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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXVIII

Bocas do Galinheiro 2025: Balanço de um ano estranho

26-01-2026

Há já algum tempo que não fazíamos o balanço para sabermos se estivemos perante um bom ano cinematográfico. E 2025 teve de tudo. Bons filmes, dos maus a história não vai rezar e perdas de grandes vultos da 7ª Arte. Fomos referindo alguns ao longo do ano, lembraremos outros neste reinício. Mas, primeiro, os filmes.

A olhar para os Globos de Ouro, há para já alguns filmes que se destacam nos ganhos, o que foi sempre um prenúncio para os Óscar e que este ano se inclinou para Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson e Hamnet, da já oscarizada Chloé Zhao, para além de o Agente Secreto, de  Kleber Mendonça Filho, mais um olhar para o moderno cinema brasileiro e para o actor Wagner Moura.

Entre eles alguns que vi e gostei, abrindo aqui um parêntesis para lembrar que alguns filmes estreados em 2025 já entraram nas contas dos prémios da Academia do anos passado, como foi Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, Melhor Filme Internacional e um dos mais vistos em Portugal, ombreando com os suspeitos do costume, Missão Impossível: O ajuste de contas final, de Christopher Mcquarrie, mas com esse factor adicional de o protagonista ser Tom Cruise, o abono de família da saga, ou mais um filme com dinossauros, o que não deixa de ser surpreendente, Mundo Jurássico – Renascimento, de Gareth Edwards. Mas voltando ao que interessa, destaque para  as 16 nomeações de Pecadores, de Ryan Coogler, a grande surpresa para a cerimónia de 2025. No restante a tendência é a esperada, para além dos filmes de Paul Thomas Anderson  e Chloé Zhao, Frankenstein de Guillermo del Toro está também na corrida, tal como o Agente Secreto. A ver vamos.

No que aos filmes portugueses diz respeito, a colheita de 2025 é deveras aceitável. Se olharmos para os mais vistos, O Pátio das Cantigas, de Leonel Vieira, foi o campeão da bilheteira, ele que nos chamados “blockbuster”, aqui à portuguesa, tem vindo a acumular louros, mas muito aquém dos remakes de O Pátio das Cantigas e de O Leão da Estrela que nesse campo foram nisso exemplares. Sem bater o número de espectadores, O Lavagante, de Mário Barroso, para mim é de longe o melhor filme português de 2025. Já aqui lhe dedicámos espaço, pelo que não nos vamos repetir. Também Diogo Morgado como realizador tem dado boa conta do recado, agora com O Lugar dos Sonhos, o que é de aplaudir.

Outros dois filmes portugueses se distinguiram, se bem que com maior reconhecimento lá fora. Estamos a falar de On Falling, de Laura Carreira, distinguido com o Prémio Descoberta – FIPRESCI Prix, nos European Film Awards, em que o tema central é o do trabalho imigrante, no caso na Escócia, e da precaridade e aos magros salários associados a esta condição vivida por muitos jovens, neste caso Aurora, na Escócia. Por seu lado O Riso e a Faca, de Pedro Pinho, que valeu a  Cléo Diára o Prémio para Melhor Atriz da Secção Un Certain Regard no Festival Internacional de Cinema de Cannes e no Festival du Noveaux Cinema, em Montreal Canadá, galardoado como a Melhor Longa-metragem da Competição Internacional. Duas notas na produção portuguesa: uma para Banzo, de  Margarida Cardoso, um regresso da directora à temática colonial, aqui num retrato do trabalho escravo em S. Tomé e Príncipe no início do século passado, quando a escravatura já havia sido abolida em Portugal. A outra é para Justa, de Teresa Villaverde, estreado em Dezembro, um belo filme, sobre o depois das perdas dos incêndios de 2017. A realizadora não foi buscar imagens da tragédia, apenas um breve ouvir de sirenes e gritos, nos fará lembrar o que aconteceu. Mas a memória das personagens e o trauma do que passaram naquela fatídico dia, transmitida pelas representações, excelentes, diga.-se, de Betty Faria, José Ricardo Vidal, Madalena Cunha e Filomena Cautela, uma agradável surpresa, diz tudo. Imperdível.

Em maré de perdas, 2025 foi um ano de dolorosas partidas. Para além daqueles que fomos lembrando ao longo do ano, entre eles Robert Redford e Diane Keaton, as mortes recentes de Rob Reiner, que depois de o vermos como “Meathead”, como o ultra direita do sogro o chamava em All In The Family, uma série de enorme êxito na década de 1970, destacou-se como realizador com desataque para Stand By Me (1986), com os jovens Kiefer Sutherland e o já falecido River  Phoenix, a comédia romântica When Harry Met Sally (1989) ou mais recente The Bucket List (2007) com Jack Nicholson e Morgan Freeman. Já  Béla Tarr, tem, numa obra relativamente curta, em O Cavalo de Turim (2011) o seu filme mais reconhecido, ele que em 1994 adaptara, também de Lásló Krasznahorkai, Prémio Nobel da Literatura 2025, Sátánntangó, um filme de mais de 7 horas. Quem nos deixou também foi Manuel Faria de Almeida, nascido na então Lourenço Marques, em Moçambique, realizador de Catembe (1965), um dos filmes que mais sofreu às mãos da tesoura da censura do Estado Novo, mais de cem cortes, e que mesmo assim foi proibida a sua estreia comercial na altura.

A fechar, para além de Val Kilmer, Richard Chamberlain, Marianne Faithfull, lembrada pelas suas incursões musicais e outros, não podíamos esquecer Brigitte Bardot. Não que nutrisse na altura uma admiração assim tão profunda por ela, aliás os seus filmes passaram-me quase todos ao lado, mas pelo que representou, para o bem e para o mal, como mulher, “criada por Deus”, como a filmou Roger Vadim.

Até à próxima e bons filmes!

Luís Dinis da Rosa

Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico

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