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António Carraça, comentador do canal 11 Sagrado balneário

22-11-2021

O apresentador do popular programa “Sagrado Balneário” e ex-presidente do Sindicato dos Jogadores refere que a sobrecarga de jogos nos calendários não acautela os interesses dos futebolistas e critica que a realização do mundial do Qatar, no inverno de 2022, obrigue à suspensão das restantes competições por alguns meses. Sobre quem vencerá a Liga portuguesa, António Carraça avança que será uma «renhida» luta a três, até final.

«Sagrado Balneário» cumpre, em dezembro, um ano de emissões. Quem foi o criador do programa e como surge o convite para apresentá-lo em parceria com o Toni?
O convite surgiu do Pedro Sousa e do Jaime Cravo, respetivamente, o diretor do canal 11 e o coordenador de conteúdos do canal. A ideia original era que dois homens do futebol recebessem atletas num balneário de um clube que, como todos sabem, é um espaço sagrado para os que trabalham nesta área. Partilhar experiências, vivências e a paixão pelo jogo com o convidado são os objetivos que presidiram à criação deste programa. Eu e o Toni conversámos sobre este convite e pareceu-nos um projeto muito interessante para todos os telespetadores que gostam do jogo.

Pedro Sousa disse que este programa foi criado para «preservar a memória e o legado do futebol português». Revê-se nesta leitura?
Sem dúvida. O balneário é um espaço onde os atletas passam muito tempo – por vezes até mais tempo do que em casa com as suas famílias. Era uma oportunidade para dar a conhecer as vivências dos jogadores e das equipas e o modo como cada um exprime os seus sentimentos no jogo. Estou certo de que as palavras e as emoções que os atletas partilham comigo, com o Toni e com o público, em casa, vão ficar registadas para sempre.

O primeiro convidado do programa foi o treinador Vítor Oliveira, que acabou por falecer no dia seguinte à gravação no balneário do Leixões…
É verdade. Despedimo-nos dele na noite de sexta-feira e ele morreu, de forma súbita, na manhã de sábado. Tínhamos inclusive combinado um «peixinho grelhado com arroz de grelos» – como ele gostava de dizer – quando voltássemos a gravar no norte. Foi uma triste e infeliz coincidência, mas acredito que as coisas acontecem na vida por alguma razão. Poucas horas antes de falecer, tivemos ainda a oportunidade de ter o nosso amigo Vítor Oliveira a partilhar, no «Sagrado Balneário», imensos episódios enquanto treinador e jogador, de uma forma como só ele conseguia fazer.

Qual é o critério de escolha dos convidados semanais?
É de uma forma aleatória, mas tem muito a ver com as minhas relações e as do Toni ao longo destas décadas que levamos ligados ao futebol. Mas também pode surgir da leitura da notícia de um jornal ou da sugestão de um amigo. Ultimamente temos alargado o âmbito para fora do futebol. Já tivemos o Madjer do futebol de praia e lançámos o repto para um programa com o Ricardinho do futsal. No fundo, dar a conhecer diferentes balneários um pouco por todo o nosso país.

Arrisco dizer que o programa mais famoso foi aquele em que o Cândido Costa imitou o Jorge Jesus durante um treino. Desconheço as audiências que alcançou, mas no YouTube somam muitas centenas de milhar de visualizações…
O Cândido tem um caráter e uma personalidade ímpares, revelador da forma peculiar como ele se relaciona com as pessoas e vive a vida. Ele encarna o lado positivo da vida e conta as histórias que viveu no futebol com um grande à vontade e naturalidade. Ele é uma força da natureza, bem disposto e de bem com a vida. Mas a grande riqueza deste programa é que as histórias são todas diferentes, porque nem todas têm a mesma vibração, o mesmo colorido, a mesma voz.

