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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXII

Opinião A lição definitiva

Quando o amor era mais íntimo; quando nenhum ruído levantava as pálpebras dos que dormiam – de súbito, despontou naquela noite uma estrela de luz ofuscante. Os pastores acordaram sobressaltados, os animais atiraram à beleza da noite mugidos, grunhidos, relinchos de susto. Aos guerreiros, magistrados, arúspices, sibilas, às figuras gradas do Império Romano, ao próprio Octávio César Augusto passara despercebido este espanto.

Entretanto, corrido o primeiro susto, hinos embaladores e misteriosos, como o odor de rosa oculta em jardim, entraram de chegar aos ouvidos dos pastores. Simultaneamente, uma voz, misteriosa também, mas serena, repleta, prodigiosa proclamou: “Glória a Deus nas alturas e Paz na terra aos homens de boa vontade”. E a mesma voz continuou, adornando os ares, enchendo o escuro e o frio: “Tranquilizai-vos. Trago-vos uma grande alegria, que será também para todo o povo. Na cidade de David, nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos será por sinal: achareis o Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura”.

Quando o silêncio voltou a sulcar a noite, um frémito inquietante os tomou. Um velho pastor reflectiu: “Coisa extraordinária deve ter sucedido, para termos aviso do Céu”. Resoluto, afastando o cortejo de sombras, que se instalara no cérebro daqueles homens rudes, um dos mais jovens propôs: “Vamos a Belém e vejamos o que se passa”. E deitaram-se ao caminho em passos leves. Estavam prestes a chegar à cidade, quando descortinaram um límpido fulgor a brotar de uma caverna aberta na rocha. Acercaram-se. Penetraram nela. E encontraram este quadro que nada tinha de singular: um homem com sua mulher e, deitado sobre as palhas, um recém-nascido.

Todavia, uma floração de respeito e de ternura obrigou-os a ajoelharem-se, adorando a criança e louvando a Deus “por tudo o que ouviram e viram, conforme o que lhes tinha sido anunciado”. Foram os desprotegidos, os excluídos os primeiros a descobrirem numa criança o Deus-Menino. No macio lusco-fusco amanhecente, escrevera-se na História a lição definitiva: só os simples são livres para conhecer e amar.

Manuel Sérgio
Professor catedrático convidado aposentado da F.M.H.