Qualificar o produto basquetebol e recuperar a proximidade com a comunidade escolar são alguns dos objetivos que Carlos Barroca, antigo jogador, treinador e comentador, pretende concretizar caso vença as eleições para a federação da modalidade agendadas para abril.
A Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB) vai a votos precisamente no dia 25 de abril e é um dos candidatos à presidência. Em caso de vitória, pretende liderar uma revolução na modalidade?
A data é, de facto, simbólica. Nas revoluções, por vezes, mudam-se pessoas e sistemas, começa-se do zero, mas não é o que pretendo com a minha candidatura à FPB. O basquetebol no nosso país celebra 100 anos em 2027 e tem uma história riquíssima. Há muita coisa bem feita, as condições financeiras são outras e temos de ser gratos a quem nos últimos anos liderou os destinos desta casa, abdicando de muito do seu tempo de vida pessoal. Em suma, o meu projeto visa construir sobre aquilo que de bom foi feito e tentar sempre melhorar. Vou colocar a minha experiência internacional e o meu estilo de liderança ao serviço da comunidade.
Em inglês temos o termo «give back», que traduzido para português significa retribuir. Quer, depois de ter sido treinador e comentador, aos 67 anos, dar o contributo para o seu país, agora na pele de dirigente?
Isso é absolutamente correto. Em 1988, quando fui para o estrangeiro, pela primeira vez, para trabalhar como treinador-adjunto na Universidade de Pace, em Nova Iorque, já casado e pai de filhos, fui à procura dos meus sonhos. E depois desse desafio, vieram muitos outros, em especial os 10 anos em que estive como vice-presidente da NBA Ásia. Foi uma conquista muito importante. Mas todos estes sacrifícios só fariam verdadeiramente sentido se, um dia, eu devolvesse ao meu país tudo aquilo que aprendi. Esse tem sido o mote da minha vida. A minha missão agora é só uma: retribuir. Chegou o momento.
O lema da sua candidatura é «Mudar para um basquetebol fantástico» e escolheu para a sua lista históricos como o ex-jogador, Carlos Lisboa, embaixador, e o ex-treinador, Jorge Araújo, mandatário, alguns dos principais trunfos desta corrida eleitoral. Quando diz que pretende qualificar o produto basquetebol, significa que a modalidade tem vindo a perder atratividade?
O basquetebol perdeu o comboio da liderança, da credibilidade e da eficiência. Paradoxalmente, o basquetebol teve à disposição muito dinheiro nos últimos oito anos, mas não se soube arregaçar as mangas para criar mais riqueza com a riqueza conseguida. Em tempos de “vacas gordas” temos de saber amealhar e acumular, mas investir. Só que não se investiu, nem no “hardware”, nem no “software”. As instalações deixam muito a desejar, a qualidade dos recursos humanos não é a ideal e escasseiam projetos no médio/longo prazo que contribuam para a sustentabilidade da modalidade. Nos anos 90, era no basquetebol que todas as outras modalidades iam beber. Fomos mesmo a primeira modalidade a ter uma liga profissional – mesmo antes do futebol –, uma escola de formação e uma associação nacional de treinadores de basquetebol.
Voltar a ser a primeira modalidade de pavilhão em Portugal é um dos seus objetivos. Como explica que, por exemplo, o andebol e o futsal a tenham suplantado?
Quer em número de praticantes, em termos de produto qualificado para vender comercialmente ou em termos de “marketing” sofremos uma desvalorização. É preciso dar passos atrás, para dar passos em frente. Assente no “slogan” «Mudar para um basquetebol fantástico» queremos trazer luz, cor e emoção aos pavilhões de Portugal. E para ter visão, eficiência e credibilidade não é preciso dinheiro. É preciso aplicar corretamente os fundos financeiros da FPB para que se prepare a qualificação de todos os elementos, englobando clubes, treinadores, dirigentes, jogadores, árbitros, etc. No fundo, qualificar toda a máquina desportiva que faz movimentar a modalidade. Caso contrário, o produto não será atrativo e não venderá.
Define a meta de passar de 31 mil atletas federados para 45 mil até 2030. Esse objetivo passa por apoiar os clubes e reforçar o investimento na formação base?
