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Paulo Dentinho, jornalista ‘Não se faz jornalismo sentado no conforto das cadeiras dos gabinetes’ 21-06-2021

Ao longo de mais de trinta anos, seja em palácios reais e presidenciais ou em perigosos cenários de conflito, Paulo Dentinho viu a sua vida em risco por procurar fazer o que compete a um enviado especial: contar a verdade dos acontecimentos. O que se segue é o testemunho de um jornalista em reportagem que ousou “sair da estrada”.

É preciso alguma dose de loucura para se ser repórter em cenários de guerra?
Qualquer repórter tem de ter a vontade de “sair da estrada”, no fundo, de ser incómodo. O que pretendo dizer é que um repórter tem de abandonar os caminhos por onde os vários poderes – os governos, as oposições, as federações desportivas, ou sejam eles quais forem – nos querem enfiar. Todos os poderes têm uma visão instrumental do jornalismo.

E de que forma é que o jornalista deve reagir?
O jornalista tem de recusar ser usado como um instrumento. Caso contrário, não está a fazer jornalismo, mas sim comunicação ou propaganda, como se chamava nos anos 60. Ouvimos muitas pessoas que enchem a boca com a liberdade de imprensa, mas que, na realidade, o que pretendem é “organizar” a imprensa.

Essa prática é exclusiva de todos os regimes?
As ditaduras “organizam” a imprensa como ninguém, mas as nossas democracias também o fazem, porque também aqui há uma visão instrumental do jornalismo. Os poderes gostam do jornalista amestrado e ficam muito desconfortáveis com profissionais incómodos. Como costumo dizer, ser jornalista é ter de ser chato, por muito que isso custe a muitos.

O livro que acaba de lançar – “Sair da estrada” - reúne uma seleção das múltiplas reportagens que fez um pouco por todo o mundo, desde 1987, em Angola, até 2016, na Síria. Pelo livro estão espalhados nomes de guias, tradutores, motoristas e também fontes diplomáticas. Qual é a importância da cumplicidade com estas personagens para o sucesso das reportagens?
Os contactos são absolutamente essenciais para um jornalista. E mais ainda num terreno desconhecido. Eu não conhecia ninguém na Síria. Mas tudo fiz e consegui para que ao chegar a Amã, na Jordânia, cidade onde foi preciso obter autorizações, já possuísse uma morada de contacto. O objetivo inicial era só um: ir a Damasco, a capital da Síria. Não escondo que foi muito importante estudar previamente as figuras do regime e saber que existia uma assessora que desempenhava um papel muito importante no círculo de Bashar al-Assad. O fator empatia é muito importante para que a primeira impressão seja boa e a partir daí se forme uma espécie de rede. Esse é o começo para chegar onde se pretende chegar, mesmo que me considerem um chato.

Na relação com os gabinetes de líderes políticos alguma vez se sentiu inferiorizado ou preterido, por pertencer a um canal português, perante gigantes dos “media” globais, como a CNN e a BBC?
Nunca senti inferioridade em relação a ninguém. Nem mesmo nas conferências de imprensa, fossem onde fossem – se eu achava que tinha de colocar uma questão, dava o passo em frente. Eu sou português, mas a minha pátria é o jornalismo. Aliás, há vários anos, fiz uma reportagem com uma cidadã francesa que colocou o Estado português em tribunal por ter ficado tetraplégica, na sequência de um acidente numa obra no Algarve. A verdade é que ninguém tinha pegado na história. Guardo, por isso, com orgulho uma carta que a senhora enviou para a RTP em que agradecia à estação o facto de ter um jornalista que não olha para a sua nacionalidade. Com a minha reportagem coloquei Portugal em causa, mas o importante é que cumpri o meu dever.

