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Entrevista Se nada se fizer, as pandemias vão ser mais frequentes e severas 23-10-2020

Tarde ou cedo, o mundo vai voltar a sofrer na pele outras pandemias e as responsabilidades devem ser partilhadas por políticos e cidadãos. Para Tiago Correia, investigador do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, caso exista vacina até final do ano é possível que na primavera de 2021 a situação possa ficar «relativamente regularizada», nomeadamente nas pessoas mais vulneráveis.

Tem dito, de forma repetida, que «as pandemias não se gerem, antecipam-se e evitam-se». Este era um acontecimento há muito anunciado, mas sem data marcada?

Eu diria mesmo que a data estava, mais ou menos, marcada. Era muito claro que iria acontecer. Não se sabia qual o agente infecioso, pensava-se que fosse um vírus “influenza” – ou seja, os que estiveram relacionados com a Gripe A. Mas de qualquer forma, estava descrito, ao pormenor, as características de uma epidemia de um vírus respiratório por transmissão animal que podia atingir uma escala global. E, desde já, antecipo que a próxima epidemia vai voltar a acontecer. Não é futurologia, até porque as causas estão muito bem identificadas.

A ciência tinha avisado, mas os políticos fizeram orelhas moucas. Como é que uma crise de saúde publica à escala global, que é uma ameaça à segurança nacional dos estados, pode ser negligenciada pelos líderes?

As responsabilidades devem ser partilhadas entre políticos e os cidadãos. Comecemos pelos primeiros: há uma visão política muito limitada e a gestão da “realpolitik” resume-se à espuma dos dias. Isso acontece em Portugal e também em muitos dos países do mundo, em que a política é uma gestão diária, sem qualquer preocupação de longo prazo ou princípios de sustentabilidade. Por outro lado, não quero ilibar os cidadãos de responsabilidades. Vivemos tempos, sem paralelo, em que a informação e a educação – que se diziam ser os pilares para sociedades melhores –  existem de forma abundante e, paradoxalmente, a mentira adquire um ritmo vertiginoso e parece que desaprendemos a filtrar e validar informação, não obstante estarmos mais escolarizados e atentos ao que nos rodeia e o conhecimento científico também estar mais disponível para os cidadãos. Provavelmente, faltará às pessoas um espírito mais crítico para validar informação e distinguir o que é bom e o que é mau.

As causas para estas epidemias radicam na forma como as pessoas se comportam?

As causas explicam-se pela forma como nós consumimos, o consumo de proteína animal, em concreto. É na Ásia onde se assiste à maior pressão populacional em termos do Planeta. Trata-se de um continente com padrões de consumo de proteína animal idênticos aos registados há cerca de 100 anos nos países ocidentalizados. Ou seja, existem mais pessoas e essas pessoas comem, em regra, as mesmas coisas: proteína animal.

A globalização foi o rastilho que fez alastrar este problema?

O processo de globalização aculturou os gostos e os hábitos alimentares, colocando grande pressão sobre a produção e a exploração da proteína animal. Para além disso, o mundo está segmentado em escalas de produção e são os países asiáticos – nomeadamente a China – que dominam esta produção. O que acontece é que nestes países nem sempre existe compromisso com a qualidade e a segurança das próprias explorações. Isto compõe o caldeirão perfeito para uma pandemia com estas características. Por isso, é impossível gerir uma pandemia. É como tentar parar um comboio a alta velocidade com as mãos.

O vírus é chinês, como simplificou Donald Trump, mas as culpas são globais?

O vírus é de todos nós, porque resulta da forma como nós vivemos e os próprios países e as geografias se relacionam. A diferença entre a crise pandémica e a crise de sustentabilidade que o planeta vive é que a primeira é mais imediata.  Todos os dias alimentamos um «monstro» e não sabemos como controlá-lo, porque não queremos mudar os estilos de vida e de consumo a que estamos habituados, porque os perspetivamos como um direito nosso e individual. Mas precisamos de educar as novas gerações para novas formas de consumo e outros modos de produção, ao mesmo tempo que devemos procurar tornar o consumo e a produção atualmente existentes mais sustentáveis. Sem esquecer, claro está, as regras sanitárias. Se nada se fizer, estas pandemias vão ser mais frequentes no tempo e provavelmente ainda mais severas. Há uma gritante falta de visão para a sustentabilidade dos políticos, dos países e das geografias, em que só se privilegia o imediato. E a questão alimentar tem os seguintes condimentos que a tornam dificilmente reversível: envolve hábitos, dinheiro e geopolítica. É muito difícil sem movimentações globais concertadas alterar esse estado de coisas. E o que vemos é o oposto: a fragmentação da coesão internacional.