De segunda a quinta-feira é comentador residente no programa «Futebol Total», também no canal 11. Qual é a filosofia subjacente a este programa, que nada tem a ver com as tertúlias polémicas sobre futebol?
Somos gente do futebol a falar da modalidade em estado puro. Devo muito ao jogo e toda a minha vida foi construída em função desta modalidade e dos valores que lhe estão associados: a solidariedade, o espírito de equipa, o talento, a qualidade, a abnegação, o compromisso, etc. Valores e referências que nos vão acompanhando ao longo da vida e que nos ajudam a crescer e a evoluir como homens e seres humanos. E quando discutimos e debatemos o jogo temos a obrigação de traduzir esses valores. No «Futebol Total» cada um exprime a sua opinião e as suas convicções, sem entrar em conflitos ou polémicas. O espetador lá em casa, depois de nos ouvir, deve formar a sua opinião. No «Futebol Total» procuramos passar a mensagem que, tal como no jogo jogado dentro das quatro linhas, esta modalidade é uma competição, por definição, em que deve imperar o “fair play”, seja qual for o resultado final.

Foi dirigente do Benfica, primeiro como responsável da formação no Seixal, entre 2004 e 2008, e depois foi diretor-geral para o futebol do clube da Luz. Tem saudades do trabalho desenvolvido no viveiro de talentos do Seixal?
Em 2004 integrei um projeto que designei «Geração Benfica» e que estava baseado em três pilares fundamentais: visão, plano e pessoas. Nesse ano, os dois treinadores contratados foram o Rui Vitória e o Bruno Lage. A lógica no Caixa Futebol Campus era clara: potenciar jogadores e treinadores. Mais que formar equipas, tínhamos que formar jogadores, colocando de lado a lógica da “campeonite”. Com uma política muito forte de deteção de talentos e qualidade de trabalho, os frutos não tardaram em aparecer: Gonçalo Guedes, Bernardo Silva, João Cancelo, Ruben Dias, etc. Estes craques estão em alguns dos maiores clubes do mundo. O Benfica, nesta altura, já potenciou 500 milhões de euros em jovens jogadores da formação.

Diz que é preciso abandonar a “campeonite”. Acha que os adeptos aceitam esse discurso?
Reconheço que no início não foi fácil passar essa mensagem. Quero ganhar, mas a um patamar em que o ganhar faça sentido. Se o Benfica ou outro clube tiver uma formação que forme muitos e bons jogadores, naturalmente que terá equipas melhores, mais competitivas e que ganham mais vezes. Pode não ser imediatamente no início dos projetos, mas tarde ou cedo as vitórias começam a aparecer de forma mais frequente.

Os clubes portugueses têm as melhores academias de formação do mundo?
Sem dúvida nenhuma. E repare que esse investimento já não é apenas de Benfica, FC Porto e Sporting. Mais recentemente, o Braga e o Guimarães perceberam que é pelo investimento nas camadas de formação que será possível potenciar jovens jogadores da formação. Mas não podemos esconder a realidade: nenhuma equipa que ambicione conquistar títulos e chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões pode assentar as suas equipas profissionais apenas em jovens jogadores. Isso é impensável. Deve-se mesclar, dando espaço de intervenção e evolução aos jogadores talentosos, juntamente com os atletas com mais experiência e rendimento, que certamente os vão ajudar a evoluir.

Como país periférico que somos, estamos condenados a formar para vender?
É verdade, mas faz parte da nossa realidade periférica e da pouca capacidade financeira dos nossos clubes, comparativamente com as cinco maiores ligas da Europa, que lidam com valores exorbitantes e conseguem aceder a mercados mais globais, proporcionando verbas astronómicas provenientes dos direitos televisivos. Só nos resta capacitar e qualificar cada vez mais os nossos campeonatos para que seja possível vender os nossos direitos desportivos a países europeus e do resto do mundo. Entretanto, para melhorar a competitividade das equipas e no que à formação dos jovens talentos diz respeito, temos de continuar a formar com qualidade e cada vez mais, procurando recrutar os jovens prodígios cada vez mais cedo.


Como veria a possibilidade de um dos nossos três “grandes” ser comprado por um investidor estrangeiro? Podia alavancar o nosso futebol a outros patamares?
Isso já existe no nosso país. Clubes como o Tondela ou o Boavista estão na posse de investidores estrangeiros. Quanto aos três “grandes”, francamente não acredito que possam estar envolvidos numa operação financeira como a que descreve. Pelo menos para já. A lógica de relacionamento que temos com os nossos clubes é muito intimista e apaixonada. Por pagarmos aquela quota de sócio, entendemos que somos coproprietários do clube. E isso iria criar graves problemas às direções dos clubes e das SAD. Mas no médio prazo – e mantendo-se as limitações dos nossos clubes para competirem a um nível mais elevado – é possível que essas operações financeiras possam concretizar-se. Acima de tudo, considero que é importante controlar e fiscalizar a operação, nomeadamente a origem dos investidores, e se corporizam uma intenção séria, profissional e organizada.

