Apesar de criticar o presidente norte-americano, João Vale de Almeida defende que a Europa «não deve desistir dos Estados Unidos». O embaixador, com uma experiência diplomática de quatro décadas, afirma que «vivemos num mundo em desordem» e que o século XXI está a «desconstruir» o que o século XX construiu.
O livro “O Divórcio das Nações” resulta de 40 anos de experiência diplomática, nomeadamente na União Europeia (UE) e nos Estados Unidos da América (EUA), e das suas memórias dos primeiros 25 anos deste século. Este primeiro quartel representou uma alteração sistémica da ordem mundial? Que mundo é este a que chegámos?
O livro aborda dois divórcios, que são paralelos, mas que acabam por se influenciar entre si. O primeiro é à escala global, entre nações, e que revela o deteriorar da ordem internacional estabelecida na segunda metade do século XX. O segundo divórcio verifica-se no interior de cada nação, ao nível da polarização, traduzida em violência verbal e até física, de natureza política e que tem como origem o fenómeno do populismo. Começo a narrativa com os atentados do 11 de setembro, em 2001, mas depois registou-se uma sucessão de acontecimentos e tendências que apontam, clara e perigosamente, para um mundo a encaminhar-se para algo imprevisível, que não sabemos bem ao certo o que será. Sabemos de onde viemos, mas não sabemos para onde vamos. O que estamos a assistir é que o século XXI está a desconstruir o que o século XX construiu, sem apresentar uma verdadeira, credível e próspera alternativa. Bem pelo contrário. Este, no fundo, foi o fio condutor do livro para alertar, deixar pistas para o futuro e suscitar diálogos sobre estas temáticas em contextos familiares, profissionais, políticos e até académicos.
Identifica 2001 e 2022 como os anos-charneira, primeiro com o 11 de setembro e depois com a invasão russa da Ucrânia. Mas também fala da chegada de Trump ao poder, em 2017, e do “Brexit”, em 2016, como outros marcos. A importância destes quatro acontecimentos foi central para o quadro de crises permanentes que estamos a viver?
A retrospetiva que faço de 25 anos de trabalho diplomático tem muito a ver com a minha experiência pessoal. O 11 de setembro e a invasão da Ucrânia são uma espécie de balizas. Esses são absolutamente fundamentais e determinantes para explicar o novo mundo em que vivemos, mas há mais. É preciso não esquecer, em 2008, a crise financeira e a primeira ação beligerante de Putin, na Geórgia. Relativamente à China, destaco a entrada deste país na Organização Mundial do Comércio, em 2001, e a renovação por mais um mandato do presidente Xi Jinping à frente do gigante asiático, em meados da década passada. Logo a seguir, em 2016, temos o “Brexit”, em junho, e em novembro do mesmo ano a vitória de Trump nas presidenciais. Estes dois últimos acontecimentos constituem, para mim, a chegada do populismo ao quadro de honra da política internacional.
Não parece subsistir qualquer dúvida que há um antes e um depois no mundo desde que Trump chegou à Casa Branca. O atual presidente americano personifica o mais relevante fenómeno político e eleitoral do presente século?
Nos EUA há, ao mesmo tempo, um substrato isolacionista e um pendor excecionalista, que é uma contradição permanente inerente à condição americana e que Trump tem levado ao seu extremo. É este difícil equilíbrio entre «não queremos tratar dos assuntos dos outros» e, ao mesmo tempo, «somos um país excecional» que determina e que determinará o que vai acontecer no mundo nas próximas semanas/meses. Sinceramente, não vejo uma alternativa credível, fiável e tranquilizante na forma como vamos gerir este mundo.
Foi um acontecimento que teve lugar já depois de ter escrito o livro, mas que porventura faria parte de uma reedição: o enxovalho público a que foi sujeito, na Sala Oval, o presidente ucraniano, Zelensky, perante Trump e a restante administração, com todo o mundo a assistir. Isto foi a erosão dos valores da diplomacia e o grau zero das relações internacionais?
