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Óscar Felgueiras, professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto ‘A matriz de risco não deve ser ignorada’ 26-04-2021

Óscar Felgueiras, um dos especialistas convidados para aconselhar o governo sobre o plano de desconfinamento, acredita que a entrada na terceira fase constituirá um «capítulo chave para a evolução da pandemia.» O professor salienta ainda o papel da matemática em fornecer informação «útil, tratada e modelada» para que os políticos possam tomar decisões.

Como é que surge o convite para desenhar o plano de desconfinamento?
A minha área de formação é a matemática, tirei o doutoramento em geometria algébrica e posteriormente fiz uma inflexão para a área da estatística e modelação matemática. Nesta área específica colaborei, várias vezes, com a professora Raquel Duarte, em trabalhos de epidemiologia com ligação à tuberculose. Para além disso, colaborámos em artigos científicos, e em orientações de teses de mestrado e doutoramento. Quando surgiu a pandemia, trocámos impressões e concluímos que a abordagem matemática seria útil para traçar a evolução do que estava a acontecer. E, a partir desse momento, iniciou-se um acompanhamento mais formal. Em janeiro surgiu o convite para um aconselhamento ao governo no plano de desconfinamento, na sequência de uma envolvência mais ampla da minha parte ao longo do tempo.
Chegou, inclusive, a abandonar, provisoriamente, as aulas na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), para assumir uma colaboração em “full time” com a Administração Regional de Saúde (ARS) Norte…
Entendi que este desafio obrigaria a que me dedicasse a este trabalho a tempo inteiro. Fui formalmente requisitado pela ARS Norte para esta colaboração e passei a trabalhar em exclusivo no acompanhamento da pandemia.

O trabalho que desenvolve com a professora Raquel Duarte tem como principal mais valia a complementaridade de conhecimentos que ambos aportam à investigação e ao próprio plano de desconfinamento?
O trabalho que tem vindo a ser desenvolvido há cerca de um ano e o plano de desconfinamento são ambos multidisciplinares. Temos outras pessoas envolvidas com competências várias. A professora Raquel Duarte acompanha a gestão estratégica, nomeadamente sobre o que se deve fazer no terreno e eu dou o meu apoio ao nível da análise de dados sobre os principais indicadores associados à pandemia. No meu caso, também produzo relatórios sobre a situação dos concelhos do Norte, informação que é distribuída por hospitais, autarquias, universidades, proteção civil, etc. Em novembro comecei a integrar a equipa de peritos que intervém nas reuniões do Infarmed e em final de janeiro iniciámos o trabalho sobre o plano de desconfinamento.

Gostaria que revelasse como são os seus dias de trabalho e a que dados dá mais prioridade para acompanhar uma realidade tão dinâmica como é a pandemia?
Não se trata apenas olhar para os números, é preciso perceber o contexto em que surgem. Daí a importância do contacto com outros especialistas, colocando ênfase na vertente multidisciplinar. A minha parte é dar a imagem em termos quantitativos e monitorizar os vários indicadores. Mais do que termos muitos dados, o importante é que a informação recolhida seja de qualidade.

O que é que quer dizer com isso?
Há muita informação que chega distorcida, por uma diversidade de fatores. E o que acontece é que nem sempre essa informação desvirtuada e com discrepâncias é facilmente detetável. E há “timings” em que a informação é critica, porque as decisões são tomadas em função dos dados disponíveis.

Tem a noção da responsabilidade que pesa sobre os seus ombros, porque é da informação compilada e trabalhada de que vai depender a tomada de decisões políticas com impacto na vida de milhões de portugueses?
Sim, é verdade. Mas repare que a origem da informação que nos chega é muito importante para a qualidade do trabalho que queremos desenvolver. Quero recordar que há alguns meses atrás, a Direção Geral da Saúde (DGS) não reportou, durante algum tempo, nos seus boletins diários, casos nos concelhos do Norte.

Para além dos casos reportados, a que outro tipo de matéria prima informativa tem se socorrer para fazer as suas estimativas e projeções?
Varia muito em função das alturas da pandemia e da abundância ou não de informação. Nas alturas mais críticas, em que há explosão de casos, a informação perde qualidade e já não conseguimos ter acesso a dados da mesma natureza. Porque se perde o rasto em termos estatísticos. As regras do jogo mudam rapidamente.

Quais são os indicadores a que presta mais atenção?
Por exemplo, o indicador da positividade dá uma ideia do quanto estamos a falhar no número de casos existentes. Se a taxa de positividade é baixa, a situação está mais controlada, se a taxa de positividade for mais elevada (como já tivemos, de 20 por cento) significa que só estamos a detetar uma pequena parcela dos casos em existentes. Com as variações que se registam nos vários indicadores é muito importante manter o espírito crítico.

