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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXII

Bocas do galinheiro Bond, James Bond? 23-11-2020

Mais um dos maiores desapareceu. Sean Connery morreu no passado dia 31 de Outubro e sem ele a galeria de uma geração gloriosa ficou mais pequena. Para muitos será lembrado por James Bond, ou melhor, 007, mas seria injusto reduzir um actor de enorme talento e presença no grande ecrã a um papel que, efectivamente tornou imortal. Criado por Ian Fleming, o agente secreto ao serviço de Sua Majestade e com ordem para matar, deve a este escocês a ascensão à galeria das personagens que marcaram o imaginário de gerações cinéfilas.
Foi em 1962, que o quase desconhecido Sean Connery dava corpo a um agente secreto, com licença para matar, em “Dr. No”, por cá “007 – Agente Secreto”, com realização de Terence Young, e dava assim início a esta saga de espiões mais célebre do cinema e que sobrevive há mais de 50 anos. Além da licença para matar, tinha também carta-branca para engatar todas as miúdas que entrassem no seu raio de acção (na contabilidade da Total Film, Sean Connery enroscou-se com 17, batido por uma por Roger Moore, muito longe dos quase monogâmicos intérpretes recentes). Neste primeiro filme a estantaria de “Bond Girls”, tem em Ursula Andress, a primeira de uma longa e distinta lista de Bond Girls, desde logo por causa daquela sua aparição, a sair da água num bikini tão branco quanto invulgar nas telas por aqueles tempos. O resto já se sabe como sempre acaba, ou quase sempre. Connery voltaria ao papel em “From Russia With Love” (1963), novamente com realização de Young, uma história, mais uma, no auge da Guerra Fria em que o nosso agente vai ajudar uma agente soviética, Daniela Bianchi e na agente má está a grande Lotta Lenya. Segue-se-lhe “Goldfinger” (1964), e onde aparece pela primeira vez o icónico Aston Martin DB 5, pleno de truques, carro que reaparece “Thunderball” (1965), para além de outros. Mas, voltando ao escocês, ainda faz “You Only Live Twice” (1967), de Lewis Gilbert, onde marca novo encontro com a Spectre e “Diamonds Are Forever” (1971), de Guy Hamilton até se fartar da personagem e tentar a sua sorte noutras interpretações. E em boa hora o fez, apesar de ainda ter reincidido pela sétima e última vez num OO7, desta feita num filme não oficial, e pelo chorudo salário, “Never Say Never Again” (1983), de Irvin Kershner, bem acompanhado por Kim Basinger, Barbara Carrera e, já agora Max Von Sydow e Klaus Maria Brandauer. Nesse ano a fita oficial foi “Octopussy”, de John Glenn, com Roger Moore.
Mesmo antes de se ver livre de vez do papel que lhe deu fama, Connery deslumbra em filmes tão marcantes como “Marnie” (1964), de Alfred Hitchcock, onde contracena com Tippi Hedren, numa trama psicológica bem ao jeito do mestre do suspense onde ainda se nota que o actor tem alguns tiques bondianos. Mas será em “O Homem Que Queria Ser Rei” (1975), de John Huston, segundo uma história de Rudyard Kipling, que, ao lado de Michael Caine, protagoniza um mirabolante filme de aventuras em que dois antigos soldados britânicos na India, decidem que querem ser reis do Kafiristan, um território de onde nenhum branco tinha saído vivo. Para além da direcção de Huston, a química entre os dois actores contribuiu, e de que maneira, para o êxito do filme. Química que se revelará fundamental para a sua criação de Robin Hood, em “A Flecha e a Rosa”, de 1976, de Richard Lester, ao lado de Audrey Hepburn, um Robin e Marian, aliás o título original do filme, vinte anos depois das brigas com o Príncipe John e o Xerife de Nottingham e das andanças ao lado de Ricardo Coração de Leão nas Cruzadas. Já antes o viramos em “Um Crime no Expresso do Oriente” (1974), realizado por Sidney Lumet, com quem fez uma mão cheia de filmes, entre os quais “A Colina Maldita” (1965), à volta da brutalidade sofrida por um grupo de prisioneiros numa prisão militar no Norte de África durante a II Guerra.
Muitos foram os papéis de destaque que nos fizeram esquecer que este gigante fora o tal agente secreto. Basta lembrar a sua icónica representação em “Indiana Jones e a Última Cruzada” (1984), de Steven Spielberg, em que faz de pai de Indiana Jones, Harrison Ford (apesar de os separarem apenas 12 anos!), passando por “Os Intocáveis”, de Brian De Palma, de 1987, onde encarna um dos agentes da equipa de Eliot Ness (Kevin Costner) que se destacou numa caça sem tréguas a Al Capone, papel que valeu a Connery o seu único Oscar da Academia, no caso de Melhor Actor Secundário, e “O Nome da Rosa” (1986), de Jean-Jacques Annaud, baseado na obra de Umberto Eco, onde é o frade Willian Von Basherville que investiga uma série de crimes numa abadia.
Despediu-se dos filmes em 2003 com “A Liga dos Cavalheiros Extraordinários”, de Stephen Norrington, a sua única interpretação baseada numa figura de banda desenhada, que foi ao mesmo tempo uma decepção, tanto o filme como para o actor, que terá sido determinante para não voltar ao plateau. Antes brilhara em filmes em que já é a sua imagem que se impõe. Passeia-se pela tela em “O Primeiro Cavaleiro” (1995), de Jerry Zucker, ao lado de Richard Gere e Julia Ormond, “A Armadilha”, 1999, de Jon Amiel, com Catherine Zeta-Jones, “Descobrir Forrester” (2000), de Gus Von sant, e em muitos outros.
Que mais há a lembrar deste homem dos sete ofícios antes de ser actor? Algumas críticas lhe fizeram face às suas posições machistas, de que nunca se retratou, mas também nunca esqueceu a sua infância de privações e, acima de tudo, fez questão de nunca abandonar o seu sotaque escocês. Morreu durante o sono na sua casa em Nassau, nas Bahamas, onde vivia há largos anos.
Até à próxima e bons filmes!

Luís Dinis da Rosa

Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico

 
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