Este website utiliza cookies que facilitam a navegação, o registo e a recolha de dados estatísticos.
A informação armazenada nos cookies é utilizada exclusivamente pelo nosso website. Ao navegar com os cookies ativos consente a sua utilização.

Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXIII

Primeira coluna Batatas e papoilas 22-03-2021

“Estamos a plantar batatas na expetativa de recolher papoilas”. A expressão pertence a Joaquim Azevedo, antigo secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, um dos reconhecidos investigadores portugueses na área da educação. Vem a propósito da formação de docentes e do facto de uma grande parte dos alunos que se candidatam a cursos de formação de professores terem as médias mais baixas entre os que concorrem ao ensino superior.
Com a classe docente sem o rejuvenescimento necessário, numa progressiva desmotivação e à espera de ver a sua profissão redignificada, a que se junta desclassificação da carreira docente, do ponto de vista social, importa refletir sobre aquela expressão.
O inquérito sobre Cibersegurança e Ensino a Distância dirigido aos docentes do ensino não superior em Portugal, realizado entre 20 de outubro e 15 de novembro de 2020, pelo Observatório de Cibersegurança, do Centro Nacional de Cibersegurança é claro no que respeita ao envelhecimento da classe docente. Do total de 21 mil 126 respostas obtidas verifica-se que 78% dos professores do ensino básico e secundários têm idades entre os 40 e os 59 anos. Entre os 30 e os 39 anos a percentagem de docentes é de 7% e com menos de 30, é de 1%.
Aqueles dados vêm ao encontro dos publicados pela Pordata (2020), tendo em conta o índice de envelhecimento, calculado pela relação entre os professores com mais de 50 anos e os que têm menos de 35 [(Docentes com 50 ou mais anos / Docentes com idade inferior a 35 anos) * 100]. Se no ensino básico, em 2000 o índice de envelhecimento era de 78,8, em 2019 passou para 924,5. Nos 2º, 3º ciclos e secundário, passou de um índice de 45,3 para 1595,4.
Urge, portanto, rejuvenescer a classe docente, permitindo que as gerações mais novas de professores trabalhem com as mais velhas, reforçando a experiência com inovação. Mas importa também dignificar a profissão docente. Uma profissão exigente, muitas vezes de missão. E nesta pandemia os professores estão a dar uma resposta imensa, que provavelmente uma grande parte da sociedade não tem noção.
A ausência do rejuvenescimento natural dos professores na escola tornou a resposta à pandemia e às novas formas de ensinar um desafio maior. As novas tecnologias, tantas vezes relegadas para segundo plano pela própria escola, assumiram-se como o meio para atingir o fim.
A classe docente, aquela que hoje está nos estabelecimentos escolares, mesmo sem formação específica para o ensino a distância, está a mostrar ao país da fibra que é feita. Está a sublinhar à sociedade quão nobre é ser-se professor. Dentro e fora da escola. Quão importante é esta profissão que ensina as crianças e os jovens para o amanhã, num mundo que tem vindo a perder valores importantes como o respeito do um pelo outro, em que o individual assume o papel principal.
E quando o regresso normal à escola acontecer, terminado este estado de ‘guerra virológica’, os professores vão regressar às suas salas de aula. Tudo voltará à normalidade. Mas seria bom que se implementassem políticas sérias e estruturais, que trouxessem à classe docente uma nova perspetiva, que reforçassem a sua imagem na comunidade e o entusiasmo de se ser professor. Que permitissem aos bons alunos, àqueles que têm boas médias, aferirem que as perspetivas futuras, se optarem por um dia virem a ser professores, são boas. Mas isso, não se faz num dia, nem num ano, nem em dois. Mas em algum momento tem que começar a ser feito. Até lá, vamos, como diz o professor Joaquim Azevedo, estar a plantar batatas na expectativa de recolher papoilas…

João Carrega
carrega@rvj.pt
 
Voltar