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Bocas do galinheiro E o ÓSCAR foi para…

19-03-2026

Já aqui dei conta dos filme candidatos aos Óscares de que mais gostei. Por muito que queira fugir ao tema, todos os anos eles vêm ter connosco. Basta dar uma vista de olhos a uma mão cheia de jornais e revistas, quer nacionais quer estrangeiras, para se perceber que nesta altura o cinema passa a girar à volta das estatuetas douradas de Hollywood: arriscam-se vencedores e perdedores, questiona-se a ausência de filmes, actores e actrizes que deviam constar nos candidatos e não estão, e por aí adiante. É da natureza das coisas. Não há como fugir, mesmo quando temos uma opinião  de negação do poder da “indústria”. É um peditório gasto: as salas, a sua sobrevivência, sem pretender dramatizar nem enaltecer o cinema dito comercial, face ao chamado cinema de autor, filme oscarizado significa uma subida acelerado de espectadores, logo de receita.

Aliás, esta dicotomia foi de certa forma desfeita por dois cineastas portugueses do Cinema Novo Português, José Fonseca e Costa e António-Pedro de Vasconcelos que perceberam que podiam fazer bom cinema e fazê-lo chegar a um público alargado, atingindo recordes de bilheteira até então nunca vistos no cinema português, sem abdicar da sua independência ética, artística e estilística, como aconteceu com Kilas, o mau da fita (1981) do primeiro e que se tornou o filme mais visto do cinema nacional, suplantado em 1984 por O Lugar do Morto, de Vasconcelos.

Assim sendo vamos analisar à luz da realidades em análise os vencedores deste ano conhecidos na passada segunda-feira. Mea culpa.

No geral acompanhei as escolhas deste ano. Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson era para mim o melhor filme na corrida e ganhou. Apesar da surpresa do record de nomeações, dezasseis, Pecadores, de Ryan Coogler, estava muito longe do impacto do filme de P.T. Anderson. Mais uma vez vingou o bom senso e levou também a estatueta de Melhor Realizador. Merecida, por este filme, mas também por uma mão cheia de grandes obras que já nos deu, de Boogie Nights (1997) a Punch-Drunk Love (2002), passando pelo arrebatador Magnolia (1999).

Seria, pois, entre estes dois filmes que a tarde/noite se iria decidir. Confirmou-se. Foi Batalha Atrás de Batalha que levou a melhor, não arrasou, uma vitória por seis a quatro, com a vantagem para as duas categorias principais. Venceu também na nova categoria estreada este ano, Melhor Casting, para Cassandra Kulukundis, a autora das escolhas. Ficaram empatados nos argumentos, adaptado e original,  para P.T. Anderson e Ryan Coogler, respectivamente, e Pecadores viu ainda Michael B. Jordan ser reconhecido como Melhor Actor. Neste segmento não alinho com a Academis, nem tão pouco com as previsões dominantes. Tenho que o justo vencedor teria de ser Ethan Hawke, pela sua empolgante interpretação do letrista Lorenz Hart, que com o compositor Richard Rodgers nos legaram uma distinta lista de canções e musicais da época de ouro do género, no filme Blue Moon, de Richard Linklater. Jordan vinha acumulando prémios, relegando Timothée Chalamet para segundo plano, ele que à partida se perfilava como um vencedor anunciado, com o brasileiro Wagner Moura à espreita.

Em maré de intérpretes, o Óscar de Melhor Actriz para Jessie Buckley em Hamnet era mais que esperado, o mesmo não se podendo dizer de Amy Madigan, Melhor Actriz Secundária por Weapons, atropelando a super favorita Teyana Taylor, em Batalha Atrás de Batalha, cujo prémio para Melhor Actor Secundário foi para Sean Penn que, entre outros, concorria com o seu colega de elenco Benicio del Toro e com Stellan Skarsgård, em Valor Sentimental, também um candidato de peso. Penn primou pela ausência na cerimónia, sabendo-se que optou por estar na Ucrânia, ao lado de Zelenski, a quem há uns tempos havia oferecido um dos Óscares que ganhara (não sabemos se o de Mystic River ou de Milk).

Uma categoria que de há uns anos a esta parte tem visto aumentar o seu impacto é a do melhor filme internacional, normalmente relegada para  as categorias ditas secundárias. No ano passado a vitória foi para Ainda Estou Aqui, de Walter Salles e este ano novo filme brasileiro estava na corrida, O Agente Secreto, de  Kleber Mendonça Filho, que tem como protagonista Wagner Moura, ambos retratando momentos da ditadura militar no Brasil mas, principalmente, uma mostra da pujança do moderno cinema brasileiro. Venceu Valor Sentimental, do norueguês Joachim Trier, uma excelente escolha, ele que já se havia destacado com  The Worst Person in the World (2021), curiosamente com a mesma protagonista, Renate Reinsve, também nomeada para melhor actriz.

No documentário a vitória foi para Mr Nobody Against Putin, de David Borenstein e Pavel Talakin, denúncia da invasão da Ucrânia e da propaganda e militarização da Escola documentada clandestinamente por um professor e Melhor Curta-metragem Documental o vencedor foi All the Empty Rooms, de Joshua Jeftel. Mas, foi na Melhor Curta-metragem que aconteceram dois vencedores, The Singers, de Sam A. Davie e Two People Exchanging Saliva, de Natalie Musteata e Alexandre Singh.

No resto, para além da repartição de prémios entre os candidatos mais fortes, a consagração do K Pop com KPop Demon Hunters a vencer o Melhor Filme de Animação e a Melhor Canção, Golden.

Para o ano há mais.

Até à próxima e bons filmes! 

Luís Dinis da Rosa
variety.com
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