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Entrevista Qatar é o pior palco possível para organizar o Mundial de Futebol

15-11-2022

A poucos dias do início do polémico mundial do Qatar, Luís Mateus, autor de uma história concisa sobre os 21 campeonatos do mundo realizados, acredita que, devido ao curto tempo de preparação da seleções, a «liberdade individual» dos jogadores pode prevalecer sobre as questões de natureza técnico-tática. O jornalista junta-se ao coro de críticas, considerando que o país árabe “é o pior palco possível para organizar este evento”.

Nas semanas que antecederam o mundial de futebol do Qatar, lançou «O Campeonato do mundo – A história e as estórias», uma obra extensa em que passa em revista todos os certames já realizados, desde 1930. Considera-se um historiador dos mundiais?
Não tenho essa pretensão. Para mim é um exercício de memória. Anteriormente, já tinha escrito sobre jogos de futebol que ficaram para a história, nomeadamente no site «Mais Futebol» e no jornal «Público». Portanto, com aquilo que já tinha feito e com o trabalho posterior de ligação cronológica, o processo até à conclusão do livro não foi difícil. A investigação baseou-se em obras que já existiam, muitas delas nem sequer estão publicadas em Portugal, e também em pesquisa na internet.

E porquê sobre o campeonato do mundo?
Para mim, é o evento mais marcante da história do futebol e, no fundo, que me faz apaixonar pelo jogo. O que aconteceu no mundial de 1986, no México, com Maradona como protagonista, é claramente o catalisador da minha paixão por este desporto. Presentemente, com a “overdose” de informação, perdeu-se, de alguma forma, a magia que havia de descobrir o jogador de uma equipa e a forma de jogar de uma seleção em cada torneio. Hoje em dia, ouso dizer que os amantes do futebol conhecem 90 por cento dos jogadores que se exibem no palco de um mundial e até a forma e as tendências como as equipas jogam. Atualmente, a tática tem uma expressão que não tinha quando eu comecei a ver futebol. Era uma fase de romance pela descoberta de novas coisas.

Analisa, de forma detalhada, a evolução técnico-tática. Os mundiais são, hoje em dia, mais conservadores do ponto de vista tático e as equipas mais pragmáticas e menos românticas?
Os mundiais influenciavam as tendências, que acabavam por se repercutir nos respetivos campeonatos nacionais. Mas no presente não é preciso chegar a um mundial para saber que determinada equipa inventou os laterais a jogar por dentro, como aconteceu no Manchester City, com Guardiola. Para além disso, os campeonatos do mundo influenciaram, durante muitos anos, o contexto social, económico e político de cada país. O caso mais eloquente em que o futebol bebeu parte da sua sustentação foi, porventura, o mundial de 1978, na Argentina, em que imperava a ditadura militar de Jorge Videla. Mas também tivemos o de 1934 em que a Itália era dominada por Mussolini. Felizmente que Hitler, mesmo com a anexação da Áustria, não conseguiu ter uma seleção impactante, o que pode ser considerado caso único em que o futebol não vinga num espaço ditatorial, quase absolutista.
No caso da Argentina, em 1978, a seleção das “pampas” acaba por ganhar o campeonato disputado em casa…
Durante o regime de Videla os campos de concentração localizavam-se perto do Estádio Monumental. No fundo, o triunfo da Argentina acabou por dar força à ditadura militar no poder. O selecionador argentino de então era adepto de um futebol livre, dinâmico e alegre. O Cesar Luís Menotti era, por assim dizer, um idealista de esquerda, a exercer as funções de selecionador sob um regime de direita. Na final, no estádio Monumental, em Buenos Aires, entre Argentina e Holanda, as bases dos postes das balizas surgem pintadas de negro. O que mais não era do que uma mensagem subliminar dos tratadores de campo para que o povo percebesse que havia um movimento contra a ditadura e o regime.

Política e futebol têm uma ligação próxima com muitas décadas. Para além dos já referidos casos de 1934, em Itália, em 1978, na Argentina, todos se lembram do Inglaterra-Argentina, no México ’86, depois da guerra das Malvinas e de um escaldante Irão-Estados Unidos. Os regimes mais ou menos democráticos continuam a procurar associar-se a estes eventos, pelo facto de exercerem um efeito mágico sobre as massas?
Qualquer ditador aproveita, claramente, o fenómeno popular do futebol para fazer espalhar a sua mensagem. A propaganda passa, imediatamente, dos canais oficiais para um outro veículo, que é o futebol. E, naturalmente, que as vitórias das respetivas seleções acabam por dar força à ação e à palavra de quem governa. O aproveitamento político das vitórias e das principais «estrelas» é algo transversal. Mas é preciso colocar as coisas em contexto: não se pode comparar o feito de uma potência futebolística, como a Argentina, em 1978, com uma vitória num só jogo conseguida, por exemplo, pelo Irão ou a Coreia do Norte.

