Foi o rosto da previsão do estado do Tempo durante muitos anos na televisão portuguesa. No rescaldo das três semanas meteorológicas que devastaram parte do país, Manuel Costa Alves afirma que Portugal «é célere em chorar e lamentar as tragédias», mas apesar da identificação das vulnerabilidades e dos diagnósticos, «pouco se avança.»
O território nacional viveu três semanas de «inferno» meteorológico, que conheceram o ponto alto com as tempestades “Ingrid”, “Joseph”, “Kristin” e “Leonardo”. Está a ser um inverno à moda antiga ou é a constatação de que as alterações climáticas continuam a progredir?
Essa é a pergunta que se coloca, mas é difícil termos uma resposta definitiva e categórica. Abstraindo-me da particularidade destas últimas semanas, devo dizer que já vivi episódios extremamente duros, demorados e com efeitos igualmente adversos. Relembro que, em 2001, quando estava a representar o então Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica na Proteção Civil, tivemos mais de três meses de passagens sucessivas de sistemas frontais e depressões associadas. Isso provocou cheias tremendas, especialmente no norte e parte do centro. Nesta perspetiva, direi que é o regresso de um inverno à moda antiga. Por outro lado, nos últimos 10 ou 20 anos, passámos a ter a repetição com grande frequência de fenómenos meteorológicos extremos, tanto ao nível da precipitação, como das ondas de calor. Infelizmente, as autoridades competentes fazem um enorme drama com os incêndios florestais, mas continuam a ignorar os milhares de mortos provocados pelas ondas de calor. A juntar a isto, também temos secas mais demoradas e duradouras, em determinadas zonas do território. Do ponto de vista das alterações climáticas, acredito que estamos em período de transição entre duas configurações climáticas, devido à concentração de gases do efeito de estufa na atmosfera. Ao ritmo atual, estamos a poucos anos de atingir o limite de gases, o que determinará o aumento da temperatura média global em dois graus celsius. A política ambiental dos Estados Unidos e a utilização de combustíveis fósseis fazem com que não esteja otimista num futuro imediato.
Os atuais fenómenos climáticos extremos são o grande desafio da investigação meteorológica?
Sem dúvida. E é também devido a estes fenómenos que, creio, devemos intensificar a investigação meteorológica. O aumento da temperatura da superfície oceânica e a interação com a atmosfera vai produzir maior quantidade de vapor de água, logo, maior possibilidade de água precipitável existir na atmosfera. Era preciso saber, quantificar e determinar, se houve aquando da depressão “Ingrid”, suficiente contribuição de uma anomalia quente da superfície do mar. São interrogações para as quais ainda não temos resposta.
Somos um povo mais reativo do que proativo e preventivo. Esta tragédia será, mais uma oportunidade, à semelhança dos incêndios que todos os anos devastam o país, para repensar a organização e o ordenamento territorial?
Lembro-me sempre do que aconteceu aquando do sismo de 1755, em Lisboa: enterrar os mortos, cuidar dos vivos e fazer o futuro. Foi o que fez o Marquês de Pombal ao reconstruir a cidade, servindo-se da ciência que havia na época, deixando-a mais preparada para resistir a futuros abalos. As elites de então preocuparam-se em formular mecanismos de intervenção avançados em relação ao seu tempo. Na atualidade, as situações (sejam elas incêndios ou tempestades) repetem-se e o país é célere em chorar e lamentar as tragédias. Mas pouco mais se faz. Os governos e as autoridades não têm conseguido afirmar esta lógica preventiva de intervenção na sociedade. As vulnerabilidades são identificadas, os diagnósticos estão feitos, mas pouco se avança. Ando, juntamente com outros amigos, a falar há décadas sobre estes temas, mas infelizmente são vozes que não chegam ao céu da governação.
Ouve-se muito dizer que somos todos agentes de proteção civil. Que medidas estruturais podiam ser tomadas para aumentar a cultura de prevenção e risco na sociedade?
A cultura de prevenção existente é muito incipiente e também pode ser interpretada como um lavar da consciência ou «eu avisei, vocês é que não fizeram caso». No outro dia, assistia na televisão a uma conferência de imprensa, em Coimbra, com autarcas e outras entidades e notei a falta do presidente do “meu” IPMA. A Proteção Civil sem os olhos abertos pelo IPMA não faz nada. É preciso reforçar a ligação direta entre estas duas entidades.
