Durante 30 anos o seu nome figurou, como diretor, no cabeçalho do jornal «A Bola», tendo acompanhado os maiores acontecimentos desportivos um pouco por todo o mundo. Vítor Serpa faz a antevisão do Mundial 2026 e atribui o favoritismo à campeã em título, a Argentina.
Esteve 50 anos no jornal «A Bola», 30 dos quais como diretor, um caso raro de longevidade, tendo testemunhado alguns dos maiores eventos do desporto nacional e internacional nas últimas décadas. Sente-se um privilegiado?
Sim, sinto-me um privilegiado, tanto do ponto de vista profissional, como do ponto de vista pessoal, desde o dia em que comecei a fazer jornalismo. Estava no primeiro ano de Medicina na Faculdade de Medicina de Lisboa e as coisas não estavam a correr propriamente bem em termos académicos, visto que as solicitações eram muitas. Entretanto, com 18 anos, fui convidado pelo Aurélio Márcio para escrever no «Diário Popular». Aceitei, porque ia fazer algo de que gostava e também ganharia algum dinheiro. Na verdade, o jornalismo sempre foi o meu sonho. Ao longo destes anos, destaco os oito mundiais de futebol, os cinco europeus de futebol e os seis Jogos Olímpicos que cobri, para além de ter feito várias etapas na Volta a França e de ter estado presente numa Volta a Espanha em bicicleta.
De todos estes eventos, há algum que lhe tenha deixado memórias mais profundas?
O meu primeiro mundial, em 1986, no México, foi muito marcante. Era ainda um jovem, tinha 34 anos, e fui escolhido pelo Vítor Santos, o mítico chefe de redação de «A Bola», para ir com ele (e com o fotógrafo, Nuno Ferrari) acompanhar o campeonato do mundo. Na altura, os jovens tinham de ter alguma paciência e saber esperar pelas oportunidades. Fosse para acompanhar o Benfica, o Sporting, etc. E senti que esta era uma grande oportunidade e agarrei-a sem hesitar. Relembro que foram 58 dias fora de casa, mas o momento era tão especial que confesso não senti qualquer cansaço. Cheguei ao México antes mesmo da nossa seleção, que seria eliminada após perder com Marrocos, e assisti, com o Vítor Santos, ao inesquecível Argentina-Alemanha, o jogo da final, no Estádio Azteca, na Cidade do México.
Um jogo inesquecível e a consagração de Diego Maradona como o melhor jogador do mundo…
Foi realmente marcante. Nessa altura, «A Bola» publicava lençóis de prosa e o Vítor Santos escrevia minuciosamente à mão os linguados, entregando-os a uma operadora de telexes que, por sua vez, reescrevia tudo o que ele redigira. Como deve compreender, com tudo isto fomos os últimos a abandonar o Estádio Azteca. Quando saímos não se via vivalma, e no meio de um imenso parque de estacionamento deserto, o Vítor Santos dá-me um abraço e diz-me: «Vítor, este é o momento da minha passagem de testemunho». Foi algo absolutamente mágico na minha carreira e que ainda hoje fico emocionado ao recordar.
O jornal «A Bola» foi durante décadas a grande referência dos jornais desportivos. No dia seguinte ao Portugal-Espanha, no Euro 2004, vendeu em banca cerca de 300 mil exemplares. 22 anos depois o digital domina e as vendas nos quiosques são residuais. O fim do papel é uma questão de tempo?
Sempre alimentei a convicção de que o papel nunca deixaria de ser complementar ao digital. Admito que não seja uma convivência muito fácil de manter, até para os próprios jornalistas, mas é necessária. A própria realidade social, demográfica e económica do país leva a que exista a tendência de encontrar soluções fáceis para o que é complexo. Talvez por isso, se esteja a seguir, precocemente, o caminho de acabar com o papel. Apesar de admitir que para uma administração de uma qualquer empresa deste ramo ser muito complicado arcar com os custos dos meios de produção, caso das gráficas, as tintas, o custo do papel, etc. Por seu turno, a questão da distribuição é outro aspeto muito sensível pelo custo que comporta, nomeadamente nas localidades no interior do país. Faz com que sejamos um país a duas velocidades, emergindo duas dimensões culturais, o que é dramático.