Claramente. Houve outros episódios, entretanto. Em janeiro de 2025 escrevi, no “Expresso”, um artigo a que dei o título: «O fim da decência e o princípio da incerteza». Sou um grande crítico do presidente norte-americano. Trump é ao mesmo tempo causa e sintoma. Mas muito sintoma. Vivi nove anos naquele país, enquanto ali estive como embaixador e sei do que falo. Trump desprestigia o sistema democrático e está a contribuir para a deterioração das relações internacionais de uma forma muito perigosa. Ele fez descer os níveis da decência na política ao grau zero. E isto, naturalmente, enfraquece a própria democracia. Por outro lado, lança uma mensagem para o mundo que é se o presidente dos EUA pode fazer isto ou falar como fala, um qualquer ditador em qualquer canto do mundo pode seguir-lhe o exemplo e enveredar pelas maiores tropelias. Ser presidente dos EUA não é a mesma coisa que ser presidente do Burkina Faso, com todo o respeito por este país. Este líder tem uma exposição sem igual, sendo seguido diariamente, o que o torna uma figura de referência e familiar, que todo o mundo conhece.
«Make America Great Again» e «America First» foram dois slogans que levaram Trump ao poder. Se a sua administração se envolver demasiado em assuntos externos e internamente a economia e as sondagens não forem famosas, o inquilino da Casa Branca pode ter de recuar?
Sim. Já durante o mandato de Obama havia sido seguido um rumo de não interferir em demasia com assuntos de política externa. Os americanos sentem-se confortáveis no seu “soft” e “hard power” e rejeitam ser os polícias do mundo. Mas por vezes emerge a dimensão excecionalista que os próprios americanos se auto atribuem, e que faz com que intervenham em diversos países do mundo, por variadíssimas razões. Voltando à sua questão, sabemos que as eleições americanas se ganham, sobretudo, na economia. O que conta para os americanos é a inflação alimentar e energética. A frente externa é um problema menor. O que acontece é que, muitas vezes, alguns presidentes usam a frente externa como elemento de distração das questões internas, em benefício da sua imagem. E Trump quando age além-fronteiras está sempre a pensar no plano doméstico. Sabemos que estará no máximo do seu poder até às eleições intercalares, em novembro, porque tem o Congresso do seu lado, mas o que se segue até final do mandato, é uma incógnita.
O regresso às esferas de influência e o alargamento dos espaços imperiais são tendências que se reafirmam no atual tabuleiro geopolítico?
Há vários paradigmas em mudança. A nível global estamos a passar de um sistema multilateral, arquitetado em torno de organizações e regras do Direito Internacional, para uma fase de divórcio, em que as nações se organizarão em zonas de influência, baseadas no poder da força e não na força dos argumentos. Nesse caso, podemos imaginar o hemisfério ocidental dominado por Trump, uma zona de Putin, que quer reconstruir o império soviético, e sem esquecer os nossos “amigos” chineses, que de forma mais subtil também estão a construir o seu próprio espaço de influência.
E onde é que fica a Europa nesta espécie de repartição do mundo?
A UE, onde Portugal se insere, sempre foi um projeto de paz.
A Europa não pode sobreviver como uma ilha de multilateralismo num oceano de confrontação e da lei do mais forte. Esta segunda dimensão não é de todo favorável aos europeus e é preciso ter isto em conta na forma como o “velho” continente se conseguirá organizar. Há ainda outro paradigma em mudança, pelo menos enquanto Trump estiver na Casa Branca, que é a relação transatlântica. Os Estados Unidos pretendem chegar a plataformas de entendimento com outras potências (caso da Rússia e da China), numa lógica de preservação de interesses próprios, o que a concretizar-se será uma mudança perigosíssima para a Europa. Mais uma. No pior dos cenários teremos um mundo em desordem, em que de um mundo global, passamos para três ordens regionais, mais ou menos difíceis de gerir, pondo em risco a própria existência da UE.
Com Washington cada vez mais distante, que posição deve a Europa ter com os Estados Unidos: cooperação ou confrontação?