Ao longo das mais de 400 páginas do livro são relatadas situações em que esteve em risco de vida. Ameaças de morte em Moçambique, acesa troca de tiros na Cisjordânia e armas apontadas à cabeça no Zaire. Alguma vez pressentiu que o fim estava a chegar?
A única vez que tive a sensação de que a vida ia acabar foi em Kinshasa, em 1997. Devo confessar que nessa altura, em que tive armas apontadas à cabeça, nem sequer fui capaz de articular um som. Estava resignado a uma inevitabilidade. Eu e o meu colega repórter de imagem estávamos apavorados e sinceramente achei que íamos morrer, tal foi o grau de brutalidade com que fomos confrontados. E dias antes tinha estado detido pelos serviços de informação militares do Zaire e lembro-me que falei que me desunhei. Tive, também, uma situação muito difícil na deslocação a Alepo, na Síria. Tanto eu como o Carlos Pinota – o meu repórter de imagem – tivemos muito medo e só nos vinha à cabeça a imagem de alguns colegas jornalistas decapitados pelo Estado Islâmico.

Viu o passaporte ser-lhe roubado no Zaire e só posteriormente lhe foi devolvido após o pagamento de 50 dólares. Em Atenas, os confrontos sociais levaram a que a câmara do repórter de imagem da RTP acabasse por ficar inutilizada. Como é que se reage a estas contrariedades e de que forma é que é importante ter respaldo institucional no país de origem?
Quando fazemos um telefonema para Portugal é porque algo não está a correr bem e é preciso resolver ou desbloquear o problema. Pode até haver casos em que, devido ao isolamento em que nos encontramos, precisamos de falar com um interlocutor qualquer no nosso país que nos consiga ouvir e nos ajude a superar uma dificuldade. Por exemplo, nas sucessivas ameaças de morte de que fui alvo quando fui correspondente da RTP, em Moçambique. Fui avisado de forma clara: «Vais levar um tiro!». E ainda para mais, com a família a viver comigo, fiquei muito fragilizado. Valeu a ajuda prestada pelo embaixador português em Maputo, António Valente, que me ajudou quando mais precisava com gestos solidários que jamais esquecerei.

Apesar desta mostra de solidariedade, noto que se sentiu, não só em Moçambique, abandonado à sua sorte…
O problema é que muitas vezes há pessoas que não fazem a mais pequena ideia dos sítios onde nos encontramos, dos milhares de quilómetros a que estamos de casa e das situações tensas com que nos confrontamos. Pelo menos para mim, não se faz jornalismo sentado no conforto das cadeiras dos gabinetes.

Isso é uma mensagem para jornalistas e altos responsáveis da RTP?
Casos desses existem no jornalismo e em muitas áreas. São pessoas que têm diferentes objetivos e uma visão da vida distinta da minha. Cheguei a diretor de informação da RTP de forma acidental, cargo em que estive três anos e meio. Mas foi um cargo que nunca quis e nunca fiz nada para que isso acontecesse. Cheguei, inclusive, a recusar esse convite durante muito tempo.

Para além das situações de violência, um repórter em serviço em países do terceiro mundo confronta-se com situações precárias em termos de alojamento e alimentação. Diz que na Tunísia ficou no hotel mais «nojento» que conheceu. Como era esse local?
O célebre Hotel du Nord situa-se em Ben Gardan, na Tunísia, a cidade mais próxima da Líbia, e por lá ficámos enquanto aguardávamos a melhor oportunidade para cruzar a fronteira. Os hotéis mais razoáveis estavam já ocupados por outros jornalistas e enquanto esperávamos e desesperávamos pela promessa de quem nos viesse buscar para entrar em território líbio, não tivemos outra alternativa do que ficar neste alojamento miserável. Fiquei a pensar que ia apanhar pulgas, piolhos, etc. A cama não tinha lençóis, só havia uma manta – que certamente tinha servido para as dezenas de hóspedes que por lá passaram antes – e deitei-me literalmente como estava vestido. A parede tinha um buraco enorme, aparentemente provocado por um aparelho de ar condicionado, entretanto retirado. Um cenário de difícil descrição.

Apesar destas penosas condições, a deslocação à Líbia acaba por redundar na entrevista com Muammar Khadafi. Foi complicado chegar até ao todo-poderoso presidente líbio, em 2011?
Foi curiosa a forma como cheguei até lá. No hall de um hotel, em Trípoli, fui apresentado ao tradutor de francês de Khadafi e trocámos contactos. Tive a “lata” de lhe enviar um pedido de entrevista e acabei por ser bem sucedido. Khadafi deu à RTP a última entrevista antes de morrer. Tive a lucidez de fazer uma entrevista para o futuro e é, nesse particular, que eu «ganho» a entrevista e ela se torna um “scoop” mundial.

