A criação de bolsas específicas para estudantes do interior ou mecanismos de ação social escolar (ASE) diferenciados por região são recomendações de investigadores para reduzir a desvantagem de quem vive longe das instituições ou é mais pobre.
Uma equipa de investigadores acompanhou o percurso de mais de 724 mil diplomados do ensino secundário ao longo de uma década - entre o ano letivo de 2013/14 a 2022/23 - e concluiu que os alunos que vivem mais distantes das instituições de ensino superior têm mais dificuldades em prosseguir os estudos assim como os jovens de famílias mais carenciadas.
O estudo “Desigualdades Regionais e Mobilidade de Estudantes no Acesso ao Ensino Superior”, coordenado por Pedro Luís Silva e divulgado hoje pelo Edulog, apresenta um conjunto de recomendações que os investigadores acreditam que poderão mitigar as barreiras identificadas e promover uma distribuição mais justa das oportunidades de acesso.
Uma das conclusões do estudo é a de que a distância entre casa e a instituição de ensino superior (IES) continua a ser um dos principais entraves à frequência do ensino superior, sobretudo para os estudantes do interior, para quem a mobilidade é praticamente inevitável.
Os investigadores consideram “crucial reduzir os custos adicionais associados a transporte e alojamento” para mitigar as desigualdades territoriais no acesso e por isso sugerem a criação ou o reforço de "bolsas específicas de deslocação e residência para estudantes do interior".
Além disso, recomendam o reforço de apoios de transporte e alojamento, sobretudo para os estudantes provenientes de regiões periféricas.
Os investigadores descobriram também que as condições socioeconómicas e demográficas dos municípios de origem são decisivas e que o facto de existirem IES próximas aumenta as probabilidades de os alunos prosseguirem os estudos.
Apesar de as IES do interior enfrentarem dificuldades, os investigadores acreditam que se podem tornar atrativas se reforçarem a sua ligação ao tecido económico regional e se se especializarem em áreas estratégicas, como é o caso do curso de Medicina no Universidade da Beira Interior.
Por isso, recomendam que as IES se especializem em domínios como saúde, tecnologia e energias renováveis e que promovam parcerias com empresas e instituições locais para melhorar a empregabilidade e estimular a fixação de diplomados.
O estudo mostrou ainda que os diplomados das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto eram os mais avessos a ir estudar para longe, uma vez que beneficiam de uma rede ampla de instituições próximas, que acabam por tornar “menos atrativos os destinos mais distantes”.
Pelo contrário, os estudantes do interior estão já mentalizados, porque sabem que a frequência do ensino superior implica quase sempre deslocação ou mudança de residência, independentemente da distância.
No entanto, a maior barreira no acesso ao ensino superior continua a ser a situação socioeconómica das famílias. O estudo confirma que os cursos de maior prestígio concentram os alunos de classes mais favorecidas, uma tese que foi confirmada acompanhando os alunos que entraram nos cursos de Medicina.
“Tratando-se de um curso altamente seletivo e prestigiado, a distância perde relevância, mas os fatores socioeconómicos tornam-se mais determinantes: a proporção de diplomados do ensino privado no município de origem surge como um forte preditor da progressão para Medicina. Este resultado evidencia como a seletividade pode reproduzir desigualdades pré-existentes, mostrando que, mesmo quando os custos da mobilidade são relativizados, persistem barreiras de equidade no acesso a formações de topo”, alertam.
Além de identificarem uma forte presença de alunos oriundos de colégios nos cursos de Medicina, os investigadores perceberam que os alunos mais carenciados – com Apoio Social Escolar – eram os que menos conseguiam ir estudar para longe de casa.
Por isso, recomendam o reforço dos mecanismos de ação social escolar (ASE), “diferenciando por região e tipo de curso”.
Incentivar universidades e institutos politécnicos a criar polos, extensões ou cooperações em municípios de menor oferta é outra das sugestões dos investigadores que gostariam que o percurso dos jovens continuasse a ser monitorizado após saírem do ensino superior.
“A análise da mobilidade não termina com o acesso: é essencial acompanhar os estudantes também nas suas trajetórias profissionais. Uma visão integrada ensino–emprego permitirá avaliar de forma mais completa a eficiência e a equidade do sistema”, defendem, recomendando a monitorização da entrada dos estudantes no mercado de trabalho, acompanhando salários, estabilidade e progressão.