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Propostas Bocas do galinheiro: Os 50 anos de Taxi Driver e Robert Duval

24-02-2026

Voltamos ao cinquentenários, desta vez a Taxi Driver de Martins Scorsese, filme marcante na década de setenta, não só nos Estados Unidos, ainda a lamber as feridas do Vietnam. Não será por acaso que Travis Bickle, o taxista, numa magistral interpretação de Robert De Niro, seja um veterano desta guerra. O filme mais político de Scorsese, apesar de o conflito ser apenas abordado indirectamente, através da figura do veterano, apenas breves alusões à sua vivência, terá aberto caminho para uma longa lista de obras que tiveram como pano de fundo a intervenção americana no conflito.
Ora, é exactamente essa circunstância da passagem de Travis pela guerra que molda a sua forma solitária de viver e a suas obsessões, primeiro por Betsy (Cybill Shepherd), que não conhecia, voluntária da campanha presidencial em curso, e depois por Iris (Jodie Foster), uma jovem prostituta que culmina na brutalidade do banho de sangue final num novo campo de batalha quando a pretende “libertar” do proxeneta, interpretado por Harvey Keitel. E, assim, de potencial assassino psicopata, passa a libertador. Um guião à medida do maniqueísmo americano, a eterna luta entre o bem e o mal, mesmo que as intenções não sejam as melhores, retrato de uma geração à procura do seu lugar num país atravessado pelo trauma da guerra que se vai confirmar à medida que a década avança numa série de filmes que a vão retratar, paralelamente a outros que exploram a figura do vingador solitário urbano, numa revisitação contínua do mito do western.
Em Taxi Driver a tempestade perfeita acontece: uma realização superior de Martin Scorcese, estribada num argumento da autoria de Paul Schrader (na sua primeira colaboração com Scorsese, com quem fará esse fabuloso Toiro Enraivecido, (1980), vindo também a experimentar a realização) que disseca como poucos a figura do veterano sem o referir explicitamente, mas patente nos gestos e na galopante paranoia que atacava Bickle e as suas acções, isto tudo pontuado por uma banda sonora da autoria de Bernard Herrman, mais conhecido pelas suas colaborações com Hitchcock ou Orson Welles.
Mas, 1976 por outro lado, foi o ano de Rocky, de John G. Avildsen, protagonizado por Sylvester Stallone, igualmente autor do argumento. Acabou por arrecadar os Óscar para melhor filme e melhor realizador, neste campo Scorsese nem sequer foi nomeado, deixando para trás além de Taxi Driver, filmes como Os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, Caminho da Glória, de Hal Ashby e Network, de Sidney Lumet. Robert de Niro perdeu a estatueta para Peter Finch, pela sua actuação em Network. O actor faleceu antes desta consagração.

“I love the smell of napalm in the morning”

Foi esta fala em Apocalypse Now (Francis Ford Coppola, 1979) que Robert Duval ganhou o seu lugar na história do cinema e no imaginário cinematográfico da década de 1970. Como se estivesse a afirmar qualquer coisa de banal, brandia o horror da guerra em tudo o que tem de sinistro. E o Coronel Kilgore, o personagem que encarnou nesta sua marcante actuação, termina este monólogo com um categórico “Smelled …like victory”. E a cena é toda dele. Só ao alcance de um grande, grande actor. Também com Coppola interpretou o consigliere Tom Hagen, o homem de confiança de Don Corleone nas duas primeiras entregas de O Padrinho (1972 e 1974), aqui numa postura menos histriónica, mas nem por isso menos destacada, merecendo mesmo a nomeação para melhor secundário no primeiro filme da saga, tal como voltou a acontecer com a sua interpretação de Kilgore. Dois papéis de relevo, de que todos recordam quando o tema é Robert Duval, mas que não podem de forma alguma obnubilar uma carreira de mais de 60 anos.
Falecido no passado dia 15 de Fevereiro, Robert Duval, depois de um início de carreira principalmente na televisão, tem o seu primeiro papel de relevo no cinema em 1962 como o misterioso Boo Radley de To Kill a Mockingbird (Robert Mulligan,1962), adaptação do romance de Harper Lee, mas que não foi suficiente para abandonar o pequeno écran, até que volta a mostrar as suas potencialidades em M.A.S.H. (Robert Altman, 1970).
Continuando a acumular papéis no cinema, muitos como secundário, nos quais a sua presença sempre se impunha, tem em THX 1138 (George Lucas, 1971), filme nascido de uma curta como projecto académico de Lucas, uma parábola da resistência do homem face à máquina, fulanizada no casal Robert Duval/Maggie McOmioe, o reconhecimento da sua força, consolidada com Coppola e confirmada em Network no implacável executivo do canal televisivo.
O cobiçado Oscar acontece em Tender Mercies (Bruce Beresford, 1983), em que encarna um cantor de country, agora alcoólico e sem carreira.
Seria difícil enumerar aqui todos os filmes em que Robert Duvall se destacou, de Colors (1988) a Days of Thunder (1990), mas não podemos deixar de lado The Apostle (1997), onde, apara além de protagonizar, assumiu a realização, filme que lhe valeu nova nomeação para a estatueta dourada, como actor principal, que não logrou arrebatar, tal como veio a acontecer em The Judje (2014), a sua última nomeação, aqui como secundário.
Mais um dos grandes nos deixou e estas perdas, como sempre, são irreparáveis, mas os seus filmes estão aí para o eternizar.
Bons filmes e até à próxima!

Luís Dinis da Rosa

Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico

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