Com estreia nacional no passado dia 9, O Barqueiro (2026), de Simão Cayatte, foi exibido no Cine-Teatro Avenida dia 14, com a presença do realizador e de um representante da ©Leopardo Filmes, que produziu e distribui o filme, no caso António Costa, um albicastrense há largos anos ligado ao cinema, nestes últimos com Paulo Branco. Foi bom voltar a estar com o António, tanto mais que estivemos na criação do Grupo de Animação Cultural Amato Lusitano, em Março de 1984, uma lufada de ar fresco no movimento cultural de Castelo Branco, associação responsável por várias iniciativas, do teatro à música, passando também pelo cinema, com a exibição de uma série de filmes e a organização de vários ciclos temáticos, uma opção inovadora na cidade, onde militava também o Luís Alvarães, hoje um conceituado realizador e argumentista, na altura estudante de cinema no Conservatório Nacional, igualmente do núcleo fundador.
Mas, voltando ao filme, O Barqueiro é a segunda longa-metragem do realizador, que conta a história de Joaquim (Romeu Runa), que depois de 16 anos encarcerado, saiu da prisão, em liberdade condicional. Optando por não voltar para casa, acaba por se cruzar com Fernando (Miguel Borges), um engajador de imigrantes para o mundo clandestino da apanha de amêijoa no rio Tejo, que lhe “oferece” emprego como barqueiro no transporte destes trabalhadores para os bancos de areia onde na maré vazia decorre a apanha. Depois de anos aprisionado, retorna a uma prisão em liberdade, tendo agora, não como companheiros de cela, mas de exploração, um grupo de escravos dos tempos modernos, também eles aprisionados, numa actividade ilegal em que as redes criminosas ganham milhares de euros à custa desta mão de obra, muita dela clandestina.
Como Simão Cayatte referiu na conversa que se seguiu à sessão a que assisti, há muito tempo que vinha investigando este tema e esta realidade que se pode ver todos os dias quando se atravessa a ponte ali para os lados do Samouco. Ora, Joaquim também sabia onde se ia meter, daí o aceitar por um certo tempo que lhe permitisse ganhar o suficiente para cumprir a promessa que fez à filha de lhe comprar um piano. Porém àquele trabalho, duro e perigoso, acrescentou a simpatia e solidariedade com estes companheiros de prisão sem grades, principalmente por Anong (Jani Zhao), uma tailandesa amarrada à rede.
Por outro lado, também foram abordadas neste diálogo com o realizador, algumas das suas opções para a narrativa cinematográfica, a melhor das quais, segundo o próprio, transmitida por um espectador noutra destas sessões especiais, de que se fez “justiça cinematográfica”. Não podia estar mais de acordo. O resto só vendo o filme, que recomendo vivamente. Para já é uma das boas surpresas do ano no que toca ao cinema português, quando já aí está Projecto Global, de Ivo Ferreira, sobre a actuação das FP-25, nos anos de 1980.
Voltando a O Barqueiro, não podíamos deixar de referir o extraordinário elenco e as interpretações que nos ofereceram, desde logo Romeu Runa, num registo contido, mas poderoso, domina as cenas em que entra, ou seja, o filme (o seu porte ajuda, e muito), mas também Miguel Borges, num mais que convincente mafioso, a rebelde Jani Zhao (também a vamos ver no Projecto Global) e Madalena Aragão. Tenho para mim que Simão Cayatte é um excelente director de actores. Quando saí deste filme fui ver no streaming a sua primeira longa-metragem, Vadio (2022), e a sensação foi a mesma, consegue tirar tudo dos actores.
Cape Fear, outro recluso à solta
Um dos reclusos mais conhecidos do cinema é sem dúvida Max Cody, um psicopata que quando libertado se quer vingar de Sam Bowden, que ele considera responsável pela sua prisão, e respectiva família. Um jogo perigoso que incute nos visados o medo e a incerteza do próximo passo no permanente assédio de que são alvo.
Com uma primeira versão de 1962, dirigida por J. Lee Thompson, conta com intérpretes de peso, Robert Mitchum no sádico perseguidor e Gregory Peck como Sam. Performances para recordar. Mas, eis que, em 1991, Martin Scorsese realiza um remake, com Robert De Niro num arrasador Cody, que lhe valeu a nomeação do Óscar de Melhor Actor, bem respaldado por Nick Nolte à beira da explosão. Quer numa quer na outra versão, os papéis femininos também estão à altura, sendo que na obra de Scorsese, Juliette Lewis, a filha do casal, também foi nomeada para Melhor Actriz Secundária nos prémios da Academia.
Vem isto a propósito de uma nova adaptação da obra de John D. MacDonald, agora em formato de série, com a expectativa de termos como Max Cody o espanhol Javier Bardem que já deu provas mais que suficientes do que é interpretar um vilão: como Anton Chigurh, de No Country for Old Men (2007), de Ethan e Joel Coen, ou o Silva de Skyfall (2012), de Sam Mendes, da franquia 007.
Até à próxima e bons filmes!