Urge fazer chegar mais recursos – sejam financeiros ou humanos – ao coração de qualquer modalidade, e o coração reside nos clubes. Os clubes têm de ter condições para crescer, caso contrário, não lhes podemos pedir impossíveis. Temos de pôr a bola na mão de mais miúdos. E há um aspeto curioso que importa recordar: o basquetebol sempre foi, também, desde a década de 70, a modalidade que mais facilmente entrou na escola, mais tarde com o impulso dos jogos da NBA que eram transmitidos na televisão e depois, na década de 90, com o basquetebol de rua, o 3x3. Nessa altura a escola estava aberta ao basquetebol e o próprio basquetebol também ia às escolas, nomeadamente os atletas internacionais, ajudando a vender o produto. E digo isto para dizer que o basquetebol precisa de regressar à escola, alimentando este projeto e esta relação, com a particularidade de muitas escolas terem instalações para esta prática desportiva. E para além das escolas primárias e secundárias, fundamentais ao nível no processo de captação, acredito que o meio universitário é também uma área óbvia de consolidação de projetos comuns para a prática do basquetebol.
E como conciliar os preenchidos horários letivos com o tempo disponível para a prática desportiva?
Esse é um obstáculo que tem a ver com uma certa falta de cultura do prazer de viver. Não podemos ter alunos fechados nas escolas horas a fio, até porque com este modelo todos, qualquer que seja o escalão, mais novos ou mais velhos, meninas ou meninos, só poderão treinar nos pavilhões deste país a partir das 6 ou das 7 da tarde. E como diz o ditado popular, «é como meter o Rossio na Rua da Betesga». Não dá para todos. Em suma, os horários escolares são um óbice à prática desportiva. Daí a necessidade não de os miúdos da escola irem todos ao clube, mas do clube ir à escola. A Espanha tem um projeto deste género, aproximadamente desde a década de 70, em que são os técnicos que vão às escolas alargando, deste modo, a base de crescimento da modalidade através de trabalho específico com os estabelecimentos de ensino.
De que forma é que os ensinamentos retirados dos 10 anos em que esteve no oriente como vice-presidente de operações na NBA Ásia vão ser aplicados no nosso país?
Se calhar vou surpreendê-lo com esta resposta: foi a minha experiência como diretor do desporto escolar que me permitiu fazer o trabalho que desenvolvi na Ásia, onde suplantei em 25 por cento o objetivo definido pela NBA para 10 anos. A meta era de 40 milhões de miúdos a jogar basquetebol na Ásia, no final de 2024, e o objetivo foi superado, alcançando-se os 50 milhões. Foi essa experiência inicial em Portugal que utilizei para fazer crescer massivamente através das escolas a pratica desportiva. Agora, vou procurar utilizar as várias experiências que tive ao longo de todos estes anos para melhorar e qualificar o produto basquetebol.
Viveu muitos anos no estrangeiro. Diz-se sempre somos ótimos a improvisar e um desastre a planear. Esta é a principal caraterística que impede que consigamos ir mais longe, enquanto país?
Sim, é verdade. Trata-se de algo que nos limita. Fazer um projeto com um horizonte de um ano é a mesma coisa que tapar uma ferida com um penso rápido. Costumo sempre elogiar os quatro presidentes da FPB que conheci, primeiro enquanto atleta e depois como treinador: o Máximo Couto, o general Hugo dos Santos, o Mário Saldanha e o Manuel Fernandes, que acaba agora o seu terceiro mandato. No seu tempo de dirigentes, com mais ou menos dificuldades, tenho a certeza de que fizeram o melhor, querendo sempre o bem comum para o basquetebol. Contudo, aquilo que eu nunca vi acontecer foi planeamento à distância. Se não tivermos metas e estratégia, estamos a trabalhar de forma desgarrada, sem objetivos e acaba por prevalecer a lógica individual do «cada um trata de si». É preciso saber para onde é que as pessoas estão a ir. Nos clubes, nas seleções, etc. E a FPB deve sugerir os caminhos, mas antes de defini-los deve escutar o sentir das comunidades locais do basquetebol. Isto é um aspeto que considero de vital importância para que as pessoas sintam que a sua voz e a sua opinião contam para alguma coisa. Só assim se conseguirá crescer com sentido de visão e, não menos importante, com sentido de responsabilidade.
Ao nível das seleções, temos tido presenças esporádicas, em quatro europeus (1951, 2007, 2011 e 2025) e nenhuma participação em mundiais ou Jogos Olímpicos. Também aqui entende que é preciso definir metas para estar mais assiduamente na alta roda internacional da modalidade?
