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Bocas do galinheiro Big Brother is watching you! 22-03-2021

No ano de 1984 o grande vencedor dos Óscar foi “Laços de Ternura”, de James L. Brooks. Fez quase o pleno: melhor filme, melhor realizador, melhor actriz, Shirley MacLane, melhor actor secundário, Jack Nicholson e ainda o melhor argumento, também de Brooks, para além de mais meia dúzia de nomeações. Do lado de cá do Atlântico “Paris,Texas”, de Wim Wenders levava a Palma de Ouro de Cannes. Em Portugal fez furor “O Lugar do Morto”, de António-Pedro Vasconcelos, com Ana Zanatti e Pedro Oliveira, um thriller bem desenhado, com mistério e sexo q.b., um êxito de bilheteira não muito usual até à altura de filmes nacionais. O prémio Nobel da literatura foi para o poeta, também escritor e jornalista checo, Jaroslav Seifert, sendo o Grammy para o melhor álbum entregue a Michael Jackson, por “Thriller”, no ano em que morreram António Variações e Johnny Weissmuller, o campeão olímpico de natação, eterno Tarzan no grande ecrã. Um ano que marcou a conquista da primeira medalha de ouro nos Jogos Olímpicos para as cores nacionais, feito que se deve a Carlos Lopes, vencedor da Maratona em Los Angeles, em que Rosa Mota, arrecadou a medalha de bronze na mesma distância, uma premonição para o ouro que arrebataria quatro anos depois em Seul. Ou seja, um ano que decorreu, se o podemos dizer, normalmente, muito diferente da realidade vivida e relatada por Winston Smith em “1984”, o romance distópico, publicado em 1949, escrito por George Orwell, ou melhor dito, por Eric Arthur Blair, de seu verdadeiro nome.
Nascido na India em 1903, filho de um funcionário da administração britânica, Richard Blair, e de Ida Mabel, que na altura vivia na colónia com os pais, cresce em Inglaterra, tendo frequentado o selecto colégio de Eton. Em vez de seguir a via universitária, em 1922 alista-se como voluntário na polícia, seguindo para a Birmânia, onde passa cinco anos. Regressado a Inglaterra casa com Eileen O’Shaughnessy, irlandesa, em 1936, ano em que se junta à frente de esquerda na Guerra Civil de Espanha ao lado dos trotskistas. Ferido, volta a Inglaterra dedicando-se definitivamente à escrita, o que aliás já vinha fazendo desde que regressara da Birmânia, sendo que “Down and Out in Paris and London”, um relato da sua vivência sem cheta nesse período, apenas publicado em 1933 é disso exemplo. Das suas memórias na Guerra Civil de Espanha há de publicar “Homage to Catalonia”. Mas serão os seus dois últimos romances, “Animal Farm”, traduzido e publicado em Portugal como “O Triunfo dos Porcos” ou “Quinta dos Animais”, uma fábula/sátira política que é ao mesmo tempo um ataque feroz ao estalinismo, claramente na sequência da sua experiência espanhola, e o aclamado “Nineteen Eighty-Four” (1984), um alerta atualíssimo sobre os perigos do securitarismo e da supressão das liberdades. Vem isto a propósito da entrada das obras de Orwell no domínio público, o que levou a uma avalanche de republicação dos seus textos de não-ficção e romances.
“1984” até poderá não ser a obra maior da ficção distópica, mas é aquela que se tornou referencial dos medos que sentimos, dos perigos que pode representar a evolução tecnológica e o seu aproveitamento por um qualquer Irmão que aí venha. Adaptado ao cinema por Michael Radford, exactamente em 1984, “1984”, protagonizado por John Hurt, no papel de Winston Smith, o funcionário do Departamento de Documentação do Ministério da Verdade da Oceânia, o país/mundo em que se desenrola a distopia orwelliana, cuja função é alterar os registos históricos à luz do presente (todos nos lembramos das fotografias da ex-União Soviética em que figuras caídas em desgraça, como Trotsky, que Orwell admirava, foram apagados, ou será que hoje não se estará a passar algo muito parecido?), para que o Grande Irmão que tudo vê e sabe, que ninguém vê, mas que a todos submete, mantenha o seu poder, actuando a Polícia das Ideias para esmagar quaisquer veleidades “nefastas” que possam surgir, incluindo relações amorosas, que eram proibidas, a devassa da intimidade permitia esse controle, entrando em cena funcionários zelosos como o sinistro O’Brian, interpretado por Richard Burton. Já em 1956, Michael Anderson havia adaptado a novela, com Edmond O’Brian e Michael Redgrave nos papéis principais. (Um parêntesis para lembrar o aparecimento do reality show “Big Brother” na nossa televisão em 2000! Curiosamente Mark Zuckerberg, um dos criadores do Facebook, nasceu em 1984! É nesta rede que muitos dos que se queixam dos perigos da devassa da intimidade, colocam fotografias de tudo o que fazem durante o dia!). Adiante.
Inspirada em Estaline, obviamente, “O Triunfo dos Porcos/Quinta dos Animais” é outra obra adaptada ao cinema, mas aqui em animação, realizada por Joy Batchelor e John Halas em 1954, ou como o grande porco, Napoleão, vai tomar conta da quinta, melhor dizendo, “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que os outros”, leia-se, os que mandam. Uma clara alusão ao comunismo e à clique dirigente, que tudo controla. Orwell que morreu em 1950, apesar de antifascista, por isso combateu em Espanha, era também um convicto antiestalinista. Em 1999 apareceu uma nova versão desta sátira política, agora com animais (com vozes humanas, claro) e humanos, realizada por John Stephenson
Outras obras de Orwell foram transpostas para a tela, como “Prazeres Londrinos” (Keep the Aspidistra Flying, 1997), com Richard E. Grant e Helena Bonham Carter, sobre um publicitário que decide deixar tudo para ser poeta, só que lhe começa a faltar o dinheiro, tal com ao autor nos seus primeiros tempos de escrita. Também baseada na sua própria experiência na Birmânia é a curta metragem “Shooting an Elephant” (2016), adaptada de uma sua história com o mesmo nome.
No ano de todas as edições, 2021 é ano de retomar ou iniciar a(s) leitura(s) de George Orwell, quando se anuncia uma nova adaptação de “Nineteen Eighty-Four”, por Paul Greengrass.
Até à próxima e bons filmes!

Luís Dinis da Rosa

Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico

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