Foi um dos seus momentos altos como repórter?
Confesso que não foi dos momentos mais emocionantes da minha vida. Após uma longuíssima espera, finalmente Kadhafi lá chegou a guiar um daqueles carrinhos de golfe. Não era um personagem muito simpático, ao contrário, por exemplo, do presidente sírio, que é bastante delicado no trato e na convivialidade. A entrevista não se prolongou muito porque ele justificou que tinha uma oração de final do dia, mas no tempo que durou quis passar de forma muito assertiva a sua visão dos acontecimentos. Todas as respostas que deu foram muito brutas, por assim dizer.

A queda de Khadafi pôs fim à Líbia enquanto país tampão dos movimentos migratórios da África subsariana?
A Líbia recebia fundos da União Europeia para bloquear os movimentos migratórios. Quando o regime caiu e com a “primavera árabe” os movimentos iniciaram-se. Contudo, creio que a “primavera árabe” só funcionou verdadeiramente na Tunísia. Os outros regimes foram tomados pelas agendas dos movimentos religiosos, o que subverteu o caminho para uma sociedade mais decente, com mais direitos para as mulheres e para os cidadãos, de uma forma geral.

Como é que define a evolução tecnológica que teve ao seu dispor ao longo destes mais de trinta anos de reportagens um pouco por todo o mundo?
Antes de responder, em concreto, à pergunta deixe-me fazer uma nota prévia: com este livro quis fazer publicamente a minha homenagem aos repórteres de imagem – grandes companheiros de inúmeras viagens e que muito raramente são falados. Nenhuma reportagem em televisão é feita sem o repórter de imagem. Este é, por isso, o meu enormíssimo obrigado. Relativamente à evolução tecnológica ela foi simplesmente extraordinária. Recordo-me, com nostalgia, de em 1987, em Angola, na companhia do Eduardo Jorge Silva, termos filmado em “inversível cor”. Dava um gozo especial trabalhar em filme, mas era imenso o tempo desde a captação das imagens, a sincronização do som, a montagem etc. As gravações foram feitas em Angola e a edição aconteceu, posteriormente, em Lisboa. Mais tarde, começámos a trabalhar em vídeo. Já na década de 90, lembro-me que em Zagreb montávamos as reportagens no hotel e em Israel na Jerusalém Capital Studios, com a ajuda de um editor. Mais tarde, passámos a viajar com unidades de edição. Uma mala enormíssima e pesadíssima, onde entrava a cassete das filmagens de um lado e do outro lado saía a edição. Atualmente, basta levar um “laptop” - faz-se tudo lá e permite montar as peças em muito curto espaço de tempo.

Hoje em dia recorre-se muito ao direto…
O direto usa muito a lógica de “o jornalista está lá”, mas não chega. Não sou nada adepto dos diretos, especialmente os que nada acrescentam. O importante é a reportagem, porque é através dela que é mostrada, verdadeiramente, a realidade e a situação no terreno. Se assim não for, como justificar que o jornalista tenho sido enviado especial ao local? Para fazer um direto em qualquer canto do mundo, sem nada acrescentar, mais vale fazê-lo a partir de Lisboa.

Que reportagem ou que entrevista é que está por concretizar?
Tenho muitas saudades da grande reportagem internacional. Espero, ainda, voltar a puder fazer mais algumas.

Aliciava-o uma reportagem na misteriosa e fechada Coreia do Norte?
Sim. Contudo, não seria fácil, dados os previsíveis constrangimentos e condicionamentos a todos os jornalistas que eles concedem autorização para entrar. Mas devo dizer que tenho um enorme respeito pelo jornalismo feito nas nossas democracias pelos profissionais chatos que denunciam o que vai mal nos poderes e na República e que são, muitas vezes, vilipendiados por este ou aquele partido. O meu enorme elogio por serem bem mais do que meros serventuários do poder.

