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Gustavo Tato Borges, médico de saúde pública ‘A pandemia só acaba quando todo o mundo estiver completamente vacinado’

22-11-2021

Perante o aumento do número de casos, o vice-presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública defende que se facilite uma testagem regular da população, nomeadamente com a realização de testes rápidos antigénio na farmácia, por serem mais fidedignos. Objetivo: detetar casos positivos, conter e quebrar as cadeias de transmissão. Contudo, Gustavo Tato Borges deixa um alerta: «um teste negativo não nos deve permitir fazer tudo.»

No dia em que falamos, e pelos dados disponíveis, estamos perante mais uma vaga da pandemia, com um perfil diferente das anteriores. O que é que carateriza esta nova fase?
É uma nova onda pandémica, em crescimento, mas com uma intensidade menor. Carateriza-se, de um modo geral, por uma baixa gravidade e mortalidade, muito à custa da extraordinária cobertura vacinal que Portugal tem. A transmissão da doença também se assemelha, em termos de crescimento, àquilo que foi a última vaga, o que demonstra que a vacinação veio trazer-nos uma proteção muito mais real, mas não evitou a transmissibilidade da doença, devido ao fim das medidas preventivas que estavam em vigor e ao retomar, quase normal, do nosso dia a dia.

Que indicadores devem ser monitorizados mais de perto – o número de casos, os internamentos em enfermaria ou UCI, os óbitos, a incidência ou o R(T)?
Penso que deve ser uma combinação de todos. Não podemos negligenciar a taxa de incidência da doença, nem tão pouco o indicador que aponta ou não se a pandemia está em risco de crescer. Mas ao mesmo tempo também não podemos esquecer fatores importantes como os internamentos e a mortalidade. São dados que ajudam a definir a força com que vamos intervir em termos legislativos. Nesse sentido, e com o quadro que dispomos, penso que não se justifica uma intervenção muito alargada por parte do governo, mas sim medidas pontuais, mas simples, como o fomentar da utilização da máscara em espaços interiores, o retomar do teletrabalho e a recuperação da gratuitidade dos testes rápidos antigénio na farmácia.

O objetivo primordial é por travão a este crescimento para não chegarmos aos dias prévios ao Natal com valores muito elevados?
Para começar, temos de baixar o número de novos casos que temos diariamente. Para minimizar o número de infetados e também de pessoas próximas que ficam em isolamento, mas para descansar a população. Mas claro, se rondarmos, em média, os 3000/3500 casos no Natal, não podemos considerar que a situação é normal e teremos de fazer algo rapidamente. Aliás, tudo temos de fazer para que não se cumpra a previsão da Universidade de Washington que estima para o nosso país um número de casos, em janeiro, entre 6 e 10 mil por dia.

Dezembro é um mês com feriados e uma agitação muito particular, com os jantares de empresas, de amigos e as tradicionais compras. Para além disso, há estrangeiros e imigrantes que regressam ao seu país Natal. Defende a promoção de condições para a testagem massiva prévia aos eventos?
Quem tiver possibilidade de fazer autotestes em casa, deve fazer, mas recomendo a realização de testes rápidos antigénio na farmácia, pelo facto de o resultado ser muito mais fidedigno. Por isso, entendo que deve ser promovida e facilitada uma testagem regular da população, para encontrar casos positivos, contê-los e quebrar as cadeias de transmissão. Mas é preciso ter atenção ao seguinte: um teste com resultado negativo não nos deve permitir fazer tudo. Há um menor risco, mas os cuidados devem ser mantidos.

A maior cautela no controlo das nossas fronteiras deve ser uma prioridade?
Isso é uma questão mais legal e política, do que propriamente de saúde pública. Mas um bom controlo de fronteiras, com a obrigatoriedade de teste negativo para entrar, seria uma boa medida. É certo que a cobertura vacinal da nossa população é robusta, mas se continuarmos a importar casos do exterior, iremos continuar a importar novas variantes. Aliás, os recentes relatórios do Instituto Ricardo Jorge apontam para a presença da subvariante Delta na nossa população e, como os primeiros estudos apontam, é 10 a 15 por cento mais transmissível. E é previsível que dentro de algum tempo possa ser predominante, relevando a variante Delta.

