No passado dia 6 de Outubro, o cinema perdeu um dos seus maiores ícones: Eva Marie Saint. A actriz, provavelmente a última grande estrela da galáxia Hollywood, tinha 102 anos.
Nascida a 4 de Julho de 1924 em Newark, depois da sua passagem pelo Actor´s Studio, entrou em várias séries e filmes para televisão, estreando-se no grande écran em On the Waterfront (Há Lodo no Cais,1954) de Elia Kazan, realizador que caiu em desgraça, por via das denúncias que fez ao Comité das Actividades Antiamericanas, a tristemente célebre “caça às bruxas” do senador McCarthy, mas que se redime com este filme, produção com que volta aos Óscares, oito, onde se incluem os de melhor filme e melhor realizador e, claro o de Melhor Actriz Secundária para Eva Marie Saint, no papel de Edie Doyle, uma virtuosa católica que é determinante para a luta de Terry (interpretado por Marlon Brando, que arrebatou a estatueta dourada de Melhor Actor), contra um sindicato corrupto sindicato. Melhor estreia não poderia almejar. Um filme essencial, de Kazan e na história do cinema. Libelo acusatório, é também o retrato de um homem exprimindo a sua raiva, fora do sistema, marginal, tal como Kazan. Um filme onde perpassam todas as convicções e ideias do seu autor e onde o método de interpretação (três actores foram também nomeados para o Óscar de Actor Secundário: Lee J. Cobb, Karl Malden e Rod Steiger), junto com um cenário realista das docas o torna único, na transmissão de sentimentos e na formação/mutação de mentalidades.
Mas para mim a interpretação da actriz que mais me marcou foi a de Eve Kendall, uma sedutora e loiríssima agente secreta, em North by Northwest (Intriga Internacional,1959), dirigido por Alfred Hitchcock, ao lado do enigmático e elegante sedutor, Cary Grant, com um sentido de humor marcante, em todos os filmes que protagonizou, com destaque para as várias screwball comedies. Em todos brilhou.
Saint quebrou o padrão das loiras inocentes na filmografia do Mestre. O seu trabalho neste filme consagrou-a como uma das mais memoráveis das “suas” loiras, a par de Grace Kelly, a quem o Rainier deu outro trono, Kim Novak, Tippi Hedren, todas e cada uma delas encarnação do mal, da culpa, do desejo, da sexualidade, sem sexo, que perpassam nos seus filmes, ora com subtileza, há quem diga com puritanismo, fruto da sua educação cristã, onde o Bem e o Mal lhe ficaram bem marcados, ora com um fino sentido de humor, very british, ora com uma grande dose de ironia, sempre presente nos seus filmes.
Sem esconder a sua admiração, ou preferência por Cary Grant, a atriz dividiu tela com outros nomes sonantes, desde logo Marlon Brando em Há Lodo no Cais (em Super-Homem, o Regresso, de 2006, filme em que Eva Marie Saint interpreta a mãe adotiva de Clark Kent, Marlon Brando também lá está mas em imagens da footage de Super Homem: O Filme, dirigido por Richard Donner, que Bryan Singer usou, pois Brando falecera em 2004), Paul Newman em Exodus (Otto Preminger, 1960), James Gardner em Grand Prix (John Frakenheimer, 1966), Gregory Peck em Emboscada na Sombra (The Stalking Moon, 1969) de Robert Mulligan, para além de outras aparições mais recentes, a maior parte delas em filmes para televisão e séries.
SAM NEILL: DE O PIANO A JURASSIC PARK
Também Sam Neill nos deixou a 13 de Julho depois de meia década de interpretação e mais de 150 filmes.
Actor versátil, entrou em vários géneros, drama, comédia e protagonizou um dos maiores blockbusters de sempre: Jurassic Park, uma criação de Steven Spielberg, quem mais, numa adaptação da obra homónima de Michael Crichton, onde deu vida ao paleontólogo Alan Grant que se tornaria o herói da saga, ou seja, falar desta clonagem de dinossauros que não correu bem, sem vir à conversa Sam Neill, não seria o mesmo.
Porém, O Piano (Jane Campion,1993) é outro memorável papel deste irlandês, filho de pai neozelandês, que cresceu na Nova Zelândia, para onde a família se mudou tinha ele sete anos e onde fez toda a sua formação. Começou a actuar na universidade, em grupos de teatro e depois na televisão, até que em 1977 protagonizou Sleeping Dogs, de Roger Donaldson, com assinalável êxito na Nova Zelândia. Porém em 1993 tudo muda com estes dois filmes, nomeadamente neste drama da Jane Campion, vencedor da Palma de Ouro em Cannes e de três Óscar: Jane Campion Melhor Realizadora e Holly Hunter e Anna Paquin, para os prémios de representação, respectivamente melhor actriz e melhor actriz secundária.
Sam Neill já tinha a sua versátil carreira em reconhecidos papéis, em filmes tão diferentes como Um Grito de Coragem (Fred Schepisi,1988), ao lado de Meryl Streep, Caça ao Outubro Vermelho (John McTiernan,1990), com Sean Connery, depois nas várias entregas da saga dos dinossauros, a última em 2022 e, nos últimos anos, em curtas aparições como na saga Thor em Thor: Ragnarok (2017) Thor: Love and Thunder (2022), de Taika Waititi.
Duas perdas, a que prestamos a nossa curta homenagem.
Até à próxima e bons filmes!