Em agosto antecipou que o regresso às escolas e aos empregos seria problemático. O aumento progressivo do número de casos surpreendeu-o?

Os comportamentos estão a ficar muito polarizados e antevejo que se vão polarizar cada vez mais. Continua a existir alguma desconfiança e até desconsideração relativamente ao conhecimento científico. O vírus foi alvo de alguma descredibilização por parte dos políticos, mas não só por estes, mas inclusive por parte de alguma comunidade científica. E esses debates, aos olhos de todos, levou a que muitas pessoas tivessem relaxado os seus comportamentos. O grande problema deste vírus reside no facto de ele ser novo. É isto que exige que tenhamos todas as cautelas. A prudência é um conceito filosófico que se deve aplicar à política e à ciência. E ainda não sabemos, entre outras coisas, quais as implicações sistémicas da doença para as pessoas, nomeadamente ao nível do coração, rins e sistema neurológico. Mais do que as implicações ao nível da letalidade, é preciso perceber a longo prazo os danos que este vírus pode causar.

Qual é o risco de desdramatizar o impacto do vírus?

Descredibilizou-se o vírus, com o argumento que mata pouco – e, nem de propósito, Donald Trump reforça do ponto de vista político ainda mais essa imagem, o que é uma péssima mensagem. Este vírus não é melhor nem pior do que outras doenças crónicas. Coloco-as ao mesmo nível de importância.

No dia 15 de outubro, Portugal regressou ao estado de calamidade. O primeiro ministro continua a fazer apelo à responsabilização individual, mas opta pela via legislativa para tornar obrigatório o uso de máscara em espaço público com muita concentração de pessoas e a aplicação “Stayaway Covid”. Este não pode ser um inquietante sinal de que o governo, sem o reconhecer, admite que o controlo da situação lhe escapou das mãos?

Só o futuro dirá o resultado destas medidas. Para já, torna-se claro haver risco de inconstitucionalidade relativamente à “app” e à falta de explicação quanto à coerência da utilização indiscriminada de máscaras na rua quando as informações da DGS foram que os contágios ocorriam mais nos contactos familiares. Note-se que não recuso a utilização de máscara, mas nos contextos em que claramente isso faça sentido, e como medida geral não faz sentido. Em traços gerais, parece-me haver falta de proporcionalidade das medidas face ao risco e um certo desnorte quanto aos passos a dar. No fundo, não percebo até que ponto a situação escapou das mãos do governo – porque têm mais e melhores dados do que nós – ou se a opção política foi mesmo esperar pelo agravar da situação para tomar decisões mais duras. Caso tenha sido uma opção de estratégia política estou contra. A eficácia das respostas da saúde pública reside na antecipação dos problemas, não na tentativa de minimizar danos depois dos problemas estarem instalados.

A responsabilização individual é uma forma de passar culpas por parte dos políticos para as pessoas?

A resposta política perante o medo, as dúvidas e a falta de experiência política não pode ser simplesmente a responsabilização individual. As pessoas devem cumprir as regras básicas definidas pela autoridade sanitária, mas parece que nos esquecemos que vivemos numa sociedade assente em desigualdades sociais. Quem investiga e quem intervém politicamente neste setor, conhece perfeitamente as determinantes da saúde, sendo a literacia uma delas. E sabemos que as pessoas não têm todas a mesma capacidade para processar e compreender a informação. Ou seja, a escolaridade e a profissão dos cidadãos condiciona os comportamentos. Da mesma forma que uma pessoa que tem de se expor a mais riscos – por não ter viatura própria, precisa de usar os transportes públicos – para se deslocar para o emprego, porque o seu trabalho simplesmente não pode ser feito de modo remoto. Em suma, antes de responsabilizarmos as pessoas temos de garantir que existem todas as ferramentas estruturais que mitiguem essas desigualdades sociais e as determinantes na saúde. E não estou a ver uma ação concertada a esse nível. E se existe, os sinais são muito erráticos e pouco consistentes.

