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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXVIII

Entrevista Pedro Boucherie Mendes: "Portugal é um absoluto caso de sucesso"

15-10-2026

A «Expo’98», o advento da televisão privada e a construção de infraestruturas. Estas são apenas algumas marcas fortes da inesquecível década de 90, que Pedro Boucherie Mendes analisa ao detalhe no seu último livro.

Nos dois livros, «A Década Prodigiosa: Crescer em Portugal nos Anos 80» e o mais recente, «A Década Fabulosa — Fazer pela Vida em Portugal nos Anos 90». parte muito da sua experiência pessoal para retratar transformações profundas da sociedade portuguesa. Onde termina a sua memória individual, nasceu em 1970, e começa aquilo que considera ser a memória de uma geração?
Tentei em consciência não tomar a parte pelo todo. Aliás, tive o cuidado de o referir várias vezes. Contudo, e por circunstâncias casuais, a verdade é que cresci no epicentro de onde tudo acontecia, ou seja, a região da Grande Lisboa. Não sei como teria sido se tivesse crescido no Funchal ou em Faro, admito.
Nesse sentido, as minhas memórias sobre sítios, acontecimentos e personalidades são comuns a muitos milhares que viveram e cresceram na Grande Lisboa.
Nunca vivi em bairros degradados, mas andei em escolas onde chovia, em pavilhões provisórios e etc. Joguei futebol na rua. Cheguei muitas vezes com os sapatos cheios de lama a casa.
O que quero dizer é que o Portugal a seguir ao 25 de abril era muito igualitário em muitas coisas, sobretudo nestas de situações difíceis e provisórias.

Em «A Década Prodigiosa», descreve os anos 80 como uma década em que Portugal começa verdadeiramente a entrar na modernidade. Que mudanças dessa época considera terem sido decisivas para o país que somos hoje?

A TV a cores a partir de 1980. A adesão à CEE, em 1986. A normalização da democracia, a partir da maioria absoluta do PSD, em 1987. O começo da explosão dos novos media – «O Independente», em 1988, a TSF, ainda em versão “pirata” e outras rádios. A vida noturna lisboeta a partir do “Frágil” (1982). Ao mesmo tempo, uma vaga de construção de estradas, escolas e outras infraestruturas. As mudanças, para melhor, notavam-se.

Depois de olhar para os anos 80 e 90 com a distância de várias décadas, que retrato de Portugal gostaria que estes dois livros deixassem: o de um país que progrediu extraordinariamente ou o de um Portugal que continua, de alguma forma, à procura de um rumo e de uma ideia?

Um país e um povo, um grupo de pessoas, muito melhor do que aquilo que acha que é. Portugal é um absoluto caso de sucesso. E nós todos, os que andámos por cá nos últimos 50 e poucos anos, estamos de parabéns. Isto não significa que não existam incontáveis defeitos.
Basta pensar que há uma maneira de ser e de nos comportamos que não passa por incendiar automóveis, ocupar casas, agredir os outros, a torto e a direito. Há uma temperança que continuamos a manter e nos devia orgulhar.

Nos anos 90, Portugal passou de uma sociedade ainda marcada por grandes carências para uma sociedade de consumo e de afirmação de uma vibrante classe média. O espírito e o impulso da «Expo’98» terá sido um dos marcos mais icónicos. Quais seriam as suas escolhas se lhe pedisse para selecionar dois ou três acontecimentos mais transformadores nessa década apelidada de «vacas gordas»?

As medidas que conduziram à liberalização e acesso ao crédito à habitação. A TV privada, em especial na área da informação e do jornalismo que colocou os políticos mais em sentido. E a aposta continuada nas infraestruturas, tanto no governo PSD como no governo PS que se seguiu, a partir de 1995.

Em Portugal e também no estrangeiro, são vários os autores que lançaram livros de retrospetiva sobre as décadas de 80 e 90. Acredita que esta tendência é sinal de que há uma sede de revivalismo ou é uma forma de a sua geração prestar tributo e recordar a adolescência e o início da idade adulta?

Não consigo pensar nisso nesses termos. Não sou nada nostálgico. Contudo, e desde há uns anos, posso dizer que descobri que a gratidão é a qualidade humana que mais valorizo. Os meus livros são em larga medida uma homenagem e uma demonstração de gratidão para com pessoas (como Herman José, Carlos Lopes, Miguel Esteves Cardoso, Júlio Isidro, João Garcia, as pessoas que fizeram a «Expo», etc.) que se destacaram e melhoraram o país.
Quero acreditar que daqui a 100 ou 200 anos, alguém possa descobrir Herman José, como muitos descobrem hoje Gil Vicente ou Bordallo Pinheiro.

No que à educação diz respeito, viveu de perto, como estudante, a contestação às propinas que marcou a primeira metade da década. Em 1994, os protestos estudantis deram origem à expressão «geração rasca». Que memória guarda desse momento e até que ponto considera que aquela contestação revelou uma mudança na relação da sua geração com a política, com a educação e com o próprio país?
Lembro-me como se fosse ontem. Foram tempos de grande agitação e confusão. Na altura, como hoje, tenho mais que fazer do que andar em manifestações e já era licenciado em 1994. O que posso dizer, contudo, é que aquelas pessoas saíam à rua com muita facilidade. Havia muita energia. É sempre de saudar que as pessoas lutem por aquilo que acreditam. De alguma maneira aqueles protestos são filhos do sucesso de anos precedentes. Aqueles miúdos queriam ainda mais coisas do que aqueles que seriam os da minha idade.