Qual é para si o melhor mundial de sempre?
É, sem dúvida, o de 1986, no México, em particular pelo fenómeno Diego Armando Maradona. «El Pibe» teve o mérito e o génio de levar uma seleção mediana, ou abaixo disso, a uma conquista histórica. Isto apesar de admitir que não se trate de um certame capaz de igualar o futebol arte que o Brasil exibiu em 1982, em Espanha. Nesse ano, os «canarinhos» foram um dos melhores perdedores da história, talvez a par da Holanda em 1974 e da Hungria em 1954. O mundial de 1986 deu-nos ainda seleções fantásticas e inesquecíveis, como a Dinamarca de Laudrup e Larssen, ou a Bélgica de Scifo.

E na escolha do melhor jogador de sempre, a opção balança entre Pelé e Maradona?
Para mim é Maradona. Nunca tivemos ninguém tão genial no campo. Mas não nos podemos esquecer do papel de Cruyff na grande seleção holandesa, o cérebro da «laranja mecânica», em 1974. Mais tarde foi também ele o criador do «dream team» do Barcelona, aproveitando as raízes do mundial de 74 que ele próprio disputou na Alemanha. Cruyff acabou por influenciar muitos treinadores e muitas equipas. Atualmente, Messi é o jogador que mais se aproxima a Maradona, seja na fisionomia, no génio e na forma de jogar. Talvez lhe falte uma dose de alma. Por isso, Maradona, foi um jogador completo. Os seus próprios excessos, fora de campo, acabavam por marcar a sua vincada personalidade.

E se lhe pedisse para escolher um momento dos 21 mundiais?
O momento mais extraordinário e que me fez sair a correr do meu prédio e perguntar aos meus amigos se tinham acabado de ver o mesmo que eu na televisão, foi quando Maradona fez o “slalom” gigante desde o seu meio campo e meteu a bola no fundo da baliza de Peter Shilton, o guarda-redes da Inglaterra. Foi o golo do século protagonizado pela expressão artística individual de Diego Maradona. Mas para ser justo, gostaria de destacar, pela expressão artística coletiva, o golo de Carlos Alberto, na final de 1970, entre Brasil e Itália. Por outro lado, não nos faz apaixonar pelo jogo, mas o golo fantasma de Hurst, na final de 1966, é um momento marcante e que será sempre lembrado.

No mesmo Argentina-Inglaterra, Maradona marca com a célebre «mão de Deus» outro golo para história...
A guerra das Malvinas estava muito presente e Maradona disse mais tarde que marcar aquele golo foi como roubar a carteira a um inglês. Este momento irregular teve o seu lado mágico e isso explica-se pelo facto de Maradona, em poucos minutos, passar de demónio a anjo. Porventura, o golo do século não teria existido se Maradona não tivesse metido o golo com a mão minutos antes. Nunca saberemos…

Nos momentos negativos tenho na mente a agressão à cabeçada de Zidane a Materazzi, na final entre França e Itália. Qual é o seu?
Esse é, de facto, um momento marcante. É um momento de desnorte completo de Zidane que reage a uma provocação. Mas talvez escolhesse, por ter manchado de forma trágica a história do futebol, o autogolo do defesa Escobar da seleção colombiana, em 1994. A Colômbia era uma seleção de grande qualidade, mas que foi eliminada na primeira fase do mundial dos Estados Unidos. Escobar já tinha contrato apalavrado com o AC Milan e creio que a sua esposa estava grávida. Ele jogava num clube patrocinado por Pablo Escobar, o barão da droga. Pelo facto de o seu golo na própria baliza ter contribuído para a eliminação da sua seleção, o que fez perder muito dinheiro aos barões da droga nas casas de apostas, acabaria assassinado quando regressou ao seu país.

Falemos agora do mundial que está prestes a começar. O pontapé de saída acontece com o Qatar-Equador, a 20 de novembro. É a primeira prova em pleno inverno no hemisfério norte e a meio da temporada do futebol europeu. De que forma este fator pode condicionar o desempenho das seleções que reúnem maior favoritismo?
As lesões podem impedir a presença de vários nomes consagrados, inclusive Son da Coreia do Sul e Cavani do Uruguai, ambos adversários de Portugal na fase de grupos, estão em dúvida. Mas há outro ponto importante: os jogadores podem estar mais em forma e mais frescos neste momento do que se o mundial fosse no final da temporada. É preciso não esquecer que desta feita o tempo de preparação dos selecionadores em termos técnicos e táticos é muito mais curto, o que se pode refletir na qualidade e na organização do jogo. Penso, por isso, que pode vir a prevalecer, em certos momentos, a liberdade individual dos jogadores, pelo facto de as restrições táticas estarem atenuadas. Para Portugal, isso poderá ser um contra, porque a solidez tática e resultadista de Fernando Santos depende muito dessa organização e preparação.

