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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXV

Opinião Livros & Leituras

11-05-2022

A passagem do tempo histórico introduz na lupa do entendimento uns vislumbres do significado de certos acontecimentos. Acompanhando as convulsões do início do século passado, com a queda da ordem vigente ao som dos canhões, houve no meio artístico igual batalha de destruição dos velhos cânones, sucedendo-se movimentos, do Futurismo ao Dadaísmo, todos eles encarniçados em apregoar loas a um futuro radioso, mecânico e iconoclasta. Faz agora cem anos que o movimento Surrealista se manifestou, apregoando as virtudes do automatismo do subconsciente, libertando-se das peias de um intelecto calcificado e inerte. Por essa altura, C.G.Jung teorizou e analisou em profundidade os abismos do que chamou inconsciente colectivo, repositório da experiência do psiquismo da espécie humana e da memória planetar. Os mergulhadores das profundezas deixaram tanto na poesia como na pintura registos dessa aventura. Duas reedições muito a propósito: Poesia (Assírio & Alvim), de António Maria Lisboa (1928 – 1953), o mais emblemático e genuíno dos poetas surrealistas portugueses, e Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial (Documenta), de Mário Cesariny, valioso repositório da sua repercussão e alcance internacionais.

Figuras do Mito (Tinta-da-china), de Mafalda Viana, helenista, apresenta-nos as figuras da mitologia da Antiguidade Clássica greco-latina, cujas sombras ainda se projectam neste tempo agónico. Baseando num ciclo de conferências, e seguindo o fio de Ariadne e as aventuras de Ulisses, que Homero plasmou em verso, ou ainda Édipo, Prometeu e o gigante Adamastor, vemos como na poesia e nas artes, coevas e antigas, se modelou a nossa civilização, feita de claros e escuros, mas firmemente assente no questionamento das grandes forças invisíveis que dão forma à cultura que nos respira, sem que disso demos conta. Um livro que é uma viagem pelas paisagens e poéticas do mito.

O Silvo do Arqueiro (Bertrand) de Irene Vallejo (Saragoça, 1979), autora do celebrado O Infinito num Junco (na mesma editora), conta-nos neste livro a história da feitura da Eneida, de Vergílio, a várias vozes. Eros, o arqueiro, instiga os amores entre o troiano e a rainha de Cartago, enquanto o poeta romano se debate com as angústias de satisfazer Augusto com uma epopeia que celebre a fundação de Roma, essa nova Tróia, que vai vindicar a derrota às mãos dos pérfidos gregos. As aventuras que levaram Eneias às costas africanas são acompanhadas pela presença do deus do amor, fascinado pelos humanos e as suas paixões e desejos. Numa toada poética e evocativa, estas páginas erguem-se acima dos cometimentos humanos, para deixar na espuma do mar e nas areias do deserto, sulcos do sonho que se torna verso e lembrança, que o tempo esculpiu na matéria da lenda.

O Delírio Nazi (Casa das Letras), de Heather Pringle, ou como um grupo de académicos alemães, e não só, aliciados por Himmler, um psicopata obcecado pelos mitos da origem dos povos germânicos, deram cobertura “cientista” aos horrores do Holocausto. A autora investigou a fundo as premissas destes “cientistas” que, a coberto de teorias delirantes sobre as “raças” e fabricando mitos sobre os supostos “arianos”, pretenderam dar-lhes um cunho científico. O resultado foi serem cúmplices directos da morte de milhões de pessoas nos campos de extermínio. Um retrato da pseudo-ciência que deu cobertura aos mais horrendos crimes.

Comboios Rigorosamente Vigiados (Antígona), de Bohmil Hrabal (1914 – 1997), um dos maiores escritores checos de sempre, encena nesta deliciosa novela satírica, o que foram os anos da ocupação alemão do seu país. A paisagem humana do livro é uma extraordinária constatação do poder de resistência perante situações trágicas e adversas. O poder do riso constitui por si só um perfeito antídoto perante o absurdo da guerra. Sobre aqueles miseráveis alemães, que tudo tinham destruído, só havia uma coisa a dizer: “ Não deviam ter tirado o cú de casa…”.

José Guardado Moreira
 
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