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Mariana Alvim, radialista e escritora Os dois amores de Mariana

10-08-2026

Ao «bichinho» da rádio, onde há uma década faz as manhãs da RFM, Mariana Alvim juntou agora a paixão pela escrita com a edição do seu primeiro romance de ficção para adultos.

É conhecida pela sua trajetória como radialista, na RFM, mas faz agora a sua estreia num romance de ficção para adultos a que deu o nome de «O amor que escolhemos». Qual a razão para este projeto ter levado 10 anos a concretizar-se?

Este livro versa sobre a amizade feminina, desabafos e conversas íntimas entre amigas. Sempre foi um tema que senti necessidade de aprofundar. Comecei a pensar no livro há vários anos. Comecei a escrever, mas fui fazendo paragens de alguns meses, até porque, entretanto, fui mãe novamente, e acordo às 5h30 da manhã para fazer rádio. Para além disso, os temas e as conversas do que inicialmente escrevi também foram evoluindo com o tempo, as personagens foram mudando, etc. Este projeto também conheceu avanços e recuos, porque ao fim de algum tempo de paragem, não me agradava aquilo que tinha escrito e voltei à estaca zero. É isto que explica que o processo tenha demorado tanto tempo. Da próxima vez vou tentar ser fiel ao lema, «se quiseres escrever, não pares de escrever».

Apesar de não ser autobiográfico, encontra traços pessoais seus presentes nas protagonistas: a Laura, a Vitória e a Catarina?

Sim. A Vitória e a Laura partilham inseguranças comuns. Já me cruzei com pessoas más e narcisistas no trabalho, como uma das protagonistas se depara. Para além disso, conheço famílias que têm muitos assuntos tabu e que sentem dificuldade em confrontar-se, o que faz com que evitemos conflitos. São «nuances» do nosso dia a dia que utilizei para o livro, mas sem me referir a ninguém em particular. O livro foi editado muito recentemente, mas os leitores já começaram a reagir, em particular nas redes sociais. E é muito gratificante ver determinados comentários, é sinal de que os leitores se «relacionam» com estas três mulheres.

O que difere a amizade feminina da amizade masculina? Identifica afinidades e pontos de contacto?

Acho que ainda há muito para evoluir na educação e nos estereótipos, mas acredito que as mulheres, em particular da minha geração, que é a que conheço melhor, têm mais abertura para falar de certos temas íntimos e desabafar. Mas cada pessoa é uma pessoa, e também me relaciono com amigos com os quais tenho conversas íntimas, o que não acontece com algumas amigas, que são mais fechadas.

A família não escolhemos, mas os amigos sim, esses escolhemos.  Pretendeu com este livro fazer um hino à amizade e à partilha?

O livro não é apenas sobre amizade, longe disso. É sobre homofobia, sobre pessoas tóxicas, pessoas narcisistas, o chefe mau, a falta de diálogo num casamento entre marido e mulher, as questões relacionadas com a maternidade, etc. O que une e ajuda estas amigas, na faixa dos 30/40 anos, é falarem sobre estes temas que condicionam o seu dia a dia. E para os leitores é uma forma de transmitir histórias que afetam as personagens de um livro de ficção, é certo, mas que acontecem, todos os dias, na vida real de mais pessoas do que pensamos. No fundo, a partilha permite que saibamos que não estamos sozinhos.

Aos 13 anos disse a uma professora que queria ser escritora. Cumpre este sonho agora, já na faixa etária dos 40 anos. No podcast literário «Vale a pena», em que entrevista personalidades, houve algum dos seus convidados que a tenha inspirado para o livro?

Sobre a história do romance, não. O fio condutor e as personagens já estavam construídas há muito tempo. O que pode ter ajudado é ter trocado impressões com pessoas, mais ou menos famosas, sejam ou não escritores, e conhecê-los na sua vertente de leitores. Naturalmente quando os entrevistados são escritores o meu entusiasmo cresce. Este podcast permitiu-me ao longo destes quatro anos da sua existência ter conhecido livros que de outra maneira talvez não tivesse conhecido. Sinto-me, por isso, uma leitora nova.

A escrita e a rádio são dois amores conciliáveis?