Foi presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol. Ouvimos de forma recorrente que os calendários estão cada vez mais sobrecarregados, entre compromissos dos clubes e das seleções. O mundial de 2022 será, pela primeira vez, no inverno. O negócio está a respeitar os principais protagonistas do espetáculo: os futebolistas?
Todos os intervenientes – a FIFA, a UEFA, as federações, os clubes e os representantes dos jogadores – deviam sentar-se à mesa e discutir de forma pormenorizada estas matérias. Sei do que falo porque fui vice-presidente executivo da FIFPro – a federação internacional que engloba todos os sindicatos de jogadores de futebol do mundo – e já no meu tempo se discutia e negociava a defesa intransigente dos direitos dos jogadores profissionais de futebol. Penso que deve prevalecer o interesse do jogo e isso passa pela disponibilidade física e fisiológica dos jogadores. Se isso não acontecer, os jogos são de fraca qualidade, o que afasta espetadores dos estádios e dos ecrãs das televisões. Cria-se uma bola de neve difícil de gerir.

Como antecipa o próximo ano, com uma paragem dos campeonatos de dois ou três meses para se jogar o mundial do Qatar?
Se nos qualificarmos isso também acontecerá nas nossas competições internas, com a paragem do campeonato em outubro e regresso apenas em janeiro. As ligas, a maior parte ao rubro, vão ser suspensas e resta saber que efeitos isso terá na viabilidade e estabilidade das sociedades desportivas. Por isso, é um problema que terá de ser discutido para que não se coloque em causa a sobrevivência do jogo. Neste momento está a ser hipervalorizada a componente empresarial da indústria do futebol e precisamos de encontrar uma solução intermédia para acautelar os interesses dos futebolistas.

Finalmente, desafio-o a fazer uma apreciação sobre o nosso campeonato. Tem algum favorito para erguer o troféu em maio?
Esta vai ser, certamente, uma liga muito competitiva e renhida entre os três “grandes” do nosso futebol. Estamos com um terço de campeonato cumprido, mas Benfica, FC Porto e Sporting vão perder muitos pontos até final, nomeadamente nos jogos entre si. Ou seja, acredito que os jogos entre os favoritos vão determinar o campeão.

O VAR não eliminou a polémica, mas trouxe mais justiça ao jogo?
As paragens são por vezes algo incómodas e excessivas, mas o VAR veio trazer mais verdade desportiva. Acredito também que é possível sempre melhorar este instrumento tecnológico e o desempenho dos elementos que estão a acompanhar o jogo à distância e a sua comunicação com os árbitros de campo.

 

A CARA DA NOTÍCIA

Projeto «Geração Benfica»

António Carraça nasceu em Vila Franca de Xira a 22 de maio de 1958. Foi diretor da formação do Benfica, no Seixal, – liderando o projeto “Geração Benfica” – e mais tarde diretor geral para o futebol do clube da Luz. Em 2016 cruzou o Atlântico após ter respondido afirmativamente ao convite do Milionários de Bogotá para gerir toda a estrutura do futebol de formação e profissional, num projeto semelhante ao que realizou em Portugal. No primeiro ano da sua aventura o Milionários foi campeão da Colômbia. Como futebolista foi jogador em clubes históricos do futebol português, como o Vitória de Setúbal, o Farense, o Belenenses e o Vitória de Guimarães. Acabou a carreira aos 33 anos no Alverca. Esteve cinco anos como treinador, em escalões secundários, tendo passado pelo União de Montemor, O Elvas e Atlético. Desempenhou ainda os cargos de diretor executivo e presidente do Sindicato dos Jogadores de Futebol. Apresenta no canal 11 o programa “Sagrado Balneário” e é comentador no “Futebol Total”.

Nuno Dias da Silva
Direitos Reservados
 
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