Comboio de tempestades, rio atmosférico, ciclogénese explosiva e corrente de jato, são expressões que entraram no dia a dia das pessoas. Será preciso incentivar a literacia meteorológica para descodificar, de forma apropriada, estes termos?
Acho que sim. Os profissionais destas atividades devem, dentro do possível, transmitir o seu conhecimento às pessoas da forma mais acessível possível. Se a literacia na Medicina é essencial, porque é que não há de ser também para a atmosfera? Mas confesso que «rios atmosféricos» e «comboios de tempestades» é um léxico que não gosto. Estes fenómenos sempre foram conhecidos por «sistemas frontais», para quê estar a mudar? Bem sei que a comunicação social aprecia, mas a mim não me convence porque nos estamos a afastar do léxico definidor dos fenómenos, como se faz na Medicina, na Engenharia e noutras profissões.
Parece-lhe mais sensato batizar as tempestades?
Isso acho bem. Aliás, já vem de longe a atribuição de nome aos ciclones tropicais. Primeiro eram apenas femininos e depois também passaram a ser masculinos. Por exemplo, o “Katrina” que teve efeitos devastadores em Nova Orleães, com este nome atribuído é muito mais fácil de ser catalogados cientificamente, facilitando o estudo e acesso à informação, para além da dimensão histórica que perdurará. Em Portugal, o “Kristin”, ficará para a nossa história também com o nome próprio.
As páginas de meteorologia amadora que proliferam na internet contribuem para o conhecimento meteorológico ou, pelo contrário, podem gerar desinformação e desorientação?
Creio que contribuem para uma maior literacia, mesmo sendo desenvolvidas por pessoas que não têm o enquadramento profissional que é dado pelo IPMA. O que sucede nas aplicações que temos no telefone é a adaptação feita por empresas privadas do produto original público. Ou seja, das fontes oficiais. Isso alimenta muitos amadores, com alguns a gerarem mesmo lucros. Há muitos curiosos que estão a evoluir para comerciantes, fazendo dinheiro através das redes sociais. É perante este contexto, que defendo que o IPMA deve estar mais presente e fazer ouvir a sua voz.
Falta-nos um programa de meteorologia após os telejornais, em horário nobre, como acontece, por exemplo, em Espanha?
Esse é um velho problema. Têm de ser os canais, sobretudo a RTP, a definir uma forma de apresentar programas sobre fenomenologias atmosféricas. Depende dos programadores. Mas o facto de a conceção de programação ser muito pobre não ajuda à criação de mais literacia sobre esta temática. As nossas televisões consomem tempo demasiado de antena com testemunhos e outras notas de reportagem, quando podiam exibir imagens de satélite e radar que são dados fornecidos pelo IPMA. São opções de comunicação.
Já está reformado da meteorologia, mas assegura que será meteorologista até morrer. Quais as principais diferenças, do ponto de vista tecnológico, entre a meteorologia que se faz hoje e que se fazia nos anos 80/90?
Estávamos na pré-história e fazer previsões meteorológicas era algo muito subjetivo. Não tínhamos outro suporte. Havia, muitas vezes, uma distância entre a previsão e a realidade. Entrei em 1969 no IPMA e só no final dos anos 70 é que passaram a existir imagens de satélite meteorológico. Durante muito tempo soubemos o que eram os sistemas frontais apenas do ponto de vista teórico e físico. Não sabíamos como se distribuíam espacialmente e se desenvolviam temporalmente. Hoje é tudo muito diferente.
O decano da meteorologia
Manuel Costa Alves, nascido em Castelo Branco, em 1944, é uma espécie de decano da meteorologia em Portugal. Durante mais de uma década foi o homem do tempo na televisão pública, ao lado de Anthímio de Azevedo e Teresa Abrantes, e mais tarde na TVI. Autor de diversos livros – incluindo alguns de poesia –, foi, em 1998, o primeiro representante da meteorologia na Proteção Civil, pelo que conhece como poucos os efeitos do clima na vida do cidadão comum. Em 2001, quis retribuir o que a região que o viu nascer fez por si, ao propor ao Instituto de Meteorologia, onde era assessor, o desenvolvimento de um projeto piloto em Castelo Branco para a monitorização e prevenção das ondas de calor e frio, combinando áreas do conhecimento como a Proteção Civil. A sua pretensão foi recusada. Reformado há vários anos, ocupa os seus dias a escrever poesia e (como não podia deixar de ser) a acompanhar as novidades meteorológicas.