O concerto no Campo Pequeno e a festa do «Avante» fizeram correr muita tinta. Enquanto isso, o futebol continua sem ter presença de público autorizada. Estes sinais contraditórios são compreensíveis ou concorda com a DGS quando diz que o «futebol é um jogo mais emotivo»?

O problema do futebol não é no estádio, é fora do estádio. O antes e depois do jogo. E em especial com os três ou quatro clubes com dimensão nacional, o que também implica a deslocação de pessoas de diferentes locais para acompanhar as suas equipas. E a participação das claques organizadas também é outro problema. Pensando no caso de Lisboa, há um centro comercial em frente ao estádio da Luz que enche sempre em dia de jogo. A própria deslocação no Metro para o estádio é outra situação que causa natural apreensão às autoridades e que ajuda a explicar a resistência a abrir os estádios a espetadores. Admito que os clubes mais pequenos, que são a maioria, acabem por levar por tabela, se me permite a expressão, mas é difícil criar uma regra que seja comum.

Mas não acha que houve, aquando da retoma dos campeonatos, a possibilidade de ter autorizado alguns espetadores nos estádios?

A presença limitada de público nos estádios devia ter sido autorizada em julho e agosto, quando os casos de contágio estavam estabilizados. Nunca agora, quando já estamos a braços com uma situação de aumento contínuo de casos. Isto é mais uma prova que tem havido dificuldade, em algum momento, em tomar as decisões no tempo certo. Mas quanto à questão dos concertos, não considero de todo que seja contraditória. Acho que foi uma mensagem politicamente importante e que traduziu que mesmo em tempos excecionais, é possível manter algumas rotinas. Eu digo: não podemos ficar reféns do vírus, mas ao dizer isto não estou a desconsiderar a doença, como alguns insistem em fazer.

Defendeu uma espécie de semáforo epidemiológico por freguesia com medidas adaptadas ao risco de contágio. É uma espécie de confinamento local e seletivo?

Não. As medidas são pontuais e proporcionais. Basicamente é definir a uma escala mais próxima das pessoas, com maiores ou menores graus de permissão. Um indicador compósito que conseguisse estabelecer as várias escalas de riscos e que se traduzisse, por exemplo, em três cores, como as que existem num semáforo. E isso podia ajudar a melhorar as decisões, a nível local, em função do maior ou menor risco. Na minha leitura, a definição de risco epidemiológico não é o número de casos. Desde março que digo isto. Na primeira fase os mortos e os internamentos eram os indicadores mais importantes. Na fase atual são os aumentos semanais do número de casos, os tais picos. Identificar e delimitar as correias de transmissão é, por isso, essencial, e bem mais relevante do que o aumento de casos.

Concorda, como outros especialistas têm referido, que até à primavera de 2021 a situação pandémica não se irá alterar muito?

Penso que sim. Uma ou duas vacinas, que estão agora na fase 3, podem começar a ser produzidas e distribuídas, eventualmente, em dezembro. Mas o processo de vacinação irá demorar uns meses. Se tudo correr bem, tenho a minha janela temporal apontada para março como o mês em que a situação possa estar relativamente regularizada. Insisto no relativamente. A doença vai continuar a existir, a vacina permitirá que as pessoas mais frágeis estejam mais protegidas e a mortalidade será substancialmente reduzida.

A vacina da Covid-19 deve ser obrigatória?

Se eu fosse decisor político nunca colocaria a questão ao nível da obrigatoriedade da vacina, mas sim na eficácia da comunicação e na pedagogia. É sabido que temos uma excelente taxa de cobertura de vacinação porque as pessoas confiam. Agora a questão principal reside em termos da eficácia da comunicação das autoridades sobre a importância da vacinação das pessoas.

Será o cabo dos trabalhos quando a Covid-19 se cruzar com a gripe sazonal?