Partilho uma pequena experiência pessoal: em julho de 2010 cheguei aos EUA para assumir o cargo de embaixador da UE. A minha primeira tarefa foi envidar todos os esforços para restabelecer a cimeira anual que existia entre a UE e os EUA, que Obama cancelara. Ele preferira focar-se na Ásia, justificando que a Europa não era um problema para a sua administração. Após muito esforço, acabámos por recuperar a cimeira. Isto para lhe dizer que esta situação aconteceu em plena administração Obama, tido como o mais europeísta dos recentes líderes americanos. Voltando à sua questão: Acredito que a Europa não deve desistir dos Estados Unidos, até porque este grande país é bem mais do que Trump. Neste momento, estamos numa fase de resistência, que deve ser feita de forma inteligente e astuta, limitando as perdas, mas nunca cedendo nos valores e no que é essencial. A relação transatlântica sempre foi o pilar da construção europeia, em termos de segurança, preservação da frente leste e também de agendas e valores comuns. Nestes 25 anos de que falo no livro, os Estados Unidos elegeram os seguintes presidentes: George W. Bush, Barack Obama, duas vezes, Joe Biden e Donald Trump, este último duas vezes. Conheci todos, com maior ou menor proximidade, em diferentes interações. São pessoas totalmente diferentes. Isto significa que os americanos fazem, enquanto cidadãos, escolhas diversas, o que quer dizer que estão à procura do seu caminho.
A ambição de Trump não parece ter limites e a Gronelândia é o último desejo publicamente manifestado. Como reagir?
A Europa não pode ceder na intransigente defesa do povo que habita a ilha do Ártico, nem do país que mais diretamente se relaciona com eles, a Dinamarca, e também da própria NATO. Para começar, congratulo-me com a declaração conjunta feita por diversos países, incluindo Portugal. Sempre que Trump atravessar linhas vermelhas – e já aconteceu no passado quando apoiou forças políticas de extrema-direita no “velho” continente – a Europa deve reagir de modo firme.
Abandonada pelos EUA e atemorizada pela Rússia, a UE vê-se agora, sozinha, a braços com o conflito na Ucrânia. Conta que participou num jantar com Putin e Durão Barroso, em 2016, nos arredores de Moscovo. Já então Putin manifestava o seu desalento pelo desmantelamento do império soviético. A invasão da Ucrânia é a sua tentativa de recuperar esse império?
Não creio que Putin desista desse objetivo. Ele escolheu um caminho que tudo leva a crer será irreversível. Para além desse jantar que falo no livro, mantive umas 15 reuniões com o senhor Putin, entre 2005 e 2010, e constato que os traços de personalidade manifestados foram acentuando-se nos anos mais recentes. A personalidade dele é agora bem mais sombria. O fim da União Soviética constituiu um forte trauma e humilhação para o presidente russo. Isso nunca sairá da sua cabeça. A Ucrânia é o exemplo maior da sua tentativa de remediar essa frustração e caberá à comunidade internacional reagir a qualquer ação política do género do presidente russo, travando os seus ímpetos imperialistas. Atenção, por isso, à Moldávia e aos países bálticos, por exemplo. A segurança dos países bálticos é a nossa segurança da mesma forma que a segurança dos ucranianos é a nossa segurança, apesar de estarmos no extremo do continente europeu. O senhor Putin dispõe de misseis que em minutos chegam a Lisboa…
O rearmamento da UE é uma inevitabilidade?
Sim. A dimensão de segurança e defesa é a nova fronteira da construção europeia. A UE sempre foi um projeto de paz, mas agora é preciso perceber que a paz dentro da União só é possível se houver paz em redor da União, a começar pelo próprio continente europeu. A UE está a transitar da adolescência para a idade adulta e depara-se com novas e difíceis responsabilidades, abandonando zonas de conforto. Esta é uma fase muito desafiante para o projeto europeu e que inclusive questiona a sua existência.
