O jornalista e escritor Mário Zambujal morreu, aos 90 anos, dia 12 de março, anunciou a editora Clube do Autor, que recorreu ao título do seu romance mais conhecido para lembrar o “eterno bom malandro”.
“O seu legado será sempre relembrado por todos, sobretudo pelos seus fiéis leitores, bem como a sua enorme alegria de viver. Neste momento de dor, o Clube do Autor demonstra a sua solidariedade e apoio à sua família e amigos”, escreveu a editora nas redes sociais.
António José Seguro, Presidente da República, disse na Página da Presidência que foi com tristeza que tomou conhecimento da morte do jornalista e escritor "Mário Zambujal, figura que nos deixa uma marca muito própria no jornalismo desportivo nacional, em todos os meios por onde passou, e que obteve vários êxitos com a sua escrita".
A Presidência da República recorda o jornalista como "orgulhosamente alentejano". Mário Zambujal "foi sempre, nas suas palavras, um desalinhado a que juntava um sentido de humor marcante. O seu romance “Crónica dos Bons Malandros”, adaptado mais tarde a cinema, foi um dos mais populares nos anos 80. Agraciado em 1984 com a Ordem do Infante D. Henrique, recebeu, ao longo da carreira, inúmeros prémios, entre eles o Prémio Gazeta de Mérito 2025, atribuído pelo Clube de Jornalistas, instituição que presidiu durante 14 anos".
O Presidente da República, na mesma nota, envia as suas sentidas condolências à sua família, amigos, ao Clube dos Jornalistas e demais colegas de profissão.
Em reação, o primeiro-ministro, Luís Montenegro lembrou que a “forma de comunicar [de Zambujal] cativava a atenção de quem o via e ouvia e fez escola no jornalismo português”.
O escritor e jornalista Mário Zambujal, que morreu, aos 90 anos, estreou-se nos livros com o sucesso de "Crónica dos Bons Malandros”, em 1980, quando era o conhecido 'pivot' do "Domingo Desportivo" da RTP1.
Na altura, porém, já somava anos de jornalismo, e de histórias escritas e contadas. Foi chefe de redação d'O Século, dirigiu o Mundo Desportivo, pertenceu aos quadros d'A Bola, do Diário de Lisboa e do Diário de Notícias, foi o primeiro diretor do semanário Se7e. E, "antes de saber escrever uma notícia, já tinha escrito muitas histórias - histórias da vida, das pessoas", como afirmou em entrevista ao Clube de Jornalistas, em 2023.
Em entrevista ao Ensino Magazine, explicava a sua relação com a escrita. "Antes de me iniciar nos jornais, escrevia pequenos contos e coisas assim, - muito miúdo, quinze anos, catorze anos. Escrevia no Ridículos, um jornal satírico que se publicava em Lisboa, - eu vivia no Algarve então. Nessa altura, foi um professor de português meu que me convenceu a enviar para o Ridículos, uma redacção escolar que eu tinha feita, e que era um conto. Depois comecei a escrever esses contos no Ridículos. O jornalismo vem mais tarde. Julgo que tinha alguma apetência para a escrita e alguma vontade de brincar com as palavras. Há uma relação, qualquer coisa de comum entre a ficção e a realidade, que é a escrita. Tanto no jornalismo, como nos contos ou na ficção que mais tarde vim a escrever, exercia a escrita - o uso das palavras, a sua arrumação fazendo frases e transmitindo ideias. Temos sempre o mesmo material, os mesmos tijolos, que são as palavras. No jornalismo, tentamos reproduzir o mundo real, na ficção é um mundo inventado, mas o material de construção são as palavras".
Lembrava ainda a importância que o jornalismo desportivo pode ser uma boa escola para avançar noutras áreas. "Várias pessoas fizeram a passagem no início, pelo jornalismo desportivo. Houve uma altura em que o único jornalismo livre era o desportivo. Quando comecei a viajar para o estrangeiro falava com jornalistas de outros jornais que me diziam «que sorte pá, eu o mais longe que vou é à Senhora de Fátima». Nesses anos da censura, trabalhar no jornalismo desportivo era uma libertação. Havia coisas que entravam no lado da sociedade que também não se podiam dizer, por exemplo, que o rapazinho que jogava agora à bola, sofrera de uma pobreza extrema. Mas de resto tínhamos liberdade de movimentos. Era um jornalismo sectorial e o pontapé na bola não se importavam muito que falássemos. Os enviados especiais faziam imensas viagens e isso dava traquejo. O jornalista era muito mais desenrascado do que os outros todos. Era um tipo habituado a sofrer com as viagens e na maneira de colocar cá o trabalho. Não havia telemóveis, Internet, ou computadores".