Para já, temos um excelente indicador do que aconteceu no hemisfério sul. O que se constata é que as medidas de prevenção individual não conseguiram conter a Covid-19, mas contiveram as outras infeções respiratórias. Vamos ver o que acontece por cá, ou seja, no hemisfério norte. Acho que se cumprirmos as regras podemos evitar uma situação ainda mais difícil de gerir.
Dispomos de um documento político orientador para o outono/inverno feito pela DGS, mas não tenho a certeza que seja implementável. Está muito bem desenhado, mas temo que não tenhamos a capacidade de o implementar se a situação se descontrolar. Preocupa-me a capacidade instalada dos nossos recursos humanos, por exemplo, para dar resposta às solicitações. Confesso que estou preocupado com os nossos profissionais de saúde.

Fez o seu doutoramento há 9 anos em contexto hospitalar, onde passou milhares de horas em investigação. Qual é a principal fragilidade do sistema?

Há várias, mas a falta de planeamento estratégico sobre os nossos recursos humanos é, porventura, a mais importante. Estou a falar de políticas de motivação, retenção e premiação, por exemplo. O problema não é só contratar mais médicos e enfermeiros, é muito mais complicado. E, para além disto, temos um elevado absentismo na nossa força de trabalho no SNS. São problemas que se arrastam há décadas e que se tarda em conseguir intervir nesta área.

A falta de dinheiro é sobrevalorizada?

Falta dinheiro, mas não é apenas por falta de dinheiro que os problemas que atrás referi persistem. Há também problemas ao nível da decisão e coragem política. Eu creio francamente que se podia fazer diferente com o dinheiro que temos disponível. Mas para isso é preciso introduzir reformas.

Como é que a comunidade escolar se está a adaptar às primeiras semanas de atividade?

É preciso realçar que há diversos tipos de ensino. A situação é relativamente fácil de lidar no ensino universitário. É o que menos me preocupa. Já acho que a situação é difícil de gerir no pré-escolar, 1.º ciclo e talvez 2.º ciclo. Porquê? Porque são crianças e precisam de ser crianças. Elas também não podem estar reféns deste vírus. O afastamento físico e o medo que lhes é transmitido está a preocupar a comunidade escolar. O que sabemos até à data é que o vírus não tem afetado muito as crianças. Penso que, com base nessa evidência e no tal princípio da prudência, as crianças precisam de ter as suas liberdades e espaço de autonomia, dentro de constrangimentos. Mas custa-me muito ouvir falar em máscaras para crianças com menos de 10 anos ou crianças impedidas de brincar com os seus pares. Deve haver cuidado, medidas adaptadas à faixa etária e a devida proporcionalidade, mantendo rotinas de aprendizagem, lúdicas e de interação, dentro do atual contexto.

Para concluir e olhando para o futuro: esta espécie de curso apressado e básico de saúde publica que temos recebido nos últimos meses vai deixar sementes para o futuro?

Se me fizesse essa pergunta há dois meses, seria perentório: não. Quando as rotinas regressam, a minha expetativa é que voltemos atrás. Contudo, se conseguirmos ter resultados positivos na redução da mortalidade por outros vírus respiratórios sazonais, como é o caso da gripe, estou em crer que poderá haver uma janela de oportunidade para que em futuras estações do outono e do inverno mais pessoas – especialmente as mais vulneráveis – passem a andar com máscara. Aquelas imagens que apenas víamos na Ásia, podem passar a repetir-se também no ocidente. Já quanto aos outros temas, como a consciência para a sustentabilidade, pensar a longo prazo e apostar numa política de recursos humanos na saúde, só para citar alguns, confesso que não tenho ilusões. As coisas não mudam. Basta olhar para trás.

 

CARA DA NOTÍCIA

Professor, investigador e comunicador de ciência

Tiago Correia é doutorado em Sociologia (2011), especializado em saúde e professor associado de saúde internacional na Unidade de Saúde Pública Internacional e Bioestatística do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) da Universidade Nova de Lisboa. É Investigador sénior no Global Health and Tropical Medicine, ambos pertencentes ao IHMT-UNL. O seu percurso académico inclui posições de docência e investigação noutras universidades portuguesas (ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa e Escola Superior de Saúde Egas Moniz) e canadianas (Université de Montreal e McGill University). É editor-chefe do International Journal of Health Planning and Management (publicado pela John Wiley & Sons Inc.) Contribui para a comunicação de ciência através da participação em órgãos de comunicação social televisiva e imprensa escrita, tendo tido grande realce nos últimos tempos na abordagem ao impacto da pandemia.

Nuno Dias da Silva
Universidade Nova de Lisboa
 
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