São. Tenho uma paixão desde muito cedo pela escrita - A professora Emília, a quem eu disse aos 13 anos que queria ser escritora, já tem o meu romance. Quando era mais nova sempre li imenso e também porque não havia tantas distrações e alternativas na nossa adolescência como há hoje. Na faculdade, por acaso, tive uma disciplina de rádio e apaixonei-me. Estive sete anos a trabalhar em marketing e, paralelamente, ia tirando cursos de comunicação e de escrita criativa. Até que um dia larguei tudo, comecei a ser guionista, nomeadamente do «Morangos com Açúcar», para o qual escrevi três series, em equipa, e também uma novela da noite.  Entretanto, tinha feito castings na rádio, mas eram estágios não remunerados e para quem já trabalhava não era fácil aceitar. Apesar de estar feliz a escrever novelas, um dia fiz um casting para a RFM e fiquei. Há mais de 10 anos que faço as manhãs da radio, tendo estado dois anos e meio nas tardes. O problema é que o horário da manhã na rádio não é amigo de estar sentada ao computador durante a tarde a escrever.

Não gosta de acordar cedo, mas o despertador toca às 5h30. Após ter estado nas manhãs e feito uma incursão nas tardes, regressou ao horário matutino na RFM, há cerca de ano e meio. O que faz desse horário (7h-10h) tão mágico para a rádio e para os seus ouvintes?

Para quem está no trânsito, a caminho do trabalho, o que quer é ouvir boa disposição, com disparates, animação e música boa. É uma companhia que fazemos, para quem está em casa, para quem vai no carro, a pensar que vai ter uma reunião daqui a pouco ou porque o chefe é um chato. Para os locutores é a magia do direto, a adrenalina e a responsabilidade por estarmos a comunicar com milhares de pessoas. Nestes 10 anos nas manhãs, ainda tive um bebé e essa criança não me deixou dormir ao longo de dois anos e meio. Foi muito duro, mas o «bichinho» da rádio vence tudo. Não há nada melhor do que curtir com os amigos e fazer rir os ouvintes. Isto é puro entretenimento.

A equipa das manhãs é composta por Pedro Fernandes, Luís Pinheiro e Ana Garcia Martins. A química entre apresentadores é fundamental para o sucesso do programa?

Se fosse para sair da cama cedo para ir trabalhar com quem não gostamos, se calhar já não estava lá…(risos). Estar em equipa é bem mais divertido. Genuinamente, os prolemas ficam à porta do estúdio, sejam eles quais forem. A sintonia é muito importante. A equipa atual é muito gira. Eu e o Pedro Fernandes vamos fazer, em setembro, 10 anos de parceria.

No tempo presente a concorrência desleal dos ecrãs, faz com que seja difícil atrair os jovens para a leitura. Tem alguma estratégia particular que use com os seus três filhos?

É um desafio. Os meus filhos não adoram ler e não consigo obrigá-los. É um desgosto.  Nas pessoas adultas, o hábito de ler é um bocado como ir ao ginásio, quando deixamos de ir depois torna-se muito mais difícil regressar.  Nos mais novos é procurar saber o que eles gostam mais de ler e tentar incutir alguma disciplina no acesso aos ecrãs, para que haja mais tempo disponível para a leitura. Como pais, tentamos controlar o que pudemos, mas é uma luta algo desigual, visto que o recurso aos telemóveis e aos ecrãs é viciante.

Concorda com as proibições de telemóveis nas escolas?

Claro. Está provado que o uso destes aparelhos provoca défice de atenção e tem reflexos no desempenho escolar. Quando vou a uma reunião na escola vejo alunos agarrados aos telemóveis, quando deviam estar a socializar com os seus pares. São competências que se perdem. Ao ver a vida dos outros, estão a perder tempo de viver a sua. Os jovens desabituaram-se a esperar, ficam impacientes e mimados, porque só veem o que querem. Acho que era importante descobrirem outros talentos, até para se conhecerem melhor.

 

A CARA DA NOTÍCIA

Guionista da série «Morangos com Açúcar»

 

Locutora, podcaster, escritora infantil e agora autora de livros de ficção para adultos. A estreia neste género aconteceu há semanas com o lançamento de «O amor que escolhemos», com a chancela da Porto Editora. Mariana Alvim nasceu em Lisboa, a 14 de maio de 1979, após ter trabalhado em marketing e sido guionista de televisão, entre outras, da série juvenil «Morangos com Açúcar». Iniciou o seu percurso na rádio, na RFM, onde está há mais de 16 anos, 10 dos quais como animadora no «Café da Manhã». Escreveu a coleção juvenil «Os fininhos – Estou tramada» e criou o premiado podcast literário «Vale a Pena».

Nuno Dias da Silva
Direitos Reservados
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