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Opinião Livros & Leituras

22-11-2021

As lendas que a História regista são mais reais que os relatos dos cronistas. Tal é o caso de Rodrigo Díaz de Vivar, cujo cognome ressoa pelos séculos como El Cid, o Campeador. Sidi (ASA), de Arturo Pérez Reverte, é uma leitura muito pessoal e empolgante de alguns episódios que deram forma à fama de herói destemido e impoluto. Desterrado pelo rei de Castela, e seguido por alguns cavaleiros que lhe são incondicionais, o nosso homem vai dedicar-se a combater por quem lhe pague melhor maquia pelo bom uso do seu génio na arte da guerra. Os fados levam-no a lutar contra uma trupe de sarracenos que tinham chegado longe de mais no saque e na destruição. Depois oferece os seus serviços ao conde de Barcelona, mas é escorraçado com injúrias. Segue-se o seu trato com o rei mouro de Saragoça, que está desavindo como o rei mouro de Lérida, aliado do conde barcelonês. O carácter de chefe guerreiro sobressai destas batalhas, num tempo em que a Península está dividida entre reinos cristãos, a norte, e mouriscos, a sul. Sidi, o senhor, é o nome por que conhecido entre as tropas de ambos os lados. E o destino reservou-lhe ainda maiores feitos até viver para sempre nos versos dos trovadores.
Olá, América (Elsinore), de J. G. Ballard (1930 – 2009), leva-nos a um continente devastado pelas alterações climáticas e escassez energética, e que está praticamente despovoado, depois do êxodo dos americanos para a Europa. Uma expedição foi enviada um século depois para aquilatar do estado das coisas, mas despareceu sem dar notícia. É feita uma nova tentativa, tendo o navio “Apollo” chegado a uma Nova York submersa pela areia. O que se segue é o relato da viagem de um pequeno grupo em direcção ao Oeste, depois de uma travessia atribulada pelo grande continente, transformado num gigantesco Sahara. Ballard é um mestre no desenho de atmosferas apocalípticas e de futuros distópicos, a um tempo mordaz e irónico. Esta América destroçada comporta, ainda assim, um módico de esperança, apesar do pesadelo em que transformou o mirífico “sonho americano”.
Para quê Tudo Isto?,(Contraponto), de Álvaro Magalhães é uma biografia literária de Manuel António Pina (Sabugal, 1943 – Porto, 2012).
É um livro raro por muitos motivos, o primeiro dos quais é ter sido escrito com amor, e com uma empatia superlativa pela obra do escritor. Pina, como era conhecido pelos amigos, era um homem que brincava com as palavras como se fossem seixos pescados no regato da vida, dispondo-as num vasto tabuleiro, de forma lúdica, para descobrir as suas infinitas facetas poliédricas. Jornalista, cronista, poeta, dramaturgo, criador de um novo modo de escrever para todas as idades, o amigo de sempre, o companheiro de tertúlia, tudo transparece nestas páginas que desvendam um pouco do mistério de um (des)fazedor de histórias, que nunca perdeu o espanto de estar vivo e fazer disso um ofício de permanente interrogação, partilhando com os leitores, espectadores ou simples ouvintes as mais inesperadas descobertas, escondidas na sombra das palavras lançadas ao vento da respiração.
Encontros com Livros e Viagens (ambos na Relógio d´Água), de Stefan Zweig (1881 – 1942), o escritor austríaco que na primeira metade do século XX encarnou a figura de europeu por excelência, reúnem dois aspectos da sua variada e bem sucedida obra literária, que se estende da novela e o teatro ao ensaio, sem esquecer a biografia. Filho de uma época que prenuncia finais e perigos, acabou por exilar-se aquando da ascensão do nazismo. Numa carta a Roman Rolland temia o pior. “Não vejo qualquer saída para este lamaçal”. No primeiro destes livros damos entrada no universo de algumas das sua preferências, com ensaios e prefácios escritos entre 1902 e 1939, com destaque para Goethe e os seus poemas; depois, uma leitura de Freud e o mal-estar da civilização; em seguida, aborda a obra de Thomas Mann e Balzac. Mas o que sobressai é a sua abordagem de um clássico atemporal As Mil e uma Noites (existe uma edição recente traduzida do árabe, editada pela E-Primatur), inesperada e invulgar. Já as viagens descritas nesta recolha, encaminham o leitor para um mundo desaparecido nas brumas da nostalgia, que se vislumbra nas águas de Veneza, nos perfumes da Primavera de Sevilha, numas pinceladas indianas, num passeio por Oxford, num recital de ópera em Nova Iorque, na necrologia de um velho hotel suíço, na beleza da catedral de Chartres, nas impressões de Florença, numa recordação de Ypres, postais a sépia de tempos idos.

José Guardado Moreira
 
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