A generalização do tempo frio e a circulação de outros vírus respiratórios, como é o caso da gripe, podem agudizar a pressão nos serviços de saúde?
Nas últimas semanas temos assistido a uma pressão acrescida no recurso aos serviços de urgência dos hospitais, nomeadamente com doenças respiratórias alta, como é o caso da Covid-19, gripe, etc. Aliás, os pediatras têm chamado a atenção para os casos de vírus sincicial respiratório, uma causa muito comum de infeções das vias áreas, especialmente em crianças, e que tem sintomas muito semelhantes aos da Covid. Por isso, reforço, se não adotarmos as medidas preventivas que todos sabem, podemos chegar a dezembro/janeiro com os nossos serviços de saúde com uma sobrecarga que tornará difícil que todos os utentes sejam atendidos. E a Covid não será a principal ameaça. Este ano com o fim de muitas medidas preventivas, regressarão as doenças respiratórias habituais e que o ano passado, devido ao uso de máscara, foram fortemente atenuadas.

É do ritmo da vacinação dos mais de 65 anos até final de dezembro que dependerá a evolução do número de óbitos?
O reforço com mais uma dose da vacina dos nossos mais vulneráveis é extremamente importante, porque vai torná-los mais capazes de lidar com a infeção sem desenvolverem doença grave. Deste modo, evitaremos que no pico do inverno tenhamos uma mortalidade aumentada.

O Reino Unido vai alargar a terceira dose a faixas etárias mais baixas, a partir dos 40 anos. É um cenário que devemos ponderar?
Penso que depois de vacinar os vulneráveis, tudo deve estar em cima da mesa. O governo e a direção geral de saúde podem alargar a terceira dose à maior parte da população, especialmente aos que têm uma vida mais ativa, nomeadamente os adolescentes e jovens adultos. Mas não tenho evidência científica que aponte que é esse o caminho a seguir. Penso que, no imediato, devemos promover o reforço das medidas preventivas e esperar pelas vacinas Covid da segunda geração, que são aguardadas para 2022, e que se espera tragam uma grande eficácia no controlo da transmissibilidade da doença. Nessa altura, considero que valerá a pena voltar a vacinar a totalidade da população.

O virologista alemão Christian Drosten estima que na primavera de 2022, por estarem mais avançados na vacinação, Portugal e Espanha vão dar a pandemia por vencida. É mais uma previsão ou com este vírus qualquer previsão pode sair furada?
Creio que 2022 será marcado por muito menos mortalidade do que em 2021 e 2020. Isto é um sinal extraordinário. Se olharmos para o valor dos óbitos diria que Portugal está praticamente numa situação de endemia, porque o vírus circula, mas, na generalidade, causa doença ligeira. O problema é que não estamos sozinhos no mundo e é por esse motivo que não podemos cantar de galo e proclamar o fim da pandemia no nosso país. A pandemia só vai acabar quando todo o mundo estiver completamente vacinado. Aliás, para ter um exemplo disso, há poucos dias li a notícia de que a Secretária de Estado do Turismo anunciou que Portugal está a «vender» o destino turístico nacional aos alemães, quando é precisamente lá que se encontra a situação mais grave da Europa, neste momento.

Muito se tem dito sobre as deficiências em comunicação em saúde das nossas autoridades e do poder político. Compreendeu a saída do vice-almirante Gouveia e Melo, cujo trabalho poucos contestam, ou pensa que foi precipitada?
Estou eternamente grato pelo trabalho que o vice-almirante desenvolveu – nomeadamente no que à organização, distribuição e logística diz respeito – e precisamos de pessoas que sigam o seu exemplo, mas a “task force” tinha o objetivo claro de atingir uma cobertura vacinal (com duas doses) acima de 85 por cento da população. E esse desiderato foi conseguido. Por isso, acho perfeitamente natural que ele tenha regressado ao que era o seu trabalho normal. Para ser franco, acho que não teríamos aprendido nada, e teria sido uma oportunidade desperdiçada, se agora tivéssemos que chamar o vice-almirante Gouveia e Melo para que a vacinação voltasse a recuperar. Não descarto que se for preciso vacinar, em 2022, com as vacinas da nova geração o vice-almirante volte a ser requisitado, mas nesta fase o SNS tem de sobreviver sozinho e valer-se dos seus profissionais, que possuem total capacidade para responder a este desafio.

E podia-se melhorar a comunicação em saúde?
Desde o início do processo que nem o Ministério da Saúde, nem a DGS têm profissionais qualificados para fazer este género de comunicação à população. É preciso que daqui para a frente se perceba que precisamos de ter profissionais qualificados em comunicação em saúde para transmitir mensagens adequadas à população.

