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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXII

Opinião Teletrabalho: fábulas e rábulas

A utilização do teletrabalho foi potenciada pela pandemia para remediar algumas consequências do confinamento. A decisão assumida de o aplicar em atividades públicas e privadas compreende-se na medida em que o trabalhador confinado pode, em certos casos, desempenhar tarefas que não exigem a sua presença física.  Contudo, é preciso reconhecer que esta fase da  “transição para o digital” nem sempre decorre da melhor forma. É certo que há quem domine todos os meandros do sistema e conte com competências consolidadas. Mas em muitos casos existe aquela boa vontade característica da generosidade voluntarista e desenrascada do “português sem mestre mas com jeito”, pensamento magistral com que Francisco Fanha sintetizou um certo modo de ser português. Apreendem-se superficialmente umas quantas indicações básicas indispensáveis para ligar o computador ao sistema e quando - após algumas tentativas goradas - a informática funciona, eis que no ecrã surgem os rostos dos colegas alinhados em quadrinhos e  “embora lá ao trabalho que se faz tarde!”

Não se deve confundir videoconferência com teletrabalho porque este processo exige três condições básicas para concretizar o aproveitamento pleno das suas potencialidades. A primeira situa-se do lado do computador cliente, ou seja, a máquina instalada em casa do utilizador: tanto a nível do hardware como da qualidade da rede precisa de responder às necessidades do processamento e de largura de banda generosa, sem nunca esquecer a blindagem necessária às questões relacionadas com a segurança.

A segunda condição tem a ver com as necessidades de software, denominador comum que abrange o conjunto de programas compatíveis, indispensáveis ao desempenho das funções profissionais de cada trabalhador.

A terceira condição coloca-se ao nível do sistema central que não só controla o programa de videoconferência como configura no “backoffice” os processos organizacionais e os sistemas de gestão que facilitam a transição de dados de cada uma das máquinas “clientes” para os servidores centrais. Será nestas máquinas que tanto a gravação do vídeo registado, como o produto do trabalho individual e coletivo será alojado e estruturado em bases de dados relacionais suscetíveis de serem percorridas por algoritmos que vão privilegiar o chamado “deep learning”, processo a partir do qual se extrai o famoso “petróleo do século XXI” expressão criada por Al Gore.

Porém, processos e procedimentos dependem da qualidade do “brainware”, fator humano  indispensável para operacionalizar as tarefas situadas a montante e a jusante do teletrabalho. É neste contexto que o “português sem mestre mas com jeito” já não consegue ultrapassar as suas próprias carências e incapacidades porque a transição para o digital  é incompatível com o analfabetismo funcional. Usa-se a expressão para caracterizar a situação do cidadão que frequentou a escola, aprendeu a ler, escrever e contar mas há muito deixou de usar regularmente essas competências. As suas principais características comportamentais são as seguintes: raramente lê, prefere a TV; quase nunca escreve, prefere o telefone; os seus conhecimentos de matemática tropeçam nas funções básicas da aritmética pelo que compreende mal os descontos inscritos na sua folha salarial ou os juros do extrato bancário.

Em Portugal estamos neste campo perante uma epidemia crónica que nos afeta há muitas décadas sem que a sociedade e a sua governança tenha demonstrado capacidade, competência ou vontade para combater um mal que inviabiliza toda e qualquer hipótese de um futuro melhor.  E nem se pode afirmar que a situação é desconhecida porque já em 2005 uma instituição internacional com o prestígio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) publicou um relatório onde se afirma que 48% dos portugueses não conseguiam perceber o que liam ou tinham dificuldade em entender parte da informação, enquanto a taxa de analfabetismo literal se situava situava entre os 5 e os 9%.
A iliteracia nacional foi assim avaliada há quinze anos.

E agora como estamos?

Festeje-se a iminente chegada das bazucas europeias carregadinhas de milhares de milhões de euros. Talvez assim os projetos de uma alfabetização finalmente se concretizem. Mas para que a metafórica fábula da bazuca que dispara dinheiro sobre os problemas não venha a transformar-se na costumeira rábula representada pelos bandos de chicos espertos, sedentos de dinheiro fácil, melhor será exigir a apresentação sistemática de resultados aferidos, conferidos e verificáveis.

Os povos mitigados da Europa já informaram que estão atentos à intensidade e direção das bazucadas porque afinal ainda ninguém esqueceu que quando se fala em dinheiro europeu existe a fama de o esbanjar em...

Vocês sabem.

Carlos Correia
Professor universitário