A primeira década do século XXI, em que segundo diz se extinguiu definitivamente o espírito da década de 90, precisamente na final do «Euro 2004», vai merecer, da sua parte, um livro nos mesmos moldes dos dois editados anteriormente?

Acho e de certo modo espero que não! É muito cansativo viver no passado. Estamos sempre a tomar notas das coisas mais insignificantes, os assuntos enfiam-se em nós, há um pavor de deixar coisas importantes de fora, que possam manchar a empreitada. Também penso, sem conseguir explicar exatamente o motivo, que já não é uma missão para mim. Que venha outro(a).

Entrou na universidade em 1990 e começou a trabalhar no jornalismo numa altura de forte expansão dos jornais, revistas, rádios e televisões privadas. Que país encontrou quando entrou na profissão e o que é que mais o surpreendeu nesse jornalismo pré-Internet?

A desorganização geral das redações. Trabalhava-se sobretudo em cima do prazo.
Também me surpreendeu como o país era paroquial. Jornalistas, empresários, políticos, todos se conheciam.

O jornalismo dos anos 90 permitia uma relação com o tempo, com a reportagem e com a própria profissão muito diferente da atual. A Internet democratizou a informação ou, na sua opinião, acabou por fragilizar o jornalismo?

Acho que não há jornalismo enquanto definição estanque. Acho que há reporte. Há mediação. Há informação que se partilha. Publicar os cinemas e as farmácias de serviço tem uma dignidade total. Como denunciar más práticas numa câmara municipal. O problema é que nunca podemos garantir efetivamente o que seja a “verdade”. Mas há muito jornalismo que acha que é a “verdade” só por ser jornalismo. A palavra jornalismo é como uma bandeira que se abana. Eu sou jornalista, logo sou isento, puro como água do Luso e um agente do Bem. Ora, nenhum de nós é sempre assim. Ser manipulado pelos “maus” acontece. Mas ser manipulado pelos “bons”, também…Por isso fiz os meus livros na primeira pessoa e tive o cuidado de explicitar que no caso A, B, C era a minha opinião ou convicção. Aquelas são as minhas versões e entendimentos sobre as décadas de 80 e 90, não a “verdade” total. A internet fragiliza na medida em que a abordagem a um assunto nunca mais acaba. Ainda bem em muitos casos, mas noutros, só adiciona complexidade e ruído. É evidente que é positivo que os temas sejam escalpelizados até ao tutano, mas muitas vezes passa-se para um plano em que o que interessa é adicionar mais um detalhe e não propriamente resolver seja lá o que for. A experiência humana vive com imperfeições. Muitas vezes o jornalismo enche o peito e aspira a essa perfeição como missão de vida. Agora, obviamente, é melhor que haja Internet tal como está, do que uma Internet regulada por algum agente exterior.

Trabalhou em «O Independente», sob a liderança de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, um título que marcou uma geração de jornalistas e de leitores. O que é que essa experiência lhe ensinou sobre jornalismo, e que características daquele jornal gostaria de ver recuperadas na imprensa atual?
Uma determinada inventividade organizada. Havia mais liberdade criativa, porque havia menos medo de se perder o emprego ou comprometer o percurso profissional. Havia mais criatividade disruptiva.

Chegou à SIC em 2007 e construiu desde então uma parte importante da sua carreira na televisão, incluindo funções de gestão, definição de conteúdos e apresentação de programas. O que aprendeu na imprensa e que ainda hoje aplica quando pensa televisão?
As mudanças tecnológicas são tantas, que pouco ou nada se aplica. Mas manter-me informado e atualizado era válido então, como é válido agora.

A televisão privada foi uma das grandes transformações dos anos 90, com o nascimento da SIC, a 6 de outubro de 1992, e poucos meses depois, em 1993, a TVI, e é também um elemento central do retrato que faz dessa década. O que mudou realmente na sociedade portuguesa quando os espetadores deixaram de ter a opção única dos dois canais públicos?
As pessoas passaram a ver-se na TV. Eram eles e elas quem estava ali e já não apenas os artistas, músicos e apresentadores. Hoje em dia, ser participante num programa de TV é um modo de vida, tanto o público como essas pessoas que aparecem, perderam uma certa inocência que, entretanto, se perdeu, mas que existia naqueles primeiros tempos de SIC e TVI.

 


Diretor da SIC Radical

Pedro Boucherie Mendes nasceu em 1970, em Angola, e cresceu na Parede, na Linha de Cascais. É jornalista, escritor e diretor de televisão, licenciado em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa. Atualmente, trabalha na SIC, onde desempenha funções de direção na área dos conteúdos digitais de entretenimento e dirige a SIC Radical, canal onde apresenta o programa «Irritações».

Nuno Dias da Silva
DR
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