Este website utiliza cookies que facilitam a navegação, o registo e a recolha de dados estatísticos.
A informação armazenada nos cookies é utilizada exclusivamente pelo nosso website. Ao navegar com os cookies ativos consente a sua utilização.

Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXV

Opinião Livros & Leituras

12-04-2022

Os afrikanders, população branca, de origem holandesa e alemã, habitam desde o século XVIII no que é hoje a África do Sul. São uma tribo particular, que se guerreou com os naturais africanos e com os colonos ingleses, que os derrotaram. A política do apartheid foi aplicada para os manter separados dos restantes, baseando-se em preceitos puritanos e de casta. A Promessa (Relógio d´Água), de Damon Galgut, vencedor do Booker Prize de 2021, é um romance que encena as vicissitudes e preconceitos desta tribo, aqui representada pela família Swart, que se dispersa depois da morte da matriarca. O livro acompanha, ao longo dos anos, as mudanças que entretanto sucederam naquele país, depois do fim do regime segregacionista. Amor, a filha mas nova de três irmãos, é a sobrevivente destinada a recompor alguma justiça devida a Salome, a empregada africana, testemunha muda da vida de todos eles. Na esteira de J.M.Coetze e Nadine Gordimer, um relato dramático das vidas de um tempo dilacerado.

Vidas Seguintes (Cavalo de Ferro), de Abdulrazak Gurnah, Prémio Nobel da Literatura em 2021, nascido em Zanzibar em 1948. Esta narrativa decorre, na África Oriental alemã, nos anos anteriores ao começo da Primeira Grande Guerra. Sob este pano de fundo seguimos as vidas de um grupo de personagens entregues a uma fatalidade que se bifurca entre a submissão ao colonizador alemão e a revolta interiorizada. Uma história de amor, uma vida extraordinária, que termina na Alemanha décadas depois, unindo africanos e europeus a um desfecho trágico, longe das savanas, ou como as mais estranhas contradições comandam os destinos dos humanos.

Ulisses (Livros do Brasil), de James Joyce, com tradução de João Palma-Ferreira, do qual se comemora este ano o centenário da sua publicação, é um romance que abalou as fundações do género, e que continua a ser um imenso continente por descobrir. Relato de uma único dia, 16 de Junho de 1904, da vida de Leopold Bloom, um vulgar cidadão de Dublin, “acabou por transformar-se num intento quase ciclópico”, onde se congregam a História, a política e a Arte, num registo que ficou conhecido com corrente de consciência, ou monólogo interior. Uma obra monumental que ecoa obras icónicas do passado, desde Homero a Dante, entre muitos outros, línguas e idiomas, estilos e modos de dizer, em clave paródica e erudita.

A Mais Breve História da Rússia (D.Quixote), de José Milhazes, é um excelente resumo da construção histórica de um povo e de uma cultura que é charneira entre os continentes europeu e asiático. O autor, com a sua experiência in loco, descreve de um modo muito interessante e informado os meandros de uma longa história, plena de acontecimentos, do distante passado à actualidade, a que não é estranha uma certa concepão messiânica da religião ortodoxa, fornecendo um vasto panorama do que convencionou chamar alma russa, uma construção mitificada e desfasada da realidade.

Gulag, uma história (Bertrand), de Anne Apllebaum, é uma obra monumental sobre os campos de trabalho soviéticos, que desde os anos vinte do século passado, forneceram trabalho escravo nos locais remotos para onde eram enviados os opositores do regime. Não se sabe ao certo quantos milhões de pessoas sofreram e morreram nesses campos, que formaram um verdadeiro arquipélago de dor e morte. Baseado em testemunhos directos e documentos, eis o retrato de uma política repressiva que figura nos anais como um dos empreendimentos mais criminosos, cruéis e desumanos da História recente.

Podia ter sido pior (D.Quixote), de José Cutileiro, reúne os escritos de 1953 a 2020, do embaixador, formado em antropologia, com provas dadas com a publicação do estudo pioneiro “Ricos e Pobres no Alentejo”, estudioso das relações internacionais e, sobretudo, cronista, que se destacou com os célebres “Bilhetes de Colares”, sob o nome de A.B. Kotter. Mas foi acima de tudo um observador fino, inteligente e sagaz da vida nacional e internacional. Um livro que é um regalo, escrito em português de lei.

José Guardado Moreira
 
Voltar