O poeta cubano Luís Boitel venceu a última edição do Prémio Internacional de Poesia António Salvado – Cidade de Castelo Branco, com o livro “Las Tentaciones Griegas”. A obra teve a sua edição em língua portuguesa traduzida por Luís Norberto Lourenço – o professor e tradutor português que também entrevistou o escritor cubano.
A viagem pela poesia, mas também pelo percurso de um dos mais conceituados poetas cubanos, que em pequeno gastava o dinheiro da ‘merenda’ na compra de livros, é escrita por Luís Norberto Lourenço, a partir de uma entrevista escrita em castelhano.
Como foram os teus inícios na literatura?
Desde pequeno que me chamou à atenção ler, lembro-me que utilizava o dinheiro da merenda escolar para ir à livraria e adquirir livros, sempre me chamou à atenção os livros ilustrados, era como uma viagem à fantasia da vida. Também por essa etapa ia com muita frequência à biblioteca de Remedios e passava horas lendo e vendo alguns textos que me cativaram. Encontrava na leitura um verdadeiro reino de prazer e surpreendia-me descobrir autores que não conhecia, sem perceber que o tempo passava rápido, e a minha mãe incomodava-se quando chegava tarde da escola por fazer uma paragem na biblioteca ou na livraria.
Creio que essas estadias nutriram o meu universo. A infância foi uma etapa de magias na minha vida. Sentia que os livros desprendiam até um cheiro muito característico, e gostava de repassar cada linha dos contos que li ou cada poema que descobria. Estive numa oficina literária que dirigiu Yolanda Melillo, e era um mundo fascinante ouvir criações sobre reis e heróis de outras crianças, encontrar-me no meio de um espaço onde só se falava de literatura. Foi uma etapa onde tudo me chamou à atenção, e foi quando descobri essa fascinação pelos livros.
O que significou para ti ganhar o Prémio Internacional de Poesia António Salvado, Cidade de Castelo Branco?
Estive a seguir o prémio desde a primeira convocatória. Cada prémio pelo nome, quase sempre presta uma homenagem merecida a poetas importantes e apercebi-me de que o prémio era muito transparente e significativo pela quantidade de escritores que participavam e pelos títulos das obras vencedoras. Foi com essa busca que conheci a obra de António Salvado, e achei maravilhoso esse modo de lhe prestar homenagem em Castelo Branco, pelo que me motivei a participar. Estamos a falar de um homem que mais do que um escritor foi um grande intelectual num país como Portugal, país que, aliás, tem uma tradição incrível na literatura, que tem grandes poetas.
Estes elementos motivaram-me muito a enviar um livro para o concurso. Tratava-se de um livro de poemas que para mim era especial, pois brincava com a cultura helénica e a sua mitologia e eu tinha a sensação de que poderia ser interessante para o júri. Esse particular conferia certa hermeticidade ao livro que apresentava, mas também tornava-o muito complexo pela redação desses poemas, e pela necessidade de brincar com a grande cultura desse país de uma forma muito especial, brincando também com a poesia neoclássica grega, o que poderia augurar-lhe uma grande significação para o livro.
Foi realmente um desafio, mas queria oferecer um livro de poemas que fosse suficientemente interessante e particular, que chamasse a atenção de quem o lesse, que ilustrasse a mitologia e a cultura desse país e posicionasse a grande poesia grega. Tive a sorte de ter estudado em História Geral a tradição grega, os acontecimentos mais significativos e brinquei com tudo o que conhecia desse universo, além de brincar com os próprios poetas gregos. Foi um grande divertimento escrevê-lo, mas também uma necessidade de apresentar um livro diferente neste concurso, um livro que procurasse uma linguagem mais transcendente e humana ao mesmo tempo.
Quando me deram a notícia de que tinha ganho o Prémio, não consegui acreditar. Senti muita satisfação ao saber da decisão com a possibilidade de publicar em Portugal, que o leitor desse país tivesse um livro meu, e que fosse bilingue, realmente não conseguia acreditar. Depois fiquei muito feliz com a belíssima edição que fizeram do meu livro de poemas. Sinceramente, estou muito agradecido. Para mim, isto que aconteceu, de ganhar um prémio com estas características, é algo maravilhoso, juntamente com a honra de conhecer o quanto fazem pela obra de António Salvado, em Castelo Branco, que é algo mágico e ainda mais pensar que, com este livro de poemas que intitulei Las tentaciones griegas. Poemas a Patroclo, prestava um merecido reconhecimento a António, que também amou e conheceu a cultura helénica.