Referiu, há algumas semanas, que era impossível o R(t) manter-se abaixo do 1. Entretanto, já se superou essa fasquia. Como é que se calcula e quem escrutina este indicador?
O cálculo e o escrutínio são da responsabilidade do INSA - Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. De forma simples, o R(t) corresponde ao número de casos gerado por cada caso, a uma determinada data. O cálculo tem origem numa base de dados da DGS, tendo como ponto de partida a data de início de sintomas que não coincide com a data em que os casos são notificados ou reportados. É construída uma curva epidémica, baseada em três camadas: uma primeira relativa aos casos com data de início de sintomas conhecida, uma segunda obtida por um procedimento de imputação que atribui uma data de início de sintomas aos casos em que ela é desconhecida, e finalmente, aplica-se o “nowcasting” (um termo técnico para definir estimativa a curto prazo) que determina uma terceira com uma estimativa dos casos que estejam por reportar. A partir dessa curva epidémica faz-se o cálculo do R(t). Quero realçar que é natural que exista um atraso nos dados – para se consolidar informação – para termos o conhecimento das estimativas. Para além disso, existe habitualmente um desfasamento de cinco dias entre a data de infeção e a de início de sintomas. Mas não é apenas o R(t) que tem este desfasamento, a taxa de incidência, por exemplo, também tem.

A célebre matriz de risco que o primeiro-ministro deu a conhecer ao país deve ser vista com uma certa flexibilidade?
A matriz de risco deve ser vista com flexibilidade, mas não deve ser para ignorar. Acredito que agora com a abertura de boa parte do país a esta terceira fase do desconfinamento, vamos entrar num capítulo chave da evolução da pandemia e será importante que a matriz de risco continue a desempenhar o seu papel de ajuda à perceção de risco por parte da população.

A evolução do R(t) é o que mais o preocupa?
Tivemos um crescimento sustentado do R(t), com valores próximos de 1,05, durantes cerca de duas semanas até à Páscoa. No entanto, houve posteriormente uma queda para valores abaixo de 1, o que indicia uma estabilização no número de novos casos, apesar de algumas assimetrias regionais.

Apesar dessa melhoria, seria mais prudente um desconfinamento lento?
Convém sempre que exista uma consolidação de cada etapa do plano de desconfinamento. O objetivo será, pelo menos, que o R(t) permaneça próximo de 1. O intervalo de duas semanas existente entre etapas é curto e nem sempre suficiente para que se consiga fazer uma avaliação com informação completa no momento da decisão.

O que está a pretender dizer é que o plano de desconfinamento deve ser aplicado com muita prudência…
De uma forma geral, havendo riscos objetivos considero ser melhor esperar, do que mais tarde correr o risco de retroceder. Decidiu-se avançar e, felizmente, estamos numa situação relativamente estabilizada o que diminui o risco de se ter de retroceder. E isso seria o verdadeiramente indesejável. Não acredito que se retroceda, nomeadamente ao nível da educação, naquilo que já foi aberto. E veja que a abertura a 19 de abril do restante ensino secundário e das universidades e politécnicos é um “contrato” para manter por dois meses, até final das aulas, portanto. A questão que se coloca é: estamos em condições de levar esse compromisso até ao fim?

Quando o abriu o primeiro ciclo mostrou-se confiante pelo baixo número de casos registados. O que o fez mudar de ideias?
De facto, na primeira semana não houve registo de grande impacto no número de casos. Mas na segunda semana, houve surtos e registou-se um aumento grande nas crianças que já está, aliás, identificado. É um sinal de aviso.

No dia 19 de abril abriram os centros comerciais…
Pois, tudo o que for aberto é um elemento de risco a juntar a outros que já temos.

De uma forma geral, o efeito da Páscoa foi bastante inferior ao registado no Natal?
Tivemos algum efeito, nomeadamente no fim de semana da Páscoa, mas evidentemente muito abaixo do que se verificou no Natal.

O facto de os níveis de vacinação ainda serem algo incipientes e estarmos longe da imunidade de grupo é outro fator que devia fazer prevalecer a cautela?
Apesar de a vacinação estar a avançar e existir maior proteção, especialmente nos mais idosos, o que já é bastante notório no número de óbitos, não estamos em condições de arriscar demasiado. Basta vermos o exemplo da Espanha, que após um período de acalmia voltou a ter um número muito elevado de doentes nos cuidados intensivos, com o crescimento da pandemia provocado pela variante inglesa. Deixo este alerta: mesmo com os idosos protegidos, não estamos a salvo de voltar a ter uma pressão hospitalar elevada. É natural que o número de fatalidades seja mais reduzido, mas os serviços hospitalares podem ficar sobrecarregados pela afluência. Por isso, a melhor prevenção é procurar manter uma incidência baixa, algo que se consegue monitorizando o R(t).

As variantes são o fator de maior incerteza e podem baralhar qualquer previsão?
A variante inglesa é a que está dominante no nosso país. A boa noticia é que as vacinas são eficazes para esta variante. Mas é preciso monitorizar outras variantes que circulam e, neste aspeto, creio que se justifica a manutenção de controlos fronteiriços e que ajudam a que o problema não se agrave. A prevalência da variante sul-africana é de 2,5 por cento, o que acarreta alguma vigilância. Estou em crer que no futuro a maior incerteza será mesmo o aparecimento de variantes para as quais as vacinas disponíveis possam não ter a eficácia desejada.

Na última reunião do Infarmed propôs o indicador da «incidência vizinha», de um concelho e dos seus concelhos limítrofes. A receita passa por monitorizar indicadores risco local, testar, isolar e vacinar?
Esse é um caminho que deve ser privilegiado nos próximos meses. O campo de ação fundamental passa por controlar a pandemia ao nível local e regional, prevenindo um eventual alastramento em termos nacionais. O indicador de «incidência vizinha» que propus não sobrevaloriza os pequenos surtos em pequenas localidades que não tenham um contexto de grande prevalência de casos em seu redor. Perante este indicador, um pequeno concelho com um surto médio não terá perigo de ter um risco máximo.

Mas o governo decidiu não seguir o seu conselho e foram vários os municípios que contestam os critérios seguidos pelo executivo…
Parecia-nos um indicador útil, na medida em que complementa a informação da incidência concelhia, mas o governo assim não entendeu.

Vários concelhos, que ficaram de fora da nova etapa, argumentam que o governo usa um critério de «régua e esquadro», injusto para os municípios mais pequenos. Concorda?
Nalguns casos concordo, noutros não. Creio que deve haver um critério que seja tão objetivo quanto possível, até por uma questão de uniformidade, mas que haja bom senso na definição final. Na linha do que tem sido seguido diria que o ideal seria aplicar medidas mais restritivas apenas quando houvesse simultaneamente incidência concelhia elevada de forma persistente e incidência elevada na vizinhança. Relativamente a ajustes de bom senso, fará sempre sentido ter em conta circunstâncias excecionais, para as quais a informação da unidade de saúde pública local pode ser decisiva.

A proibição de circulação entre concelhos também foi levantada. Justificava-se manter esta restrição durante mais esta fase de desconfinamento?
O governo tomou a sua legitima decisão, após as sucessivas auscultações que fez. Mas é evidente que existiu uma diferença entre o que foi apresentado e o que foi decidido. No caso concreto do levantamento da circulação entre concelhos, creio que é algo coerente com o nível atual de medidas.

Depois dos virologistas, os epidemiologistas e, mais recentemente, os matemáticos surgiram na linha da frente nos comentários e análise à evolução da pandemia. Qual o papel de um matemático e da matemática numa crise pandémica?
O papel do matemático é fornecer informação útil, tratada e modelada, para que quem decide possa tomar decisões. Normalmente, nas reuniões do Infarmed, marcam presença especialistas que ou são matemáticos ou colaboram com uma equipa de matemáticos, sendo que alguns deles possuem formação posterior em epidemiologia. É o caso dos professores Baltazar Nunes, Carla Nunes ou das equipas dos professores Manuel Carmo Gomes e Henrique Barros.

A matemática nunca foi muito popular e muitos alunos fugiam (e ainda fogem) dela como o diabo da cruz. Curiosamente, as matemáticas e os cursos de engenharia informática são os que têm uma empregabilidade quase total. Ter essa formação é determinante para uma carreira profissional segura e sólida?
Na FCUP, que conheço melhor, essa procura tem-se acentuado nos últimos anos. Temos um mestrado em engenharia matemática e, em muitos casos, os alunos são contratados ainda antes da conclusão do curso. Uma formação de base em matemática permite a adaptação a várias realidades e, sobretudo, ajuda a criar uma competência crítica para lidar com informação numérica, o que se revela útil em várias circunstâncias, seja no acompanhar da evolução da pandemia, seja numa seguradora, ou num banco.

Ouve-se, frequentemente dizer que os dados são o petróleo do século XXI…
O tratamento de dados é importante, apesar de esse não ser o propósito da matemática, mas a formação de base matemática ajuda muito na aquisição de competências a esse nível.

 

Cara da Notícia

Especialista em estatística e modelação matemática


Óscar Felgueiras tem 45 anos e nasceu no Porto. Licenciado em Matemática pela FCUP, partiu para os Estados Unidos onde concluiu o mestrado e o doutoramento em geometria algébrica pela Universidade do Michigan, em Detroit. É professor do departamento de matemática da FCUP, função que está atualmente em suspenso por se encontrar a assessorar, neste momento, o conselho diretivo da ARS Norte e o governo no âmbito do plano de desconfinamento. É presença regular nas reuniões do Infarmed. Membro do Centro de Matemática da Universidade do Porto, este especialista em estatística e modelação matemática tem também vindo a trabalhar na área das doenças infeciosas, nomeadamente no estudo estatístico de doenças como a tuberculose. A esse nível, destaca-se o trabalho que desenvolveu com Raquel Duarte, antiga secretária de Estado da Saúde e investigadora no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), em várias co-orientações de mestrados e doutoramentos.

Nuno Dias da Silva
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