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Opinião Livros & Leituras

06-09-2022

Outra Vida para Viver (Quetzal), de Theodor Kallifatides, autor grego que em novo emigrou para a Suécia, onde se tornou escritor e tradutor, escrevendo em sueco. Ao cabo de meio século, reformado, faz uma viagem ao país natal, e recomeça a escrever em grego. Autobiografia emocional e poética, este livro impressivo conta-nos uma vida vivida no exílio, sem deixar de contemplar os problemas que ambas as sociedades enfrentam nos dias de hoje. Uma memória da descoberta íntima do significado da vida, e que nos dá um retrato do carácter de alguém que vive entre duas culturas e reflecte sobre esse destino invulgar.

Estranha Profecia e Outros Textos (E-Primatur), de Heinrich von Kleist (1777 – 1811), reúne artigos diversos publicadas pelo autor num dos primeiros jornais de Berlim, novidade para a época. O vespertino incluía notícias policiais, episódios e acontecimentos quotidianos, mas sobretudo histórias, desde pequena anedotas de cariz humorístico até textos relevantes como “Verdades Improváveis” ou “Sobre o Teatro de Marionetas” . O posfácio do tradutor informa o que há a saber sobre esta produção literária e as suas circunstâncias, alcance e significado. Uma antologia que revela um escritor maior que deixou uma marca indelével nas letras alemãs.

O Regresso dos Andorinhões (D.Quixote), de Fernando Aramburu, autor do celebrado “Pátria” (na mesma editora), convoca neste romance as angústias existenciais de um professor de filosofia, que em ruptura consigo e o mundo, decide eutanasiar-se, escolhendo uma data precisa. Durante o ano que tem à frente vai pondo em ordem os assuntos da sua existência algo caótica. No entanto, a vida, imprevisível como sempre, tem outros planos, e o que acontece no final é um novo começo. Num contexto actual, esta história não ilude as circunstâncias sociais e políticas da sociedade espanhola, antes fornece uma trama onde estas se espelham. A amizade e o amor são mais fortes que qualquer desesperança.

Almas Mortas (Relógio d´Água), de Nicolai Gógol (1809 – 1852 ), nascido ucraniano mas que escreveu em russo, é a sua obra maior, um romance onde o riso explode como uma flor amarga. O protagonista, com o seu esquema de compra de “almas mortas”, expõe, nesta comédia negra e hilariante, todos os malefícios que enfermavam o reinado czarista: a vilania, a prepotência e a corrupção das classes dirigentes, aristocratas e burgueses, militares e funcionários, e a miséria a que submetiam os servos camponeses, sujeitos aos piores tratos e crueldades. O cardápio de personagens é inesquecível, bem como o modo como este retrato não se desvaneceu no tempo. Uma das obras-primas da literatura do século XIX.

O Último Verão em Roma (Clube do Autor), de Gainfranco Calligarich é um livro vertiginoso que retrata uma certa época romana, em que a cidade assume o lugar de todos os desenganos que encarnam “a anomia existencial” dos seus protagonistas, um jovem jornalista e uma beldade neurótica. O livro teve um sucesso relativo em 1973, despareceu do radar, foi repescado, mas só à terceira edição se tornou um êxito, tornando-se um dos livros emblemáticos de uma certa ideia romântica que tantos antepassados ilustres contemplam. Com todo o mérito é considerado um clássico da literatura italiana contemporânea.

O Código Katharina (D. Quixote), de Jorn Lier Horst, com o inspector-chefe William Wisting como protagonista, leva-nos ao universo do policial nórdico que tem sido voga em anos recentes. Desta feito, um caso arquivado intriga a polícia, que tudo faz para o resolver com um árduo trabalho de investigação. Um bom e sólido policial sem mácula.

A Porta da Europa (Ideias de Ler), de Serhii Plokhy abrange dois mil anos, desde a Grécia Antiga aos nossos dias, da história dos territórios que constituem hoje a nação ucraniana, tantas vezes repartida e conquistada por impérios desaparecidos. No entanto, a cultura e o povo da Ucrânia persistem em afirmar o seu legado e, sobretudo, o seu futuro europeu. Um livro indispensável para compreender o presente.

Fome Vermelha(Bertrand), de Anne Applebaum é o mais completo relato dos terríveis anos de 1932-33 que mataram quatro milhões de ucranianos, depois de Estaline ter decidido eliminar à fome uma nação inteira, com as deportações e a colectivização forçada. Os horrores desse tempo foram ocultados durante décadas, mas hoje é possível reconstituir esse crime gigantesco que ecoa agora sob os mísseis russos, numa espécie de regresso macabro da morte e destruição. Um testemunho imprescindível.

Escrítica Pop (Bertrand), de Miguel Esteves Cardoso, reúne num só volume o livro que lhe dá título, e ainda “O Ovo e Novo”, crónicas sobre música, que são uma bíblia pessoal, um almanaque musical e um mapa de garimpeiro colhendo pepitas na enxurrada de pechisbeque sonoro que foram os anos 70 e 80 do século passado. A prosa não perdeu um grama de frescura e é um regalo para o leitor de bom português, mesmo que não seja fã da música pop.

José Guardado Moreira
 
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