Da experiência que acumula no seu trabalho, os estabelecimentos de ensino têm sido focos de contágio ou têm apenas registado surtos pontuais?
Há que referir que existe uma clivagem entre os jovens vacinados e não vacinados. Nos que não foram inoculados temos registado alguns surtos. E temos verificado que existe, por assim dizer, alguma desvalorização dos sintomas de infeção respiratória alta. Os pais e até os professores tendem a ignorar os sintomas associados a uma constipação, não consultam um médico e chegam mesmo a levar os seus filhos à escola. Não raro, temos notícias de alguns casos e turmas inteiras que são enviadas para casa em isolamento. É preciso terem ciente que quanto mais depressa encontrarem um caso positivo mais depressa controlamos a situação e menos impacto terá na comunidade escolar.

A Áustria vai começar a vacinar as crianças entre os 5 e os 11 anos, mesmo sem a Agência Europeia do Medicamento se ter pronunciado…
Não creio que haja qualquer razão científica que justifique o alargamento da vacinação para essas idades. Acredito, contudo, que a Agência vai dar luz verde e depois a decisão caberá a cada pai.

Os médicos de saúde pública ganharam um inesperado protagonismo com a pandemia, nomeadamente com o seu trabalho no âmbito dos inquéritos epidemiológicos, mas são vistos como uma espécie de parente pobre do sistema de saúde. É verdade que quando os casos diários de Covid superam os 1000 por dia torna-se impossível, com os recursos existentes, apanhar o fio à meada?
Normalmente quando temos 30 casos num centro de saúde torna-se muito difícil de os acompanhar a todos. Uma entrevista telefónica rápida com um infetado pode demorar 10/15 minutos e depois é preciso ligar a todas as pessoas com quem ele contactou. Isto representa uma grande sobrecarga e não temos capacidade de chegar a toda a gente. Isto foi muito claro em setembro de 2020 e em dezembro, janeiro e fevereiro deste ano. Por vezes sentimos algum desânimo e cansaço quando os comportamentos ligeiros se repetem. Era preciso que as pessoas compreendessem que os médicos de saúde pública precisam da colaboração de todos para podermos, com o nosso trabalho, ter impacto na saúde das pessoas. E estamos a falar de Covid, mas o nosso trabalho não se esgota aqui. Temos doenças de notificação obrigatória como é o caso da tuberculose, meningite, etc. Para além disso, os recursos são poucos. Atualmente temos um rácio definido de um médico de saúde pública por cada 25 mil habitantes. Mas não estamos a cumprir isso praticamente em lado nenhum. Para dar um exemplo: na Região de Lisboa e Vale do Tejo temos agrupamentos de centros de saúde com 300 mil pessoas e onde estão disponíveis 3 ou 4 médicos desta especialidade. Entretanto, olhamos para o Plano de Recuperação e Resiliência e nada se vê inscrito de aumento de verbas para a saúde pública. A saúde precisa de mais primazia nas decisões políticas e a saúde pública necessita de ganhar o seu espaço e de interligar os diversos setores da saúde e da sociedade para que a nossa população saia favorecida.

Disse numa entrevista recente que «há mais pessoas a mentir aos delegados de saúde pública». Que dados é que as pessoas ocultam?
As pessoas infetadas julgam que caso nos digam que estiveram em contacto com um colega ou um amigo estes fiquem obrigados a isolamento. O que até nem é verdade. Mas essa avaliação de risco cabe a nós, médicos de saúde pública. Temos muitos relatos telefónicos em que é fácil de perceber que são muitas as contradições, as histórias que não batem certo, as mentiras. É lamentável quando as pessoas não colaboram connosco. Mas é preciso lançar o alerta que, neste momento, as pessoas completamente vacinadas, que não coabitam com um caso positivo, apenas fazem teste de rastreio. E é fundamental que o façam, nós até o prescrevemos gratuitamente, para que vão quebrando as cadeias de transmissão de uma forma mais rápida. Se não colaborarem connosco, vão sempre haver casos não identificados.

 

A CARA DA NOTÍCIA

Candidato a presidente da ANMSP

Gustavo Tato Borges nasceu a 15 de maio de 1982, no Porto. É vice-presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP) e concorre, em dezembro, nas eleições agendadas ao cargo de presidente. Fez o mestrado integrado de Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e o internato de médico de saúde pública no Agrupamento de Centros de Saúde Maia/Valongo. Desde 2016 é assistente de saúde pública e delegado de saúde no Agrupamento de Centros de Saúde Santo Tirso/Trofa. Presidiu à comissão especial de luta contra a pandemia na Região Autónoma dos Acores, um cargo equivalente ao de coordenador regional de saúde pública. Entre 2015 e 2020, no domínio académico, foi docente convidado da Faculdade de Medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. Nos últimos meses tem sido personalidade assídua nos órgãos de comunicação social, como convidado para analisar a evolução da pandemia.

Nuno Dias da Silva
Direitos Reservados
 
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