Física Espiritual (Assírio & Alvim), de Rui Lage (n.1975, Porto), com posfácio de Arnaldo Saraiva, é uma “antologia pessoal” de versos retirados dos livros publicados entre 2002 e 2022, a que se juntam dispersos vários, numa mostra representativa do estro do poeta, num registo que vai do bucólico ao elegíaco, e deste ao profundo sideral, numa ampla gama de tonalidades, colhidas em várias latitudes e épocas, a que não falta a melancolia do humor. “O nosso fado é o firmamento”.
Conversas sobre Deus (Relógio d´Água), de Byung-Chul Han (n. 1959, Seul), com o subtítulo, “Um diálogo com Simone Weil” (1909-1943), afirmando o pensador coreano: ”introduziu-se em mim. Instalou-se na minha alma”; e por isso dedica-lhe uma leitura intensa, onde a filosofia ocidental se caldeia com a oriental, através da “atenção contemplativa”, do silêncio, do vazio, da beleza e da inactividade, para realçar o quanto o mundo actual se afastou do sagrado divino,
Susan Sontag (Quetzal), de Jonathan Cott, com o subtítulo, “A entrevista completa da Rolling Stone”, aqui na íntegra, é uma longa conversa entre o jornalista e a escritora, que viveu entre 1933 e 2004, realizada em Paris e NovaYork, e publicada parcialmente em 1979, que serve de biografia pessoal e literária de uma das mais importantes figuras de intelectual do século XX americano, sobre os temas que fizeram dela uma figura do pensamento contemporâneo.
O Gene da Dúvida (E-Primatur), de Nikos Panayotopoulos (n. 1963, Atenas), romance que põe em causa verdades estabelecidas sobre o génio nas artes, por via de um teste de ADN que prova se há ou não talento, provocando uma crise editorial em pleno século XXI, desmascarada pela publicação de “Retrato do Artista Quando Moribundo”, da autoria de James Wright, escrito no leito de morte, e publicado postumamente.
Camões Poeta, Herói n´Os Lusiadas (Tinta-da-china), de Helena Carvalhão Buescu, “ensaio sobre o desconcerto do mundo que percorre a grande epopeia”, pondo em relevo o papel do poeta como figura central da mesma, seguindo o conceito de “negative capability” de John Keats, assinalando “incertezas, mistérios e dúvidas” que o génio de Camões soube emprestar a toda a sua obra.
Delírio e Sonhos na Gradiva de Jensen (Gradiva), de Sigmund Freud (1856-1939), estudo da novela “Gradiva”, de Wilhelm Jensen (1837-1911), cujo protagonista, um jovem arqueólogo, se deixa enfeitiçar por uma baixo-relevo da Roma Antiga, numa história de um delírio, ou fantasia, permitindo a Freud escrever páginas de alto valor literário sobre o caso, do recalcamento à posterior catarse, e resolução.
Autobiografia (ASA), de Agatha Christie (1890-1976), da celebrada “rainha do crime”, que relata neste livro, que se lê como um romance, a sua vida extravagante, casamentos e desaparecimentos, viagens e explorações arqueológicas, da infância às duas guerras mundiais, revelando alguma coisa mais, da lendária autora do século XX, criadora de figuras imortais como Poirot os Miss Marple.
O Pátio Maldito (Cavalo de Ferro), de Ivo Andric (1892-1975), escritor bósnio, Prémio Nobel em 1961, alcançou com esta novela o seu apogeu literário, onde se viaja até Istambul, pela voz do frade Petar, contando as histórias que escutou numa infame prisão da cidade, gerida por uma não menos notável quanto cruel personagem, que atormenta um jovem louco que se julga um sultão desparecido.
Cânone de Câmara Escura (D. Quixote), de Enrique Vila-Matas (n. 1948, Barcelona), romance espectral, que apresenta um andróide que se humanizou, depois de ter sido secretário de um conhecido escritor, seu mentor, que lhe lega a biblioteca, da qual ele vai retirando fragmentos e citações dos livros encerrados num quarto escuro, para constituir um cânone intempestivo e delirante, numa viagem pelo mundo da literatura, num autêntico “tour-de-force” do autor da “História Abreviada da Literatura Portátil”.
O Sábio Árabe (Shantarin), Fernando Pessoa, com o subtítulo, “Escritos sobre a civilização arábico-islâmica”, edição de Fabrizio Boscaglia e prólogo de Adalberto Alves, antologia de textos do poeta, que documentam o seu interesse pelo tema, ao dizer que “não há profundo movimento português que não seja um movimento árabe, porque a alma árabe é o fundo da alma portuguesa”, fundamentada na herança do al-Andalus.
A Cortina (D. Quixote), de Milan Kundera (1929 -2023), “Ensaio em sete partes”, onde o escritor checo viaja, ao seu modo sempre inteligente, pelos caminhos da literatura, descerrando a cortina das “interpretações pré-concebidas, das imagens falaciosas, de representações enganadoras” que só a literatura pode revelar, ou ”o romance como utopia de um mundo que não conhece o esquecimento”.
Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico