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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXVIII

1ª Coluna Os Sumários e a razão do professor Pardal

26-01-2026

Este mês recordei Vicente Sanches Pardal, um dos professores que me marcou no ensino secundário. Dramaturgo, foi com ele que passei a gostar de filosofia. Nas aulas, muitas vezes, apresentava-nos Immanuel Kant, a partir de um livro na língua original do autor, traduzindo cada palavra no momento. Lia em alemão e verbalizava em português. Vem isto a propósito da história dos sumários que todos os professores preenchem e que, na altura, ainda eram escritos à mão, no chamado livro de ponto.
Zeloso do cumprimento das regras, não raras vezes na última aula da manhã, o professor Pardal terminada a lição, pegava na sua pasta e colocava o livro de ponto debaixo do braço, levando-o consigo quase até casa. Como à tarde havia aulas e o dito arquivo vivo era necessário para o preenchimento, obrigatório, dos sumários, o professor Pardal regressava, em passo apressado, à escola Secundária. Nós jovens, na flor dos nossos 16 anos, fazíamos apostas, num dos bancos da avenida Nuno Álvares sobre se o nosso professor levava ou não levava o livro de ponto para casa.
A história, que vale o que vale, mostra como escrever sumários sempre foi uma tarefa cumprida pelos professores. A polémica que este mês veio a público sobre o pedido feito às escolas, pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação, a solicitar o “registo e exportação dos sumários até ao final do mês em que as aulas são lecionadas para o repositório central de dados”, é, na minha perspetiva, um não assunto. Ainda assim, pelo menos um Sindicato de Professores (Fenprof), criticou o ofício enviado às escolas, referindo que o mesmo “representa uma inaceitável tentativa de fazer depender a remuneração dos docentes do registo de sumários, transformando um procedimento administrativo rotineiro num instrumento de pressão e ameaça”.
Em resposta, o ministro Fernando Alexandre explica que os professores já preenchem os sumários, mas a exportação desses dados permitirá contabilizar com precisão as necessidades das escolas. À Lusa adianta que “para podermos ter números de alunos sem aulas, temos que ter um sistema onde sabemos exatamente quais são as necessidades que temos, quais são os professores que estão colocados, que turmas é que têm e que aulas é que estão a dar”.
A questão dos sumários, andou a ser discutida quase 15 dias e, nas escolas, os professores não entendem onde está o problema de algo que eles fazem desde que exercem a profissão. Não tenho dúvidas que a classe docente ficaria mais satisfeita se a crítica fosse pelo elevado trabalho burocrático que tem que cumprir (sobretudo os diretores de turma - e não me refiro aos sumários, mas sim aos mapas de caraterização de alunos, aos relatórios disto e daquilo, às reuniões infindáveis que exprimidas dão um parágrafo, etc, etc) ou pelos currículos que quase obrigam professores e alunos a mecanizar processos, relegando para segundo plano o pensamento. Ou, ainda pela falta de recursos humanos - docentes e não docentes. Ou, também, pela má qualidade de instalações com que muitas escolas se deparam.
Infelizmente, a atenção foi dada aos sumários. Logo aos sumários. E qual o problema dos dados serem exportados para a entidade patronal saber o que se passa na sua casa, no sentido de ter elementos fidedignos que ajudem à tomada de decisões? Nenhum, digo eu. E não acredito que isso possa criar ameaça ou pressão sobre os professores.
Hoje o livro de ponto deu lugar a plataformas digitais e tudo é preenchido no computador ou num dispositivo móvel, com acesso à internet. Um processo simples, eficaz e amigo do ambiente. Ninguém corre o risco de levar para casa o livro de ponto, porque na verdade tem-no sempre consigo, à distância de um clique e da validação dos códigos de segurança, para que se possa escrever a matéria dada.
É pena que se tenha criado tanto ruído acerca de um não assunto e não se tenham trazido para a discussão os verdadeiros problemas que ainda impedem que a escola seja para todos e que a todos possa dar resposta. Dizia-nos o professor Vicente Sanches Pardal: “o que é pouco provável de acontecer, nunca acontece”. Se calhar tinha razão…

João Carrega
carrega@rvj.pt
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