Carolina de Deus é uma cantora e compositora de 25 anos, natural de Lisboa. O lançamento do seu segundo trabalho discográfico, em que aborda temas relacionados com a saúde mental nos jovens, foi o mote para uma conversa com a artista que escolheu viver da música, em detrimento do Direito.
«Feliz (mente) Triste» é o segundo álbum de originais, que sucede a «Dores de Crescimento». Nele podemos constatar um carrossel de emoções, muitas delas contraditórias, mas que se complementam. Este trabalho representa um novo passo na sua carreira?
Sim, neste disco sinto-me mais empoderada e segura de mim. Nota-se, claramente, uma Carolina mais confiante e mais consciente. Olho para este álbum e, sinceramente, ficou muito orgulhosa da evolução que fiz.
Este disco aborda de forma muito direta vários temas particularmente relevantes para o público mais jovem, como a saúde mental, a afirmação do sexo feminino, o amor e os múltiplos desafios da sociedade atual. O objetivo foi colocar o dedo em várias feridas, abordando-as, sem complexos?
Sim. Este álbum é um desafio para olharmos e sentirmos as coisas, para que no futuro, com outras ferramentas, possamos ultrapassar as dificuldades que nos surgem, nestes e noutros domínios. No fundo, preparar-nos para situações com que nos possamos vir a deparar no futuro. É aqui que se explica esta dualidade presente no álbum: é possível estar triste e também ser feliz. São momentos naturais da vida e que devemos encará-los como tal, na forma como surgem os desafios na adolescência ou na própria idade adulta. É a superação das dificuldades que nos fazem mais fortes.
A sensibilidade dos temas e a exploração de novas sonoridades tornaram este um grande desafio?
Sim, foram três anos de um processo bastante intenso, e também enriquecedor, que deu origem a este trabalho, que considero ser uma espécie de um diário pessoal. Confesso que vários temas custaram a escrever, mas senti-me na obrigação de os «deitar cá para fora». O objetivo também é que quem já passou por situações semelhantes se sinta menos sozinho e mais capaz de enfrentar os problemas.
A faixa «Três e Meia» é um dueto com o Ricardo Liz Almeida, um dos vocalistas da banda «Quatro e Meia» e fala sobre a saúde mental. É uma forma de transmitir uma mensagem de proximidade e solidariedade para todos os que lidam com estas questões?
Este disco é, também, o meu contributo para dar uma espécie de abraço a todos os que se sentem mais vulneráveis e sós. No momento em que me fui abaixo, de maneira mais intensa, e foi precisamente aí que escrevi a música «Três e Meia», lembro-me de ter sentido muita vergonha, alguma culpa e muito sozinha nesta luta. Foram sentimentos que não gostei de experienciar, mas percebi mais tarde que não tinha de ser assim. Na verdade, a vergonha e a culpa acabam por ser dois sentimentos muito ingratos.
A digressão deste álbum já percorre o país e tem duas datas fortes, no Porto, a 28 de fevereiro, e em Lisboa, a 15 de abril. O primeiro espetáculo com a colaboração do Ricardo Liz Almeida e o segundo com a Nena. A aposta num formato diferente, imersivo e assente numa narrativa de continuidade, pretende uma maior proximidade com o público?
O objetivo é criar uma maior proximidade com quem está na sala de espetáculos a assistir, mas também que as pessoas consigam entrar dentro da minha cabeça nos momentos em que escrevi as músicas. E isto vai muito para além da música e das letras, visto que foi feita uma grande aposta na parte cénica do espetáculo que acredito vai surpreender. Foi tudo pensado ao pormenor para que as mensagens sejam transmitidas da forma mais real possível. Gostaria muito que mesmo quem não passa ou não passou por estas dificuldades que eu abordo no disco conseguisse, no mínimo, ganhar sensibilidade e capacidade de reflexão sobre estas matérias. As mensagens são importantes neste espetáculo e, no fundo, o que quero é envolver o maior número de pessoas possível e que esta seja uma experiência que vá para além da música.
A canção «Corpo em Guerra» é uma das mais intensas e introspetivas, abordando a obsessão pela imagem e o corpo perfeito na juventude. Será um dos pontos altos destes espetáculos?
Ainda não cantei este tema ao vivo e, devo confessar, que pela intensidade do mesmo é dos momentos que mais temo. Mas acredito que será um dos mais marcantes do espetáculo e para o qual também preparámos algo diferente.
A música tem um poder enorme no nosso estado espírito. Neste mundo confrontacional e agressivo, a música ainda é, hoje e sempre, um reduto de paz e uma forma completa de felicidade?
Sim, vejo a música dessa maneira, mas há momentos em que não estou tão bem e tenho necessidade de ouvir música que me faça sentir ainda um pouco pior, mas como forma de fazer o luto dos momentos pelos quais estou a passar e seguir em frente. Mas, se for o caso, também consigo acordar e por a tocar uma música feliz para começar o dia da melhor maneira. Depende das circunstâncias.
Frequentou o curso de Direito até ao 3.º ano. Disse em entrevista que seria o plano “B” da sua vida, mas a música permaneceria como o plano “A”. Acha que se perdeu uma advogada ou uma jurista mediana e o panorama artístico nacional ganhou uma cantatoura que veio para ficar?
Espero que sim. O Direito já nem plano “B” é. Ficou para trás. A prioridade é a música. Enquanto der, cá continuarei. E mesmo que algo corra mal na carreira, cá estarei para estar ligada a este meio, seja a escrever para outros, etc. É obrigatório.
Uma carreira curta, mas fulgurante
Carolina de Deus é uma cantora e compositora de 25 anos, natural de Lisboa. O primeiro single, «Talvez…», com letra e música da sua autoria, contabiliza mais de 7 milhões de streams. O tema fez parte do seu primeiro álbum de estúdio «Dores de Crescimento», lançado em 2023. Esteve nomeada em 2022 para um Globo de Ouro, na categoria de “Revelação do Ano” e em 2024 na categoria de “Melhor Canção” com o tema “Dores de Crescimento”. Em 2024, subiu ao palco do «Rock In Rio» e ainda do Coliseu dos Recreios. No final de janeiro deste ano, editou o seu segundo álbum de estúdio «Feliz(mente) Triste» que conta com as participações especiais de Ricardo Liz Almeida e Jimmy P.