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Bocas do galinheiro O Magnífico Belmondo 23-09-2021

Jean-Paul Belmondo, o maior, digo eu, ícone do cinema francês e europeu, já agora, mundial, morreu no passado dia 6, aos 88 anos. Actor fetiche da Nouvelle Vague (a tal corrente criada por críticos cinematográficos quase exclusivamente dos Cahiers du Cinéma, seu porto de abrigo, entre os quais, para além de Godard, pontificavam François Truffaut, Jacques Rivette, Eric Rohmer e Claude Chabrol) graças sobretudo a “O Acossado” (1960) onde deu vida ao pequeno ladrão de automóveis, Michel Poiccard, aliás Lazlo Kovacs, obcecado  por Humphrey Bogart, numa clara referência ao filme negro influenciador desta obra, e “Pedro, o Louco” (1965), ambos de Jean-Luc Godard. A sua carreira de quase 60 anos, está recheada de êxitos e de personagens que fizeram história, nomeadamente em filmes de acção dos anos setenta e oitenta, altura em que enfrentou com garbo grandes nomes do cinema americano do género, como Clint Eastwood ou Charles Bronson. Nessa altura brilhou em filmes como “O Magnífico” (1973) com Jacqueline Bisset e Hans Meyer, “O Incorrigível” (1975), ambos de Philippe de Broca, ao lado de Geneviève Bujolde e Capucine, “O Profissional” (1981), de Georges Lautner, com Jean Desailly e Cyrielle Clair, ou “O Marginal” (1983), de Jacques Deray, com Henry Silva e Carlos Sotto Mayor.

Filho do escultor Paul Belmondo e da dançarina Madeleine Belmondo, Jean Paul nasce a 9 de Abril de 1933 em Neully-sur-Seine. Frequentou o Conservatoire National Superieur d'Art Dramatique (CNSAD), tendo actuado em várias peças de teatro a partir de 1950, iniciado-se no cinema em 1956 na curta-metragem, “Moliére”, de Norbert Tildian, para no ano seguinte aparecer em “À pied, a cheval et en voiture”, de Maurice Delbez. Seguiram-se um rol de papéis secundários que, apesar de tudo, abriam pistas para o que seria a trajectória da carreira de Belmondo: comédia e acção, com destaque para “A Bela e os Gangsters” (1958), de Marc Allégret, ou “Les Tricheurs” (1958), de Marcel Carné.

A história de Belmondo também podia dar um filme. A sua queda para o desporto levou-o a praticar futebol, foi ciclista e boxeur. Neste último, ponderou mesmo a hipótese de se tornar profissional. Felizmente para nós mudou de ideias, apesar de algum sucesso entre as cordas. Com ar de rufia, daí os muitos papéis de gangster, com um sorriso inconfundível, soube construir uma carreira firme, com a concorrência de peso de um adversário pátrio, Alain Delon, dotado de uma carinha laroca que contrastava com a do durão Jean Paul. Mas tal não os impediu de serem amigos e rivais, contracenando mesmo em “Borsalino” (1970), de Jacques Deray, sobre dois vigaristas que resolvem empreender no mundo do crime na Marselha dos anos 30 e na super-produção dirigida por René Clément, “Paris Já Está a Arder?”, sobre a libertação de Paris pelos aliados e os planos de Hitler para a arrasar.

Todavia, reforça-se, será do seu encontro com Godard que a sua carreira inicia um imparável trajectória ascendente. Mas a sua ligação à Nouvelle Vague não foi duradoura. Porém, além das fitas já citadas, ainda protagonizou “Moderato Cantabile”, 1960, de Peter Brook, baseado na obra de Marguerite Duras, com Jeanne Moreau, outra enorme actriz francesa, “Uma Mulher é uma Mulher” (1961), ainda de Godard, com Anna Carina e Jean-Claude Brialy, tendo também sido dirigido por François Truffaut em “A Sereia do Mississipi” (1969), ao lado de outro ícone francês, Catherine Deneuve e “À Double Tour” (1959), de Claude Chabrol, com Belmondo num personagem também chamado Lazlo Kovacs, ao lado de Madeleine Robinson e Antonella Lualdi e ainda “Staviski” (1974), de Alain Resnais.

Popularíssimo em França e não só, filmou com os nomes maiores do cinema francês e europeu como Jean-Pierre Melville, Vittorio de Sica (“Duas Mulheres”, de 1960, com Sophia Loren), Agnés Varda, Jean Becker e tantos outros. Curiosa é a sua participação em “Casino Royale”, de 1967, uma adaptação fora da caixa da novela de Ian Fleming, com o agente James Bond, o 007, puro divertimento e comédia com realização, entre outros, de John Huston, e com infindáveis estrelas por metro quadrado de cenário, onde pontificavam Peter Sellers, David Niven (que protagonizaria com Belmondo e Bourvil “O Cérebro”, dirigido por Gérard Oury), Ursula Andress, Woody Allen, Orson Wells e tantos, alguns que pensavam que iam fazer um James Bond à séria! e, claro, o legionário Belmondo.

Na sua homenagem ao actor, o presidente francês referiu-se a ele como o Magnífico, como era carinhosamente apelidado em França, obviamente por causa da fita do mesmo nome, que foi um êxito retumbante, a par de Bebel.

Nos anos 80 e 90 regressou ao teatro, uma das suas primeiras paixões. O pouco cinema que já fazia, abandonou-o por problemas de saúde em 2001, tendo feito a sua última actuação como protagonista em 2009 em “Un Homme e Son Chien”, de Francis Huster.

Em 1989 recusou o César pela sua interpretação em “Itinerário de uma Vida”, de Claude Lelouch, porque o autor da estatueta terá feito declarações pouco abonatórias relativas à obra escultória do pai do actor. È de homem! Todavia em 2011 o Festival de Cannes concedeu-lhe a Palma de Ouro pela sua carreira, que aceitou, o mesmo acontecendo em 2016, no Festival de Veneza recebendo o respectivo Leão de Ouro.

Os franceses diziam que era um tesouro nacional. Pela nossa parte, também queremos uma parte.

Até à próxima e bons filmes!

Luís Dinis da Rosa

Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico

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