Nos últimos anos tem-se assistido à degradação do estatuto e credibilidade do próprio jornalista, devido à perda do seu papel de mediação, fruto dos condicionalismos financeiros e da forte concorrência das redes sociais. Perante este quadro, a verdade e o rigor são valores cada vez mais difíceis de alcançar em tudo o que lemos e ouvimos?
A verdade e o rigor custam muito dinheiro. Infelizmente, em muitas casos, são os próprios jornalistas que se têm, de alguma maneira, habituado e conformado, a um tipo de jornalismo simplista, menor e bacteriologicamente puro, em que o profissional exerce o seu trabalho sistematicamente sentado na redação. E, definitivamente, não pode. O jornalista, quando se justifica, tem de estar na rua, lidando e conversando com pessoas. O caminho não pode passar por jornalistas pé de microfone, que não questionam, não criticam e não levantam dúvidas. Este rumo é somente um aproximar perigoso ao que é a comunicação das redes sociais, muito levada pelo imediatismo e pelo instinto. Mas se o jornalismo quiser ser, nalgumas situações imediatista, tem de ter cuidados redobrados sobre aquilo que comunica. Em suma, o jornalismo encontra-se numa fase de decrepitude, mas se não for traçada uma linha entre o jornalismo e o que comunicam as redes sociais esta profissão pode, de facto, morrer. Apesar desta situação, saúdo o esforço que alguns países e órgãos de comunicação social estrangeiros estão a desenvolver para que o jornalismo e os jornalistas se transformem e se adaptem aos novos tempos e vivam uma nova existência. É o caso de grandes publicações norte-americanas que, em vez de regredirem, estão a aumentar as suas vendas, sem perderem de vista, bem pelo contrário, a aposta no digital. Apesar de tudo, são sinais de esperança.
O futuro para os que pretendem seguir esta carreira já foi mais risonho?
Falta na formação dos jornalistas existir gente com experiência, tempo e qualidade para poder esclarecer as suas dúvidas, a quem está a começar, na sua prática diária, pronunciando-se de forma elogiosa ou crítica sobre o trabalho. No jornal «A Bola» o jornalista Carlos Pinhão era este tipo de pessoa. Após ler uma crónica ou uma reportagem de um jovem jornalista, chamava-o ao seu gabinete e pedagogicamente explicava-lhe o que estava bem e o que era preciso corrigir. Um exemplo: o recurso a adjetivos ou superlativos é como o sal e a pimenta. Se pões demais a comida fica estragada. Em suma, a linguagem naturalmente eufórica em torno do desporto não deve ser utilizada em excesso, para não vulgarizar o que é verdadeiramente excecional.
Recentemente, foi professor de Comunicação na Universidade de Évora. Qual é o papel que as universidades podem desempenhar na formação?
Por vezes, os académicos têm dificuldades de adaptação aos novos tempos e realidades. Entendo que as escolas de jornalismo deviam funcionar como as faculdades de arquitetura, introduzindo muita componente prática. É, por isso, muito importante fazer rádio, televisão e jornais nas faculdades. Tal criaria um novo élan e uma nova capacidade para se entender um jornalismo novo. Se assim for, acredito que podemos estar otimistas relativamente ao futuro. Assim existam condições. Mas, já agora, deixe-me também sublinhar que, na minha opinião, as universidades devem preparar os jovens para terem capacidade de entender a formação na área do jornalismo regional, que se deve basear na proximidade. Quer na rádio, quer nas televisões, quer nos jornais. Seja numa vila, numa cidade ou numa região do interior do país. O que se passa é que vivemos uma crise dramática nesta área, após anos e anos em que estes meios de comunicação viveram de apoios privados. Basta cruzarmos a fronteira, para constatarmos que em Espanha a realidade é distinta, e os jornais regionais prosperam.
Defende uma aposta no jornalismo das regiões?
Sem dúvida. Penso que ao favorecer as regiões, contribuirá, por arrastamento, para o próprio desenvolvimento do país.
Vamos então falar do mundial de futebol. O primeiro que cobriu foi em 1986, tristemente célebre pelo «Caso Saltillo». Agora como espetador, como assiste aos primeiros dias do certame que se realiza nos Estados Unidos, México e Canadá? Concorda que está em curso a americanização do jogo do povo?
