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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXIII

Opinião Telemóveis e Iliteracias

O panorama do Ensino e da Formação demonstra atrasos incompatíveis com as expetativas geradas em torno das metas de desenvolvimento que o país necessita de atingir. Segundo dados publicados pela Pordata, “Portugal destaca-se dos outros Estados-membros nas áreas da Educação e conhecimento, mostrando as estatísticas que, por exemplo, mais de metade dos empregadores (54,6%) não frequentou o ensino secundário ou superior (UE 16,6%). Os dados mostram ainda que quase metade (43,3%) dos trabalhadores por conta de outrem também não tem escolaridade para além do 9.º ano (UE 16,7%).” Pordata
A nível europeu considera-se a existência de níveis de iliteracia elevados como uma manifestação de subdesenvolvimento mental e material. Ora no decurso dos quarenta e sete anos passados sobre o 25 de Abril de 74 os sucessivos governos de Portugal não demonstraram apetência, ou competência, para resolver a situação.
Não cabe neste contexto fazer juízos de valor, tão somente apresentar possibilidades que ajudem a ultrapassar o problema. Perante percentis que nos posicionam no último lugar entre os países da UE, como concretizar a tão falada transição para o digital? Se parte importante da nossa população ativa possui habilitações muito abaixo dos valores médios da UE, urge encontrar linhas de ação inovadoras, pois as que até agora foram experimentadas não demonstraram resultados animadores.
Uma hipótese relativamente pouco considerada tem como suporte a utilização de uma das paixões nacionais: o telemóvel. Verdadeiro objeto de culto ele viaja no bolso, ou na bolsa, da esmagadora maioria dos nossos compatriotas, sendo embora considerado como “faca de dois gumes” pois tanto pode ser usado nas redes sociais para fins eticamente reprováveis, como dispositivo de comunicação vocacionado para o ensino e aprendizagem.
Será oportuno recordar que o telemóvel possui mobilidade total e capacidade de processamento e interatividade bastantes para operacionalizar cursos a distância. Trata-se, afinal, de um computador que possui capacidade para distribuir múltiplas formas individualizadas de aceder à informação. A sua facilidade de utilização e manuseamento gera curvas de aprendizagem intuitivas que permitem o acesso a cursos equipados com reais potencialidades interativas e ao diálogo entre tutores e utilizadores. Tal é possível porque a maioria dos telemóveis processam vídeo online em conferência síncrona, áudio sob a forma de podcast e acesso a conteúdos através de redes semânticas de temáticas associadas. A massa de informação, bem como dados individualizados de acesso a consultas, jogos, trabalhos e diálogos entre utilizadores e tutores está alojada em nuvens de servidores que garantem a integridade de dados.
Os cursos que apresentam jogos baseados em conteúdos com prémios distribuídos em pontos chave da progressão individual têm mais sucesso. A experiência demonstrou que a “gamificação” pode, em contextos específicos, ser um estímulo para a motivação e progressão nas matérias, dado que múltiplos níveis de competição ativam o interesse, além de serem processos eficazes de auto e heteroavaliação.
A revisão periódica da integridade dos conteúdos - realizada pelos especialistas que os conceberam e organizaram - deteta não apenas eventuais fragilidades materiais, como dificuldades sentidas pelos utilizadores. E sempre que as bases de dados são monitoradas por redes neurais de algoritmos, estas constituem um auxiliar de identificação, seja nas deficiências de ordem pedagógica, seja nas dificuldades sentidas em aprendizagens pouco consistentes. Usar este adjuvante poderoso para dele extrair recomendações, tanto para os autores, como para os utentes, é procedimento que garante melhorias sucessivas de aproveitamento.
Não habilitar a população portuguesa com as competências básicas de literacia fluente seria uma atitude equivalente a decidir não vacinar os nossos compatriotas contra a pandemia. Os invernos recentes do nosso descontentamento necessitam que as prometidas “vitaminas financeiras” se traduzam em melhorias concretas orientadas para os setores da sociedade portuguesa que delas mais necessitam.

Carlos Correia
Professor Universitário