O Politécnico Bragança (IPB) é um exemplo nacional de como é possível contrariar a sina de estar no interior do país. A aposta na captação de estudantes internacionais tem-se revelado positiva e hoje a instituição tem mais de 10 mil alunos, 3500 dos quais estrangeiros. Orlando Rodrigues, o seu presidente, recorda que esse é um caminho que já está consolidado, e que se vai manter. Mas o futuro passará também por outras apostas.
“Em termos muito genéricos e históricos, tivemos duas grandes prioridades. A primeira, desenvolvida por um dos primeiros presidentes do IPB, Dionísio Gonçalves, passou pela capacitação científica do corpo docente e da instituição. Desde o início, estabeleceu-se uma política muito clara, por exemplo, na progressão na carreira, em que só com o doutoramento era permitido ir-se a professor adjunto. Fomos também o primeiro politécnico a ter unidades de investigação acreditadas pela FCT”.
A segunda, explica, incidiu “sobre a internacionalização e começou um pouco mais tarde, inicialmente, por reação à perda de alunos e à inversão da curva da procura, captando alunos internacionais. Foi também uma forma encontrada para equilibrar as receitas”, revela Orlando Rodrigues.
O presidente do IPB recorda que “rapidamente percebemos que a internacionalização era uma mais-valia para o Instituto. Uma instituição de ensino superior tem que ser, por natureza, internacional. Não se faz formação superior sem mobilidade académica, nem sem interação com os parceiros no resto do mundo. Por isso, começámos a estruturar essa internacionalização através de parcerias com instituições congéneres em vários países do mundo, desenvolvendo programas de diplomação e de cooperação científica”.
A aposta passou pela lusofonia, com o Brasil a ser prioridade onde temos parcerias muito fortes e, naturalmente, com os países africanos, pois entendemos que África é claramente um continente cheio de esperança. Estabelecemos também parcerias com países da Ásia, como a Malásia, Vietname, Índia, e da América do Sul, como a Colômbia”.
Orlando Rodrigues adianta que a política de vistos de alguns países leva a que não possa haver previsibilidade e crie limitações na captação de estudantes. “O ensino superior é um setor exportador. Temos que olhar para ele também nessa perspetiva. Nós temos uma capacidade excedentária no sistema de ensino superior nacional, mas isso não é mau. Pode ser visto como uma oportunidade. A Inglaterra, a Finlândia e outros países nórdicos são um exemplo de como é possível afirmar os sistemas científicos e de ensino superior e colocá-los como sendo um setor exportador. Nós tínhamos essa possibilidade claramente, mas temos que criar mecanismos de confiança entre as nossas estruturas que tratam dos vistos e que permitem que as pessoas entrem no nosso país e as instituições de ensino superior, para que os processos sejam mais ágeis e sobretudo previsíveis”.
Esta questão está já a levar à quebra do número na captação de alunos internacionais. “Nós procuramos selecionar os melhores estudantes, mas depois eles não têm vistos...”, insiste.
Neste momento o Politécnico de Bragança tem 1/3 dos seus alunos oriundos da região, 1/3 do resto do país e um terço de estudantes internacionais. Significa que 3500 estudantes são estrangeiros. “Esta estratégia teve naturalmente um grande impacto na comunidade de Bragança. A região viu-a sempre como uma vantagem, porque sustenta serviços que de outra forma já teriam desaparecido. Por exemplo, na área da saúde, se não fosse a sustentação de população que nós garantimos, grande parte dos serviços já teriam fechado ou diminuído a sua capacidade”.
A vinda de estudantes internacionais obrigou também o IPB a evoluir e hoje vários cursos são ministrados em inglês.
Se a captação de estudantes internacionais tem o problema dos vistos, em termos nacionais há regras que causam constrangimentos. A medida aprovada pelo Governo em aumentar em 5% o número de vagas em todas as instituições é criticada por Orlando Rodrigues. “Na prática, temos uma liberalização. Porto e Lisboa podem aumentar as vagas que quiserem. Isso permite que, num país desigual como o nosso e cheio de perceções, aí se concentrem mais alunos, com os problemas todos relacionados que daí resultam”.
O presidente do IPB critica ainda o financiamento por aluno atribuído aos politécnicos, que é menor que o praticado para as universidades, mesmo que em áreas semelhantes. Também no apoio social as alterações de apoiar os estudantes tendo em conta os custos de vida em cada região são vistas como uma medida negativa. “Temos uma ação social que vai no sentido de dar mais recursos aos que estão no litoral. Estamos claramente, como em tantos outros aspetos, a tornar-nos um país muito desigual, muito concentrado, e isso tem problemas muito grandes em termos de ordenamento”.
Ainda assim, o facto das IES voltarem a poder exigir apenas uma prova de entrada é uma mais-valia face ao ano passado. “Nós estamos a colocar cerca de 60% dos alunos que concluem o ensino secundário no ensino superior. Aqui ao lado, a Espanha coloca 80% ou quase 90%. E esse deveria ser o caminho em Portugal”, salienta.
Orlando Rodrigues considera que esta alteração é justa. “Não há nenhuma razão para considerarmos que um aluno conclui o ensino secundário com sucesso não tem condições para prosseguir no ensino superior”.
Com o RJIES em revisão, o presidente do IPB encara com otimismo a alteração da denominação de politécnico para universidade politécnica. “Em termos nacionais, como sabemos, há um grande estigma relativamente ao sistema politécnico e, portanto, isto vai no sentido de contrariar essa tendência e de reconhecer que as instituições politécnicas fizeram uma evolução extraordinária ao longo destes anos. Elas têm hoje uma capacidade científica muito significativa e desempenham um papel relevante para a coesão do país”.
Apesar da mudança, Orlando Rodrigues diz ser “partidário de um sistema binário, mas não baseado na menorização por via do orçamento ou dos graus, nem pela limitação ao desenvolvimento das instituições – facto que aconteceu até agora. Entendemos que deve haver um sistema binário diferenciado pelas missões, ou seja, temos nos politécnicos uma missão mais próxima da economia das empresas e nas universidades uma missão mais próxima do ensino fundamental e da investigação fundamental. Obviamente que sabemos que as universidades vão à investigação aplicada e os politécnicos, eventualmente, numa situação ou outra, também podem ter linhas de investigação mais fundamentais”.
Obras em curso
O Politécnico de Bragança tem em curso vários investimentos. Orlando Rodrigues fala da nova Escola Superior de Saúde, que integrará um centro (em articulação com a Unidade Local de Saúde) para a inovação e qualificação em saúde e que vai dar resposta a cerca de dois mil alunos. Com um orçamento de 12 milhões de euros, apoiados em três milhões por fundos comunitários, a obra deverá estar concluída dentro de dois anos.
A nível do Plano de Recuperação e Resiliência, o Politécnico está a efetuar um investimento superior a 20 milhões de euros em quatro residências, num total de 520 camas: 200 em Bragança, 200 em Mirandela (em duas residências), e 120 em Chaves. Obras que estarão concluídas em junho.
Orlando Rodrigues reforça a ideia de que o Politécnico de Bragança, “no futuro Universidade Politécnica de Bragança, é cada vez mais necessário e mais útil à sua região. Temos encontrado os caminhos de desenvolvimento, sempre apontando aos melhores referenciais internacionais e é isso que queremos para a nossa região e que ela tenha a mesma ambição que nós temos tido”.