeia e com a queda do muro de Berlim, como aqui começámos a lecionar os cursos das engenharias, tivemos a necessidade de formar profissionais qualificados nestas áreas e fomos ao ‘leste’ buscar cientistas. O que aconteceu junto da Polónia, Bulgária ou Rússia. Tivemos aqui cientistas muito bons, que na altura ministravam as suas aulas em inglês, o que já era um avanço àquilo que se fala hoje da necessidade de dar aulas em inglês. Portanto, a internacionalização da UBI começou há muito tempo e desta forma. Depois, a partir de uma determinada altura, começámo-nos a abrir aos públicos internacionais. A demografia em Portugal revela que cada vez há menos jovens em Portugal. A oferta nas universidades e politécnicos é excedentária, pelo que tivemos que ir buscar outros públicos alvos. Começámos a fazer a nossa divulgação junto dos Palop’s e Brasil, o que permitiu receber alunos desses espaços para as licenciaturas, mestrados e doutoramentos. Posteriormente, alargámos à América Latina e, agora, estamos também a apostar as nossas parcerias na Ásia. Por tudo isso, eu digo que a UBI é uma universidade do mundo para o mundo. Quando olhamos para os números, verificamos que os alunos internacionais representam 20% do total dos nossos estudantes. Uma universidade que está longe dos grandes centros e do litoral conseguir trazer alunos de todas as partes do mundo, é porque está a fazer um bom trabalho.
Para o futuro continuaremos a trabalhar nessas questões, até porque foi feita uma aposta no reforço das nossas áreas científicas e da qualidade do ensino, que nos permite aparecer nos rankings internacionais muito bem classificados entre as universidades portuguesas e europeias. Isto é fruto dos esforço de todos. Quem procura formações, em qualquer parte do mundo, olha para estes rankings e para as suas localizações. E também aí a nossa universidade está num ambiente favorável, com segurança e um nível de vida acessível.

Essa aposta na internacionalização vai manter-se e até para outras partes do globo?
Sim. Já o estamos a fazer. Temos que ter estratégias diferentes. Por exemplo, estamos a estabelecer relações com a China, o que implica outro tipo de exigências e a formação em cultura e língua portuguesa para os alunos que vêm desses quadrantes. Vamos continuar com uma forte presença nos países de língua oficial portuguesa, mas também procurando outras geografias. Na Europa, a questão dos Erasmus é uma situação, que com a nossa presença na rede europeia de universidades – UNITA -, vai melhorar, com a circulação de alunos e professores nessa rede. Esta nossa presença na UNITA também vai aumentar a nossa visibilidade e credibilidade internacional.

As universidades europeias são apontadas como determinantes para o futuro. Como está a ser esta experiência da UBI na UNITA?
A nossa entrada numa universidade europeia foi uma estratégia muito positiva. A criação destas redes foi uma política da União Europeia para projetar as universidades e, simultaneamente, para unir universidades de vários países para que a cultura, os valores e as pessoas, circulem entre os vários países. Esta aposta foi tão positiva que, hoje, a União Europeia já estendeu essa rede até 2029, com um orçamento garantido. Nós temos estado reunidos com os parceiros internacionais (a UNITA é composta pelas universidades de Toniro- Itália; UBI – Portugal; Pau – França; Mont-Blanc – França; Timisoara – Roménia; e Zaragoza – Espanha) e no próximo período, de 2023 para a frente vamos alargar a rede, com novos parceiros, mantendo a ideia original. O Covid limitou a circulação de pessoas neste trabalho em parceria. A partir deste ano tudo vai entrar na normalidade, vão circular pessoas (alunos, professores, investigadores), serão criadas duplas titulações entre as várias universidades, e microcréditos – que permitirão que os estudantes que frequentem cursos em várias universidades possam tirar a creditação em cada país. (...) Com esta rede também é mais fácil alavancar dinheiro da União Europeia para as próprias universidades.