Este é o campeonato do Mundo ou da Europa, dos últimos anos, em que as expetativas em torno da nossa seleção são as mais baixas. Como se explica isto?
Tem a ver com o passado recente e com o pouco brilhantismo exibido nas fases de qualificação, tendo mesmo sido necessário ir a um “play-off”, num grupo que tinha Sérvia e Irlanda como maiores obstáculos. Seis anos depois de termos sido os campeões surpresa do europeu de futebol, estamos bem mais distantes de sermos candidatos a um título mundial do que estávamos nesse certame que conquistámos.
Aos 37 anos e a realizar, porventura, a pior época da sua carreira, o que podemos esperar de Cristiano Ronaldo?
Portugal depende muito de Ronaldo por este ser um finalizador, mas temo que o nível competitivo do jogador esteja abaixo do desejável. A forma como geriu uma pré-temporada em ano de mundial disputado a meio da época foi horrível. Não podemos esquecer as questões psicológicas e pessoais que envolveram o jogador este ano, mas tal não justifica a ausência tão prolongada no início da temporada do Manchester United, ainda por cima com novo treinador e com um novo modelo técnico-tático.

Depois das candidaturas da Rússia, em 2018, a candidatura do Qatar esteve envolta em suspeitas de subornos e corrupção. A FIFA deixou-se seduzir pelos petrodólares?
A FIFA não é uma empresa normal. Por isso, rege-se por critérios económicos diferentes. Compreende-se a opção por novos países e continentes para acolherem este certame, mas é preciso dizer que o Qatar praticamente comprou a organização deste campeonato do mundo. É inegável que vários elementos do comité executivo da FIFA foram subornados para que a sua escolha recaísse no Qatar. Para além disso, há os atropelos aos direitos dos trabalhadores e as questões LGBT e dos direitos humanos, o que fazem deste o pior palco possível para organizar este evento. Já para não falar do precedente que a FIFA abriu, agendando o mundial para o inverno, alterando todos os calendários, para que os jogos não se realizassem em pleno verão, o que seria insuportável. Mesmo para os jornalistas vai ser um mundial horrível. Existirão limitações às filmagens e às próprias entrevistas com os adeptos, sendo privilegiados os meios de comunicação social com o exclusivo dos direitos de transmissão. Por isso, o mundial no exterior dos estádios será, este ano, muito diferente, deitando por terra o plano traçado pela FIFA.

O mundial seguinte, em 2026, será organizado por Estados Unidos, México e Canadá. Para 2030, Portugal e Espanha, e mais recentemente juntou-se a Ucrânia, concorrem para organizar a prova. Quais são as nossas reais chances?
Temos boas hipóteses de organizar a prova. Apesar de ser um ato solidário, não é inocente o facto de a Ucrânia se ter juntado à candidatura ibérica. Quero recordar que bem recentemente, quando a guerra já tinha começado, os ucranianos venceram o Festival Eurovisão. Penso que o lado emocional a que Portugal e Espanha querem apelar é um fator que está em jogo e que pode ser determinante para a escolha final. Também confio que nomeadamente a Espanha, por ter uma federação muito forte e influente e possuir uma das melhores ligas do mundo, possa exercer forte pressão junto da FIFA para o sucesso da candidatura.

 

Cara da notícia

Luís Mateus nasceu a 8 de janeiro de 1974, em Lisboa. É jornalista desde 1996 e coordenador geral e comentador em “A Bola TV”, é ainda atualmente colunista do jornal “A Bola”. Foi diretor do jornal “Mais Futebol” e comentador residente do programa televisivo com o mesmo nome na TVI24, além de editor de desporto da TVI e da TVI24. Colaborou com os jornais “Expresso” e “Público”, e com o site “zerozero”, e foi analista desportivo na TSF e na Eleven Sports, com comentários de jogos em direto das principais ligas e outras participações. É autor do espaço de crónicas “Era Capaz de Viver na Bombonera” e um apaixonado pelo lado mais puro do futebol e do desporto. Apesar de nunca ter estado presente “in loco” num mundial – apenas no europeu de 2016 conquistado por Portugal – lança agora o seu primeiro livro, uma edição Kathartika, em que faz uma retrospetiva sobre os mundiais de futebol.

Nuno Dias da Silva
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