Este website utiliza cookies que facilitam a navegação, o registo e a recolha de dados estatísticos.
A informação armazenada nos cookies é utilizada exclusivamente pelo nosso website. Ao navegar com os cookies ativos consente a sua utilização.

Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXIII

Opinião Novo livro de António Salvado: O ESPERADO MOMENTO seguido de COMO SE A TERRA…

Um novo livro de António Salvado está vindo ao público, para acrescentar à sua vastíssima obra. Com ilustrações de Manuel Cargaleiro, mais uma vez estão em presença duas artes com as múltiplas possibilidades de ambas para a percepção estética e a criação de sentidos concedendo maior prazer na leitura.

Um primeiro poema inaugura a obra antes de entrar propriamente no corpo dos textos. É uma espécie de prelúdio que se torna encómio a Manuel Cargaleiro (a quem António Salvado dedica o livro) e que se intitula «Aproximação à arte de Cargaleiro», registando a cálida harmonia, a cor, a luz, os acordes de vibração para os olhos melodia, a límpida beleza, dádiva de aurora, hino à vida, que o poeta vê na arte do Mestre.

Os poemas desta obra dividem-se em três partes: «O esperado momento» (27 poemas), «Como se a terra…» (21 poemas) e «Fata» (8 poemas), num total de 56 poemas. Diria que na primeira parte há um diálogo que se estabelece entre um presente que o eu poético considera outonal e um passado que se engasta na juventude, tempo de sonhos e de luz sem névoa. O presente é tempo de interrogações depois do que se diluiu no passado. De tudo o que foi o presente revela-se como grande perda: «De quanto foi construído / grande parte ruiu já, / de quanto dia plantado / caíram as mais floridas / sementes abandonadas, // do que alcancei (aventuras / tão difíceis de aceitar)… / Algo existe que inda dura / a saber-me a desvendar / novas rotas novos sulcos.». São as duas primeiras quintilhas das quatro que constituem o poema «De quanto foi construído…» (p.34). Apesar do que ruiu e das sementes que caíram, surge de dentro de si algo que é procura de novas rotas e novos sulcos. É uma nota do presente ainda com futuro de promessas. No final da última estância há incitação a essas promessas: «longe surge o cintilar / dum clarão que aclara tudo». Do tempo longe, que é luz, ainda surge a hipótese de mais luz, pelo clarão que divisa. É sempre a marca de esperança de António Salvado. Ecoam vozes desaparecidas (p.37) e o tempo presente é uma presença de ausências, é solidão, silêncio e perda, emergindo dos poemas, por antinomia, um passado que o eu poético vê como mar distante (p.24).

Há por vezes um diálogo eu-tu, sem resposta de destinatário, uma mulher, que é sempre instante de aparição, com memórias de passado, uma mulher que é amada, sendo no entanto, a mulher apenas. Vários poemas a referem, mas um deles intitulado «A uma Vénus» (p.42) vem reforçar esse facto: é a representação de a mulher. O último poema da primeira parte (p.48) intitula-se «O esperado momento», que também é parte do título do livro e vou transcrevê-lo: «Como se nada fosse / pela tarde caída, / nem a mínima brisa / a passar incolor - // o rumorar dos pássaros / prestes a adormecerem, / gente alguma a passar / por este entardecer - // o voltejar somente / do teu corpo tão esguio / e o esperado momento / a cingir-me feliz.». Nas duas primeiras estâncias, apenas o enquadramento temporal de fim de tarde, sem brisa, sem gente, um rumorar de pássaros que vão adormecer, subentendendo-se um espaço indefinido de uma rua talvez; na última estância surge o único movimento, o voltejar dum corpo esguio, a figura feminina num todo de afirmação: é o esperado momento para o eu poético se sentir feliz É o momento da beleza, do júbilo, do amor, da vida.

Na segunda parte, persiste o tema da ausência logo no primeiro poema, mas na quase totalidade dos 21 poemas constitutivos desta parte é a figura feminina que se impõe. Domina: é beleza de Vénus, é juventude, é luz que ilumina noites e povoa sonhos, é manhã, e torna-se «hino de louvor à natureza» («Ver-te é cantar…», p.65), torna-se desejo e amor. É, por vezes, mulher longe, por afastamento ou perda. Porém, selecciono o poema, que detém o mesmo título de parte do título do livro: «Como se a terra…» (p. 53): « Como se a terra se abrisse / para uma flor surgir / e como se antes do dia / ‘strela qualquer existisse / e a dar luz continuasse, / como se o ar do orvalho / sobre a pureza ficasse, / como se nenhuma voz / quebrasse a tal harmonia / que do silêncio se evola - // pois assim és tu és tu / quando de longe ressurges.». As condicionais explicitam a comparação da terra com a figura feminina que surge nos dois últimos versos, convergindo na mulher a terra a fazer surgir uma flor, a estrela a dar luz, a pureza no ar do orvalho, a harmonia do silêncio. Ponho especialmente em relevo o poema de amor, da separação da mulher amada: «(À memória de João Rodrigues de Castelo Branco)» (p. 63). É marcante a relação de intertextualidade com a «Cantiga Partindo-se». Igualmente o olhar dos que se amam e a tristeza da ausência perduram num canto de amor à mulher amada.

A terceira parte desta obra de poesia, que se vem referindo, designa-se como «Fata», compondo-se de oito poemas, dos quais apenas o último não é constituído por quadras. Os jogos e as dúvidas do amor e a mulher continuam a estar presentes, tal como o desejo e a paixão, a beleza e juventude femininas. A simplicidade numa dimensão comunicativa mais abrangente é uma das características das quadras populares, embora, na poesia de António Salvado, a metáfora e a comparação detenham uma certa distinção de estilo. Por vezes, há mesmo mais exigência na leitura, como no caso do poema «Canto o melhor que conheço…» (p. 80), na referência a Castália, uma fonte no Monte Parnaso, resultante da transformação da ninfa Castália em nascente de água, por obra de Apolo. Essa água inspirava poetas que dela bebessem. Transcrevo a primeira quadra do poema referido: «Canto o que melhor conheço - / a mágoa a nascer da mágoa, / receio a brotar do medo: / água turva de castália.». No entanto, o poema «Tua juventude eu canto…» (p.79) imprime toda a graciosidade a uma figura feminina que é objecto do canto: «Tua juventude canto / e o teu corpo a latejar / por sentir a cada instante / o teu sangue a circular. // És uma flor de beleza, / de pétalas de mil cores - / sem igual na natureza, / derramas beijos, odores. // Renasces continuamente / no meu canto para ti: / porque tu és o presente, / e o futuro que em ti vi.». Evola-se um canto de fado por uma fatalidade do amor. Mas fado é também destino, um destino de viver o amor e a natureza e cada momento da vida que, na totalidade deste novo livro de poesia, António Salvado expressa com beleza formal e de sentimento, com marcas de confessionalismo que partilha com o leitor.