Uma das suas preocupações é que não aconteçam situações de exclusão ou abandono de estudos por razões económicas. O que é que a UBI tem previsto para apoiar os alunos em dificuldade?
Temos tido políticas de apoio aos alunos com dificuldades, através de várias estratégias, e que abrangem os alunos nacionais e internacionais (muitas vezes vêm de países em que o valor da bolsa é insuficiente para viver na Europa). Desde a atribuição de bolsas de apoio; empréstimos, ao envolvimento de alunos nas atividades da universidade, a que está associado um valor que é deduzido nos custos das propinas, do alojamento na residência ou da alimentação. Para além disso, queremos envolver a rede dos alumni. Entendemos que é extretamente importante que aqueles que foram alunos da UBI, que hoje estão no mercado de trabalho, que são empresários, possam também participar, como mecenas, nesta política de apoio aos jovens estudantes. Por isso, estamos a criar o gabinete dos alumni que irá ter uma ligação com esses antigos alunos, sensibilizando-os para a necessidade para contribuírem com verbas para esse tal fundo de apoio aos estudantes com necessidades económicas.

Essa rede de alumni vem trazer para a universidade todo um passado, mas também muito futuro...
Os alumni são os melhores embaixadores de cada instituição. O passa palavra que eles levam do que receberam da universidade e da sua capacidade de execução nas várias funções que desempenham a vários níveis, é muito importante. E temos excelentes exemplos. Recentemente, o helicóptero que foi desenvolvido para viajar na atmosfera de Marte teve como chefe de equipa uma ex-aluna de engenharia aeronáutica da UBI. E como esta aluna temos vários em outras áreas, que demonstram que a nossa formação é excelente. A rede de alumni é muito importante para mostrar àqueles que estão cá, que aquilo que fazemos tem muito valor, mas também porque os próprios alumni têm uma quota parte na formação dos alunos futuros. Por isso, queremos chamá-los, trazendo-os à UBI, fazendo palestras, para que passem a palavra aos atuais estudantes aquilo que é a formação, envolvendo-os também nesta vertente de mecenas.

Na sua tomada de posse anunciou a criação de um quadro de investigadores de carreira. Isso está a ser concretizado? A aposta passa por reter talento?
Sim, a aposta passa por reter talento. Infelizmente este ano temos um problema complicado, pois há vários investigadores que estão a chegar ao fim de contrato (que a FCT celebrou há uns anos atrás e não tem continuidade de financiamento) e não temos um quadro preparado porque não houve tempo para o fazer. Tomei posse há dois meses, o quadro tem que ser proposto com regulamento, tem que ser aprovado no Conselho Geral e depois tem que ser submetido ao Orçamento Geral do Estado, o que significa que só no próximo ano é que poderemos fazer isso, colocando a concurso algumas vagas para 2023. Estes processos demoram tempo. Seria minha vontade e meu desejo que conseguisse por o quadro a funcionar o mais rapidamente possível para poder reter algum talento que neste momento está na UBI. Se calhar vamos perder algum desse talento porque as pessoas acabam por procurar soluções de vida noutras geografias. Aquilo que eu disse é para levar a cabo, mas tomei posse há dois meses e era impossível pôr a situação a funcionar (...).

O subfinacimento das instituições de ensino superior, por parte do Estado, tem sido um tema recorrente. A UBI tem sido uma das instituições que tem sido prejudicada. Defendeu a criação de uma fórmula de financiamento justa e equitativa. Que fórmula é essa?
Há fórmulas que estão em vigor desde 2008/2009. Se essas fórmulas não servem, que arranjem outras que reflitam a realidade das instituições. Quando falamos da necessidade de uma fórmula, é porque entendemos que o valor que é disponibilizado às instituições é dado com base num histórico que está descontextualizado. E não estamos só a dizer que a fórmula tenha em conta apenas o número de alunos. Deve ter em atenção o número de investigações, qualidade da formação, o contexto de localização das instituições. Estas questões têm que ser ponderadas. E depois a fórmula tem que ser aplicada de modo transparente e justa, para que todos a nível nacional a conheçam. Aplicando a fórmula que existe a UBI sai claramente prejudicada. A UBI tem que ter mais orçamento face a outras universidades. Eu não defendo que o dinheiro seja cortado às universidades que têm mais (...). tem que haver uma forma de alizamento para que quem está prejudicado veja refletido no seu orçamento o valor justo para as suas necessidades. E naquelas universidades que são beneficiadas terá que haver uma certa contenção até chegar à altura em que possam ser outra vez beneficiadas pelo aumento do número de alunos. E isso passa-se com essas universidades e também com a UBI. (...) A UBI, neste momento, seja qual for a fórmula em vigor aplicada, está prejudicada em cerca de 8 milhões de euros. Este ano na discussão com o Ministério, onde foi referido que não havia dinheiro, foi-nos dito que as instituições que estão prejudicadas teriam o princípio da diferenciação, por isso foi-nos atribuído mais 0,18%. Não é muito, mas é um princípio, uma abertura.