Sim, estamos perante uma americanização do futebol. Este desporto vai resistindo, muitas vezes, a algumas tentações, o que nem sempre é fácil. Fala-se muito da comercialização, mas essa não é uma questão de hoje. Todos nos recordamos, por exemplo, em 1996, quando os Jogos Olímpicos de Atlanta foram dominados pela Coca-Cola. Mesmo já retirado profissionalmente, e a observar o mundial do meu sofá, mantenho uma atitude muito crítica e de exigência. Acho que do ponto de vista da cobertura jornalística está a fazer-se pouca reportagem e a trabalhar nos mínimos. No dia em que falamos, já com o mundial em curso, os nossos jornais desportivos têm referências muito curtas ao mundial nas primeiras páginas, o que faz passar a ideia de que a seleção só vende no dia em que joga. E não deve ser necessariamente assim. Há maneiras interessantes de apresentar este tema ao leitor. E se o jornalista não encontrar, tem de esforçar-se e procurar melhor. O jornalismo deve, de alguma maneira, ser como a agricultura: semear, para colher mais tarde.
Por exemplo, em 1986, uma ida dos jogadores à praia nas traseiras do hotel seria notícia?
Penso que sim, mas podia juntar-se a essa notícia o contacto com vários tipos de especialistas para perguntar se esta atividade fará bem ou pode ter um impacto negativo nos atletas a poucos dias de jogos de alta competição. É bom porque tira stress? Retirar stress é assim tão bom? Pode influir no foco? Estas são interrogações pertinentes e que devem ser feitas a especialistas exteriores ao ambiente restrito da seleção. É informação desta natureza que o jornalista deve acrescentar e que vai mais além da mera imagem que pode ser captada pelo telemóvel de um banhista com os jogadores a mergulharem nas águas de Palm Beach.
104 jogos, 48 seleções, 38 dias de competição, quase sem interrupções, é o cardápio do Mundial 2026. É sabido que a FIFA e a própria UEFA sempre foram máquinas de poder e fazer dinheiro, mas não representa este modelo uma “overdose” para os adeptos e uma sobrecarga física para os atletas, em final de temporada? A indústria do futebol está a esticar a corda até aos limites? Haverá um dia alguém que diga basta?
Sim, certamente haverá um dia que alguém dirá basta e esse alguém é o jogador de futebol. Acredito que não estamos muito longe de um novo «Caso Bosman» (NDR: Um processo judicial histórico julgado pelo Tribunal de Justiça da União Europeia, em 1995), com os atletas a unirem-se para em uníssono dizerem que isto é um meio de vida e não um meio de morte. E as exigências de calendário estão a conduzir a situações muito complexas do ponto de vista da condição física humana e da capacidade de resistência dos atletas. O futebol deve ser protegido e os atletas também. Para além disso, o próprio adepto pode ficar à beira da saturação. Este modelo de mais de uma centena de jogos em pouco mais de um mês existe apenas por motivos económicos.
Os preços estratosféricos dos bilhetes atraem as elites para o interior dos estádios e o público em geral é relegado para as “fan zones” ou para o sofá de casa. Transformar este desporto num produto de luxo para elites pode provocar o divórcio entre o adepto comum e o futebol?
É uma ideia errada privilegiar uma elite económica dentro dos estádios, enquanto o cidadão comum, o chamado povo, espalhado pelos cinco cantos do mundo, fica nos sofás ou nas praças a assistir aos espetáculos. Perante isto, acredito que essa mudança de relacionamento entre o adepto e o futebol já começou. Basta, por exemplo, ver a forma como os clubes e os seus jogadores estão cada vez mais distanciados do contacto direto com os seus adeptos. Um jovem pode ficar horas à espera do seu ídolo e quando ele passa diante de si, se o ignorar, vai ficar traumatizado para o resto da vida. É esta relação que tem de ser cuidada. Os canais dos clubes e também o canal 11, propriedade da FPF, são responsáveis por introduzir uma certa desumanização na relação com o adepto, visto que as perguntas aos protagonistas são estudadas e combinadas previamente para que nada se afaste do figurino.