Como anteriormente referiu, foi diretor de informação do canal público. Foi mais difícil gerir os egos dos jornalistas ou lidar com as pressões do poder político?
Como estou-me nas tintas para as pressões dos políticos, diria que se calhar é mais complexo lidar com os egos dos jornalistas e gerir uma redação. E esses egos são legítimos e compreensíveis. Aliás, não conheço ninguém que trabalhe na profissão que tenha um ego pequenino. Por isso, é preciso criar empatia com as pessoas e procurar entender no outro o difícil equilíbrio entre forças e fragilidades. Foi o que tentei fazer, especialmente pelo respeito que tenho pelos meus camaradas, sejam eles, produtores, realizadores, repórteres de imagem ou jornalistas. E sempre procurei passar a mensagem que não há jornalismo sem liberdade e responsabilidade. É desta premissa que depende o exercício da profissão.

O serviço público de informação deve estar focado nas audiências?
Como dizia o outro, “eu agora é mais bolos”. Tinha um rumo e um horizonte para o serviço público de televisão, mas agora a responsabilidade pertence a outros protagonistas.

São múltiplos os desafios de grande monta que se colocam ao jornalismo. A profissão e os seus profissionais estão numa encruzilhada?
A Humanidade, ela própria, está numa encruzilhada. Todos nós estamos numa inevitabilidade entre a vida e a morte, por isso, a vida é um permanente desafio. Esta profissão não escapa a isso e está a ser ameaçada pelas redes sociais e pela desinformação.

É do combate pela credibilidade que depende a sua sobrevivência?
A credibilidade é um fator absolutamente essencial. Nunca perder a credibilidade deve ser um ponto de honra. É preciso ser digno de uma profissão que é, de facto, maravilhosa. Temos de entender que mesmo que façamos o nosso trabalho seremos sempre vilipendiados e as redes sociais serão usadas como arma de arremesso para denegrir o nosso trabalho. E isto acontece porque certos poderes que tomaram conta das sociedades convivem muito mal com a liberdade de imprensa. Só uma sociedade mais madura e que tenha poderes que lidem bem com a liberdade de imprensa e com a crítica é que se pode dizer que está a seguir no bom caminho.

A lógica instantânea e o alcance brutal das redes sociais alteraram a noção de tempo. O querer dar a notícia, ainda sem certezas, só para chegar à frente da concorrência, está a matar a credibilidade?
Ponto prévio: é importante dar a notícia em primeiro lugar e estar lá, onde a notícia acontece. Mas prefiro ser o último a dar a notícia, com certeza e precisão, em vez de estar a correr desenfreadamente com outros. Nessa corrida, muitas vezes, se não tivermos cautela, tropeçamos em nós próprios e lá se vai a credibilidade. O jornalismo continuará a ter futuro se não se derem pontapés no código deontológico e se a informação que prestamos for à prova de bala. O jornalismo, enquanto espaço de liberdade, é o último grande dique contra todas as intolerâncias. A situação atual do jornalismo não é risonha, mas é preciso ser um romântico para gostar desta profissão. E eu tenho essa visão romântica da vida.

 

Cara da Notícia

Profissão: repórter

Paulo Dentinho é jornalista da RTP e atualmente apresenta o programa de debate “Sem muros” (RTP3), mas gosta de definir a sua profissão como simplesmente «repórter». Dentinho foi ainda diretor de informação da RTP durante três anos e meio e correspondente do canal público em Maputo, Díli e Paris. Para além disso, no seu currículo conta com entrevistas a personalidades de relevo internacional como Ytzhak Rabin, Muammar Kadhafi, Emmanuel Macron, Recep Erdogan, Bashar al-Assad e Lula da Silva. Nos últimos 30 anos foi enviado especial a dezenas de cenários, um pouco pelos quatro cantos do mundo: de Jerusalém, a Damasco, de Luanda, a Atenas, passando por Kinshasa, Zagreb, Trípoli e Peshawar. Compilou 13 histórias no seu último livro “Sair da Estrada – Um jornalista em reportagem”, editado pela Caminho, que dedica à «memória inesquecível» do seu primo, Pedro Lima, falecido o ano passado.

Com o repórter de imagem Carlos Pinota

Com o repórter de imagem Carlos Pinota

Com Xanana Gusmão

Com Xanana Gusmão

Em reportagem num cenário de guerra

Em reportagem num cenário de guerra

Em reportagem

Em reportagem

Nuno Dias da Silva
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