E como é que a UBI tem ultrapassado esta situação?
No meu discurso (de tomada de posse) disse que fazer mais com menos só é possível de duas maneiras: sermos mais eficazes e mais eficientes na aplicação dos dinheiros. Isto é gestão pura. Temos recorrido a estratégias de encontrar financiamentos alternativos, como sejam candidaturas a projetos nacionais e europeus; vendas de serviços às empresas; criação de projetos em parceria com instituições; e pela vinda de alunos internacionais, cujas propinas são pagas ao custo real. Todavia, a UBI durante muitos anos teve uma grande contenção ao nível de infraestruturas, que neste momento começam a dar problemas, como acontece nas residências – uma delas vai entrar em obras e outra foi encerrada, o que implica uma perda no número de quartos – que iremos canditatar ao PRR.
Outra situação que temos que melhorar é a questão do digital, para a qual esperamos pelos programas comunitários. A UBI tem tido a capacidade de se adaptar. Mas estas questões são muito caras e as atualizações também são rápidas. Exigem um investimento constante. Por isso, também aqui necessitamos de verbas para remodelar e melhorar a capacidade de banda da universidade. Outras questões importantes que eu espero que estejam refletidas no próximo programa Horizonte 20/30 e dos fundos regionais dizem respeito ao requipamento científico. Esta é uma questão que afeta não só a UBi mas muitas universidades. Os laboratórios começam a ficar com equipamentos obsoletos e tem que haver a sua substituição.
Todos estes investimentos têm por objetivo melhorar o serviço aos alunos. Por isso, o meu programa é Servir Mais. Seja ao nível do ensino, investigação, infraestururas ou apoio social. Simultaneamente, como somos uma universidade do interior que presta um serviço à região, espero que isso se reflita nesse serviço.

Está a decorrer o Concurso Nacional de Acesso ao ensino superior. A segunda fase termina em outubro. Quais são as perspetivas para a UBI?
Este ano candidatámos 1330 vagas. Acredito que entre a primeira e segunda fases iremos esgotar as vagas, pelo que iremos continuar a receber alunos de todas as áreas, o que é importante. Isto vai permitir continuarmos a ter a nossa renovação do corpo docente e das nossas formações. Ao nível de mestrados e pós-graduações também preenchemos praticamente as vagas todas. A expetativa é manter o mesmo número de alunos do ano anterior. No que respeita aos estudantes internacionais deveremos manter o mesmo número ou crescer um pouco, mas isso está dependente das questões da pandemia.

Os últimos dois anos foram marcados pela pandemia. A UBI soube dar resposta às exigências impostas?
Adaptámo-nos rapidamente. Quer os alunos, quer os professores foram extraordinários. De uma semana para a outra deixámos as aulas presencias para passar ministrá-las a distância. Obviamente que isso implicou a adaptação de uns e outros. Conseguimos que todos se sentissem integrados. Ao nível da segurança e sáude estivemos sempre ligados com a delegada de saúde. Os problemas que apareceram foram poucos. Criámos um laboratório de análises, em colaboração com o hospital e com a Faculdade de Ciências da Saúde, que permitiu e permite que a comunidade académica possa fazer testes, de forma gratuita. Foi um processo de adaptação. A situação mais complicada ocorreu nos campeonatos nacionais universitários, mas no geral foi tudo controlado.

 

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