Enquanto diplomata, para além de Putin, manteve encontros, mais ou menos profundos, com Blair, Clinton, Obama, Bush, Merkel, Macron, Xi Jiping, a Rainha de Inglaterra e, naturalmente, privou com Durão Barroso com quem trabalhou diretamente durante vários anos como chefe de gabinete na Comissão Europeia. E também teve um episódio com o mítico Nelson Mandela…
No início dos anos 90, era porta-voz do então Comissário Europeu, João de Deus Pinheiro, que tinha a relação com os países africanos, das Caraíbas e do Pacifico. Numa viagem à África do Sul tivemos um encontro com Nelson Mandela em casa da sua neta, onde foi o almoço. Fiquei fascinado com a presença daquele senhor, um verdadeiro ícone da história daquele país e do mundo. E ainda hoje recordo quando ele me perguntou: «Do you want some rice? («Quer mais arroz?»). Ainda tenho a memória do tom de voz dele.
Longe das objetivas, como é que são estes homens e mulheres, investidos de um enorme poder?
Os líderes são todos diferentes e têm personalidades próprias. Mas, na realidade, não são muito diferentes de nós, o cidadão comum. No essencial têm um ego superior à média, com a perfeita noção do impacto que as suas decisões podem ter para os próprios países e para o mundo. Para além disso, têm o prazer do exercício do poder e gostam de ter mais responsabilidade. São pessoas inteligentes, articuladas e muito focadas nos seus objetivos. E, por norma, têm uma grande capacidade física e mental. A política exige muito de si. Estas caraterísticas que acabei de descrever são transmitidas nos contactos e nas reuniões que mantemos com eles.
Alguns dos leitores que nos leem podem estar a estudar Relações Internacionais e ambicionam seguir uma carreira diplomática. Que conselhos daria?
Antes de mais, deixe-me dizer-lhe que pese embora residir em Bruxelas, estou em contacto com a minha editora para participar em apresentações ou encontros com alunos em várias universidades e escolas secundárias de Portugal, tendo como pretexto o livro que acabei de editar, fazendo com que as pessoas, especialmente as novas gerações, se interessem pela temática das Relações Internacionais. No meu caso, que já estou aposentado, o meu papel é passar o testemunho e ser útil aos que vão tomar conta deste mundo dentro de 10 ou 15 anos e que hoje estão nas escolas e nas universidades. Respondendo à sua pergunta, encorajo todos a seguirem por esta via, apesar de não existirem muitas saídas profissionais. São muitos os que me questionam: mas os diplomatas ainda fazem sentido hoje? E eu respondo que fazem mais sentido hoje do que nunca, em particular no atual quadro das Relações Internacionais, para evitar conflitos ou mal-entendidos. A diplomacia da negociação é cada vez mais necessária, porque os desafios e os riscos são crescentes. A Inteligência Artificial não substituirá os diplomatas, até porque a diplomacia é, sobretudo, contacto pessoal.
A CARA DA NOTÍCIA
Braço direito de Durão Barroso em Bruxelas
João Vale de Almeida, nascido em Lisboa, a 29 de janeiro de 1957, foi funcionário e diplomata europeu durante 40 anos. Ao longo de uma carreira que se iniciou ainda antes da adesão de Portugal às Comunidades Europeias, atingiu o topo da hierarquia comunitária como diretor-geral de Relações Externas da Comissão Europeia, foi chefe de gabinete de Durão Barroso durante o seu primeiro mandato como presidente da Comissão, exerceu funções de “sherpa” da UE para as cimeiras do G8 e do G20 e ocupou postos-chave na diplomacia europeia como embaixador da UE nos Estados Unidos, junto das Nações Unidas e no Reino Unido.
Em Bruxelas, Washington e Nova Iorque, e depois em Londres como primeiro embaixador da UE após o “Brexit”, acompanhou de perto as personalidades e os acontecimentos que marcaram o primeiro quartel do século XXI. “O Divórcio das Nações”, editado pela D. Quixote, é o testemunho, em forma de livro, sobre a sua experiência e memórias na alta roda da diplomacia. Depois de se aposentar, em 2023, foi convidado para ser George W. Ball Professor da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e visiting fellow pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido.