Obra Poética (Assírio & Alvim), de António Ramos Rosa (1924-2013), terceiro volume da obra completa, com organização de Luís Manuel Gaspar e posfácio de Rosa Maria Martelo, colige as publicações entre 1997 e 2013, da “poética profundamente ancorada na imanência” através de “uma energia vital” consubstanciada no grande sol interior: “Uma ténue corola solar oscila sobre a página Ela sugere-nos tudo /o que não sabemos”.
No Castelo do Barba Azul (Relógio d´Água), de George Steiner (1929-2020), reúne “quatro palestras impressionantes sobre a cultura dos tempos recentes”, proferidas em 1971 na Universidade de Kent, demonstrando que o grande humanista já nessa data entrevia o estados lastimoso e o possível destino da grande cultura, sinal do declínio da civilização greco-judaica de que somos herdeiros.
Contos do Chá (Tinta-da-china), com organização e introdução de Alberto Manguel, deliciosa e aromática reunião de histórias que têm o chá como principal ingrediente, dando a conhecer contos de Agatha Christie, Katherine Mansfield, Tchékov, Le Fanu, e muitos outros, com sabor policiário e fantasmagórico, incluindo histórias orientais, num “bouquet” que fará as delicias dos apreciadores da “bebida dourada”, que os ingleses, com o habitual mau-gosto, estragam com leite.
Uma Breve História do Japão (Casa das Letras), de Christopher Harding, resume de forma sucinta a história do arquipélago nipónico desde a pré-história à actualidade, com especial ênfase na vida política e cultural, artes, letras, teatro e religião, em diversas épocas e a progressiva transformação em potência mundial, sem deixar que a tradição japonesa deixe de se afirmar como um modo de vida original.
Um Punhado de Flechas (D. Quixote), de María Gainza, autora do aplaudido “Nervo Óptico” (na mesma editora), “rompe com os géneros literários, numa mescla de narrativa, ensaio e livro de arte”, partindo de uma observação de Coppola, que conheceu em Buenos Aires, reflectindo sobre Cézanne, Thoreau, filmes, artes e uma pintura desaparecida de Ticiano, numa soberba viagem de erudição e bom gosto.
Enigmas da História de Arte (Arte Plural), de Susie Hodge e Gareth Moore, propõe desvendar os segredos de trinta seis icónicas obras de arte, desde Bottecelli a Picasoo, começando pelo Egipto Antigo a Escher ou Frida Kahlo, em jeito de questionário, com introdução e respostas condizentes com os enigmas propostos pelos autores, para desafiar os amantes das belas-artes.
Polo Norte (Quetzal), de Erling Kagge, explorador norueguês, autor de “Silêncio na era do Ruído” (na mesma editora), que esteve nos três cumes do planeta, Norte, por duas vezes, Sul e Everest, relata nesta “História de uma obsessão”, tudo o que se sabe e imaginou sobre o umbigo do mundo, esse não-lugar coberto de gelo, onde culmina imaginação do desejo humano pelo desconhecido, numa viagem literária pelos mitos e histórias, num livro absolutamente fabuloso.
Terra Desolada (Clube do Autor), de Robert D. Kaplan, autor de “A vingança da geografia” (na mesma editora),brilhante ensaio sobre “o declínio da ordem internacional e os desafios do futuro”, tomando emprestado a T.S.Eliot o título, mas também a Spengler, Mathus, Orwell, Canetti e outros, num acervo de temas com que costura a ideia de que o mundo não tem emenda, com impérios em disputa, crise ambiental, tecnológica e populacional em pano de fundo, num lento deslizar para a aniquilação.
A legião estrangeira (Companhia das Letras), de Clarice Lispector (1920-1977), é a melhor introdução à obra da escritora brasileira, nascida na Ucrânia, e a autora de uma escrita ímpar, reunindo contos, crónica e ensaios dispersos, aqui publicados em primeira vez ente nós, atestando a variedade dos temas e o alcance de uma escrita que mergulha no enigma e o espanto de estar vivo.”Se eu tivesse que dar um título à minha vida seria: à procura da própria coisa”. Ou seja: “Ter nascido me estragou a saúde”.
Imaginação (Bertrand), de Francisco Louçã, com o subtítulo “Cores, deuses, viagens e amores”, ensaio multifacetado, sob o signo de Gauguin, que viaja pela pintura, literatura, religião e sexualidade, para dar corpo à imaginação, como a mais alta qualidade capaz de redimir o humano, elevando-o à condição de ser pensante, sensitivo e agente da vida, na sua plenitude livre e integral.
Simplicissimus (E-Primatur), de Hans Jakob von Grimmelshausen (1621-1676), publicado em 1668, “é considerado o primeiro grande romance da literatura alemã e uma obra-prima do barroco europeu”, onde se narram as desventuras de um jovem ingénuo atirado para o caldeirão do mundo em que grassa a guerra dos trinta anos, transformando-o num homem astucioso e capaz de sobreviver no mais desgraçado dos tempos, com ironia e esperança.
Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico