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Antigo jogador do Benfica e da seleção portuguesa defendeu tese de doutoramento ‘A lição do Doutor João Tomás’

23-02-2026

O futebol nacional produz bastante talento nas camadas mais jovens mas, ao mesmo tempo, também desperdiça muito potencial. A tese de doutoramento do antigo futebolista João Tomás identificou barreiras e apontou caminhos que passam pelo suporte e acompanhamento multidisciplinar por parte dos clubes e das respetivas academias.

«Constrangimentos associados ao (in)sucesso na transição júnior/sénior em futebolistas portugueses» foi o mote para o seu doutoramento pela Universidade de Coimbra, concluído em janeiro último, e que lhe consumiu cerca de quatro anos de trabalho. Para início de conversa, que principal conclusão retirou da investigação?
Para começar, as conclusões são muito claras e significativas. Sendo um estudo abrangente, mas dotado de complexidade alta, a principal riqueza desta investigação são os testemunhos e a assunção das dificuldades em nome próprio, através dos principais intérpretes, a começar, naturalmente, pelos jogadores, os treinadores e os coordenadores, nomeadamente os dirigentes. Os testemunhos, identificando os problemas de forma clara, tiveram o mérito de fortalecer de forma inequívoca os números que, por exemplo, o IPDJ e a FPF já disponibilizaram e que apontavam a dificuldade na transição da categoria júnior para sénior dos futebolistas portugueses. O objetivo foi entrar no mundo de quem sentiu na pele as barreiras e constrangimentos a este processo crítico no desenvolvimento dos jovens talentos.

Que principais obstáculos se colocam a este processo de desenvolvimento nos jovens futebolistas?
Esta investigação identifica 37 ou 38 pontos fundamentais no processo de desenvolvimento dos jovens. Esta transição é muito complexa, abrangente e não é igual para todos. No estudo ouvimos jogadores muito diferentes, com perfis distintos, uns que transitaram com sucesso e outros cuja transição não foi bem-sucedida. Foi especialmente importante identificar contextos de desenvolvimento de grande qualidade e o motivo pelo qual o processo não foi bem-sucedido, devido a diversos fatores, quando tinham todas as condições para o fazer. Grandes promessas ficaram pelo caminho.
Todos gostamos de ver jogar o Vitinha, o João Neves, o Rafael Leão, o Pedro Neto, mas é preciso não esquecer que se os treinadores não tivessem apostado neles, a carreira podia não ter sido a que é hoje. Devemos proteger mais o jogador português, em especial as camadas jovens na fase de transição.

Defende que deve haver um maior suporte institucional e acompanhamento multidisciplinar por parte dos clubes. Há talento a ser desperdiçado?
Acho que sim, ainda para mais Portugal é um país que é produtor de muito talento e também exportador. O melhor exemplo deste país produtor de talento é o que a seleção de futebol sub-17 fez ao vencer o mundial do Qatar. O selecionador nacional, Bino Maçães, já manifestou publicamente a sua dúvida e apreensão sobre onde estarão estes meninos que agora foram campeões do mundo dentro de dois ou três anos. E esta preocupação do Bino vai precisamente ao encontro do objetivo do estudo que desenvolvi. Portugal produz bastante talento mas, ao mesmo tempo, também desperdiça muito potencial. Motivos? Há várias perguntas por responder: Será que as principais academias, que proporcionam todas as condições para o crescimento dos jovens atletas, estão a promover o seu desenvolvimento da melhor maneira? É uma dúvida que mantenho. As principais academias concentram muito talento e sinceramente tenho dúvidas que esta situação seja favorável ao jogador. Para o clube é sempre favorável, mas admito que nem sempre seja favorável para o atleta. Mas tenho mais questões: será que os quadros competitivos continuam a promover um desenvolvimento apropriado? O modelo organizativo e o suporte institucional dos clubes é o indicado ou falta abrangência departamental?

Provavelmente isso existe apenas nas academias dos três principais clubes…
Certamente, mas não é extensível a todas as instituições ou clubes. Sem o necessário suporte institucional, multidisciplinar e uma diversidade de departamentos de recursos humanos surgem dificuldades que constituem obstáculos a este processo de transição. Contudo, se o jogador não conseguir chegar a um determinado patamar de excelência em termos competitivos, é fundamental que esteja preparado nas outras áreas de desenvolvimento pessoal e que serão determinantes para a sua vida futura.

As academias dos principais clubes portugueses são consideradas exemplos em todo o mundo e viveiros de grandes futebolistas. Mais do que formar jovens talentos, a dimensão social do desporto é insubstituível para formar a personalidade dos jovens?
Sim, essa é outra dimensão em que a investigação procurou tocar de forma evidente. Como se sabe, os desportistas têm um conjunto de caraterísticas muito próprias e transversais àquilo que é a sociedade. A resiliência, a disciplina, a organização e a forma como reagir às dificuldades são demonstrativas de que a fibra destas pessoas é diferente do cidadão comum. Isto para além da prática desportiva ser especialmente benéfica para qualquer ser humano, o que está muito bem retratado na literatura da especialidade.

É o quarto ex-jogador a doutorar-se. O primeiro foi o ex-jogador do Rio Ave, Tarantini, em 2022. A pouco e pouco emerge este novo perfil de futebolista, com áreas de interesse complementares e que dão continuidade fora dos relvados à carreira de futebolista, aprofundando a ligação entre prática desportiva de elite e conhecimento científico?
Sim, este estudo demonstra que começa a existir um grande interesse pela carreira dual, que significa, habitualmente, jogar futebol e estudar, mas que pode não ser apenas isso. Pode-se ser um atleta e ter outra perspetiva social, além dos estudos. As academias de formação têm uma grande preocupação pelo desenvolvimento social e académico dos seus atletas, acompanhando de perto estes percursos. E esta grande preocupação por parte dos clubes também se explica pela responsabilidade social demonstrada pelas próprias organizações. Para além disso, um miúdo com bom desempenho escolar vai ter mais facilidade em compreender aquilo que o treinador lhe pede para fazer em campo. Atualmente, os conceitos de treino e de jogo estão alavancados na crescente capacidade cognitiva da maior parte dos jovens.

Sei que ser professor universitário era um sonho antigo. Como está a ser a sua experiência como docente no Instituto Politécnico da Maia?
A experiência tem sido espetacular. Este já é o meu quarto ano letivo nesta instituição de ensino politécnico e a cadeira que leciono é no âmbito da Gestão e Organização Desportiva. No passado, também já dei algumas aulas na Universidade de Coimbra, instituição onde agora concluí o meu doutoramento e também no Politécnico de Viana do Castelo, onde tirei a licenciatura e o mestrado.

Abandonou os relvados em 2013. Fez mais de 100 golos na primeira liga, depois de ter vestido as camisolas de clubes como o Benfica, Braga, Guimarães, Boavista, Rio ave, Académica e, no estrangeiro, o Bétis de Sevilha. Para além de ter sido internacional A. Qual foi o ponto mais alto sua carreira?
Essa resposta é muito fácil. Foi o dia em que me estreei pela seleção nacional A, contra Israel, em Braga. É uma marca única que fica para a vida. Fui convocado em seis ocasiões, fiz quatro internacionalizações, mas tive pena de não ter envergado a camisola das quinas mais vezes.

Depois de pendurar as botas, assumiu a direção desportiva de clubes como o Famalicão, Trofense (em que chegou a presidir à SAD) e Torreense. O dirigismo desportivo ainda está nos seus horizontes?
Está, sim. As experiências que tive foram muito positivas. Enquanto dirigente, estive na génese do processo que transformou o Famalicão. No Trofense as coisas correram muito bem. Fomos campeões nacionais e subimos às ligas profissionais no primeiro ano em que assumimos a gestão do clube. Depois assumi a direção desportiva do Torrense e foi muito positivo o trabalho desenvolvido na época desportiva. Duas das maiores vendas do Torrense foram atletas adquiridos durante a nossa gestão.

Comenta, com regularidade, jogos da primeira e segunda liga na SportTV. O futebol da atualidade é diferente do tempo em que jogou?
O futebol mudou muito, desde logo no aspeto financeiro. Este desporto está caro, em particular na primeira liga portuguesa e naturalmente nos principais campeonatos da Europa. Já se praticam salários que se julgavam impossíveis há uns anos, ao nível da NBA ou do futebol americano. Para além disso, deu-se um salto qualitativo gigantesco em termos da análise, controlo de treino, recuperação de lesões, etc. O reverso da medalha é que o futebol atual perdeu alguma espetacularidade. Os adversários já se conhecem tão bem que é cada vez mais difícil criar imprevisibilidade no contexto do próprio jogo em si. No meu tempo não era assim. Quando eu jogava no Rio Ave, em 2009/2010, nem todos os jogos da primeira liga eram transmitidos em direto na televisão.

 

Cara da Notícia

Duas centenas de golos

João Henrique Pataco Tomás nasceu em Oliveira do Bairro, a 27 de maio de 1975. Fez uma carreira como futebolista, ponta de lança, em clubes como o Benfica, Boavista, Braga, Guimarães, Rio Ave, Académica e Bétis de Sevilha, entre outros. Vestiu a camisola da seleção portuguesa em quatro ocasiões. Marcou mais de 200 golos na sua carreira. Foi dirigente no Famalicão, Trofense e Torrense. Concluiu, em janeiro, o doutoramento em Ciências do Desporto na Universidade de Coimbra e é docente no IPMAIA.

Nuno Dias da Silva
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