Os objetivos são vários. O primeiro dos quais é a qualificação das equipas femininas e masculinas de 3x3 (também conhecido por basquetebol de rua) para os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028, e Brisbane, em 2032. Depois, na sequência da sua pergunta, transformar presenças erráticas em presenças regulares nas grandes provas de seleções. Este desporto tem de ser uma máquina em permanente laboração. Dou sempre o exemplo da Alemanha que construiu em torno de Dirk Nowitzki, o maior jogador germânico da história da NBA, já retirado, que alinhou nos Dallas Mavericks, todo o processo de crescimento da sua seleção masculina, que atualmente é campeã europeia e do mundo, enquanto a seleção feminina disputa regularmente medalhas nos certames mais importantes. Um dia podemos chegar até aqui, mas tudo passa por um longo processo de qualificação do produto basquetebol para termos, para começar, o retorno na qualidade.
O português Neemias Queta, que atua nos Boston Celtics, é o único português na NBA e o primeiro a ter vencido este campeonato, tendo atingido recentemente os 1000 pontos. Até onde pode chegar?
O Neemias Queta é o poste do 5 inicial dos Boston Celtics e, como disse, já foi campeão da NBA. Entrou na maior liga do mundo por baixo e agora está no topo. O Neemias pode chegar até onde ele quiser e o deixarem. É uma pessoa incrível, humilde e trabalhadora. Tudo o que ele faz já e histórico e está à beira de assinar um contrato histórico. A minha felicidade e a de Portugal, certamente, é vê-lo na NBA durante muitos anos. O Neemias tem de ser o nosso farol. Mas é preciso ter a noção de que ele não será eterno, e temos de dar seguimento com outros Neemias, no futuro, a chegarem à NBA e também à WNBA. Mas isso passa pelo trabalho que fizermos no nosso país, melhorando a qualidade dos nossos atletas.
A NBA é um dos grandes espetáculos desportivos do planeta, com uma legião de fãs um pouco por todo o lado. Se for eleito, atrair jogos de exibição para o nosso país, como acontece em várias cidades da Europa e dos Emirados, é um objetivo?
Obviamente que sim. Tenho muitos contactos, na sequência dos anos que estive ligado ao basquetebol, em Portugal e no estrangeiro. A minha tribo é o basquetebol, é onde me sinto bem. E farei tudo o que for preciso para servir o meu país. Desde sempre que foi meu objetivo trazer a NBA para Portugal. Em 2013 realizaram-se dois eventos no mesmo ano – o 3x3 no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, com a participação de dois jogadores da NBA e o “Basketeball Without Borders”, em Almada. Foram dois eventos inacreditáveis. É sabido que a NBA tem contratos assinados para jogos em várias cidades da Europa, mas não escondo que nas conversas regulares que mantenho com os meus colegas e amigos da liga norte-americana esse assunto surja de forma recorrente. O importante é que aconteça o que acontecer o nosso basquetebol saia beneficiado e valorizado.
A CARA DA NOTÍCIA
Diretor nacional de desporto escolar
Carlos Barroca nasceu a 20 de fevereiro de 1959. Licenciou-se na área do desporto no ISEF. Como jogador, fez carreira no Atlético. Enquanto treinador, passou por FC Porto, Benfica, Imortal, Portugal Telecom, Queluz, Estrelas da Avenida, Belenenses e Barreirense, bem como pela Pace University (treinador-adjunto), nos Estados Unidos, e foi uma das vozes que trouxe a NBA para Portugal. Durante mais de uma década, entre 1989 e 1999, foi comentador da RTP e a partir de 1998 na Sport TV, marcando as noites dos apaixonados da principal liga de basquetebol norte-americano durante mais de 20 anos. Entre 2014 e 2024 foi vice-presidente de operações da NBA na Ásia, tendo por objetivo fomentar a educação e criar ferramentas para encontrar novos talentos e expandir a visibilidade deste campeonato. Foi ainda diretor nacional de desporto escolar durante 4 anos. Em 2022, foi homenageado pelo Presidente da República com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Atualmente, leciona na Universidade Europeia, nomeadamente no mestrado em Gestão do Desporto, e prepara-se para ir a votos no próximo dia 25 de abril para a presidência da FPB.