Os êxitos desportivos do PSG e do Manchester City e a transferência de Cristiano Ronaldo para a Arábia Saudita são marcos emergentes da entrada dos capitais árabes no mundo do futebol. Isto acelerou a transfiguração deste desporto?
É palpável e visível a Influência que o capital árabe representou para o futebol. Não é por acaso que o PSG é duplamente campeão europeu. Paris nunca foi uma cidade de futebol, mas sempre foi conhecida pela arte e a cultura. Por outro lado, um país árabe, o Qatar, pagou para acolher um mundial, em 2022, no mês de dezembro, uma época estranha. E em 2034 o mundial regressa aquela zona do globo, mais concretamente à Arábia Saudita. Os petrodólares também continuam a atrair muitos futebolistas, como foi o caso de Cristiano Ronaldo, para aquelas paragens. Se esta tendência se intensificar, os restantes continentes, em particular a Europa, perderão capacidade para gerar e reter novos talentos e novas estrelas. É este contexto que transmite a ideia que o mundo do futebol está a transformar-se num espaço privilegiado das elites financeiras.
Voltando ao mundial, não temos a seleção italiana, mas temos Curaçau, Haiti, Jordânia e Uzbequistão, o que torna este certame cada vez menos seleto. Corre-se o risco de qualquer dia perguntar para que serve a fase de qualificação?
Sim, mas também se pode perguntar para que é que serve a fase de grupos do mundial, em que cerca de um quarto das seleções serão apuradas para a fase a eliminar. Acho que este modelo não favorece muito o futebol. A propósito da ausência da Itália, o jornal «La Gazzetta dello sport» fez no outro dia uma primeira página muito curiosa em que titulava: «Todo o mundo, menos nós». De facto, é uma pena para eles, e também para todos nós, pelo terceiro mundial consecutivo.
Portugal foi terceiro no mundial 1966, quarto no mundial 2006 e campeão no europeu 2016. O 6 de 2026 será talismã para a nossa seleção? Acredita que somos candidatos, mas não favoritos?
É uma frase simples, mas correta. Normalmente coloca-se o rótulo de favorito a quem já foi campeão do mundo, o que não é o caso do nosso país. Mas estamos no lote dos candidatos. Ser campeão do mundo depende de muitos fatores, a começar pela capacidade de adaptação demonstrada ao longo da prova, bem como a capacidade de superação exibida caso se chegue a uma meia-final ou até ao jogo decisivo. Quero recordar que em 2016 fomos campeões europeus após uma fase inicial medíocre, com três empates. Antevejo uma prova muito aberta, mas se tivesse de apostar num favorito diria a Argentina. Por duas razões fundamentais: é a campeã do mundo em título e joga no continente americano.
Aos 41 anos, como será o último mundial de Cristiano Ronaldo?
Cristiano Ronaldo é uma mais-valia, é uma experiência grande, e uma liderança forte que se ganha. Mas há contras e é preciso sentido de equilíbrio e bom senso. Se imperar a lógica «isto é o Cristiano e mais 10», vai correr mal. Também não será bom se a equipa jogar para ele e não com ele. Tem havido um certo pudor em gerir a sua capacidade competitiva e de esforço. Penso que se jogar mais de 60 minutos por jogo será uma decisão disparatada.
A CARA DA NOTÍCIA
«A crónica do adeus»
Vítor Serpa nasceu em Lisboa, a 9 de dezembro de 1951. Chegou a frequentar o curso de Medicina, nos finais dos anos 60, mas o jornalismo desviou-o, muito cedo, da Universidade, tendo entrado para o quadro de jornalistas colaboradores do «Diário Popular», em 1969. Em 1974 foi contratado para os quadros profissionais do jornal «A Bola», onde foi redator, chefe de redação, tendo sido nomeado para diretor em fevereiro de 1992. Esteve 30 anos como diretor nas históricas instalações do jornal na Travessa da Queimada, n.º 23, no Bairro Alto, em Lisboa. A 7 de setembro de 2024 escreveu o seu último artigo no jornal a que deu o nome «A crónica do adeus». Foi vice-presidente da European Sports Media. Paralelamente, tem escrito vários livros e foi docente de cursos universitários na área da comunicação.