Como se faz para publicar em Cuba, tendo em conta o bloqueio económico dos Estados Unidos da América, os problemas energéticos, entre outros?
Tenho sido um autor cubano que teve sorte com as publicações dos meus livros, já tenho mais de 40 livros de poesia publicados, não apenas em Cuba, mas também em outros países.
Muitos deles receberam alguns prémios literários importantes e até me permitiram viajar para outros países onde interagi com os jurados, com poetas dessas regiões e com o povo. Também tenho visto a beleza e a dedicação com que assumiram a publicação da minha obra, diversas editoras que realizaram um trabalho excelente. Neste momento, a Editorial Dalya em Espanha, e El Arco & La Flecha Editores, no México, estão a publicar vários livros meus e as edições são lindas, pessoas maravilhosas que se interessaram pela minha obra. Sinceramente, tenho sido um autor afortunado nesse aspeto.
Em Cuba, também tenho recorrido aos prémios literários, muitas vezes, mas certamente a opção de publicar livros neste país torna-se difícil pela razão que mencionas. Há muitas dificuldades nos fornecimentos de papel, tintas e máquinas que hoje continuam a ser rústicas, pois a impressão de livros continua a ser manual, com os desafios que a própria tecnologia implica. Muitas gráficas em Cuba poderiam estar num museu de antiguidades ao possuírem máquinas com as quais é muito difícil trabalhar, que nem têm peças de substituição.
Na década de 90 foram fundadas as editoras nas províncias, o que deu a opção de não ter que publicar apenas em selos editoriais de Havana, no entanto, nos últimos anos a edição dos catálogos provinciais tem atrasado devido à carência de matéria-prima. Atualmente, há dias em que só há eletricidade durante duas horas e tudo se torna muito difícil. Existe uma grande dívida editorial com os autores a quem se aprova publicar, neste momento utiliza-se a opção de publicar não em suporte de papel, mas como Epub para que os leitores possam, a partir de uma plataforma virtual, seguir o seu escritor preferido, mas o desafio e o custo são muito elevados.
Além disso, digo-te que também se afeta a quantidade de exemplares que se imprimem. Comumente faz-se uma tiragem de mil exemplares, isso se tiveres em conta as bibliotecas e que o povo cubano é um povo culto, quase não significa nada para posicionar um livro, para que se leia, para que exista um acesso pleno. Por isso decidi, há anos, enviar para prémios literários e apostar na publicação em outros países.
No entanto, o impacto do bloqueio a Cuba pelo governo dos Estados Unidos torna-se mais sentido na saúde, quando falta num hospital um químico para dar quimioterapia a uma criança que a necessite, ou um medicamento de primeira geração que não se pode adquirir. O tecido social no meu país é muito complexo nesta altura, e quem não o vive, no seu dia-a-dia, não sabe do que estou a falar. Pelo menos para a população comum, torna-se muito difícil enfrentar esse desafio, inclusive por vezes entristece, causa angústia, saber que nesta mesma hora uma criança pode morrer pela falta de algum medicamento, de um reagente, de um equipamento médico que não se tenha. É uma verdadeira calamidade.
O que representa para ti ter sido publicado em vários países e traduzido a vários idiomas?
Como te dizia, a opção de ter novos leitores é o que representa. Considerar que é algo maravilhoso que, quando alguém estiver a pensar num novo livro ou dedicado à rotina do dia, imaginar que alguém possa estar a ler a tua poesia em qualquer parte deste mundo. Há ocasiões em que as pessoas procuram nas redes sociais e escrevem-te para fazer alguma pergunta, para que revises os seus textos ou lhes dês algum conselho. Essa opção de chegar a outros leitores é muito peculiar, unida à opção de ver até mesmo os teus livros em outras editoras, em formatos muito bonitos, que no caso da poesia, pessoalmente, agradeço muito, pois penso que este género literário requer uma maior entrega, pelo menos para cativar mais leitores potenciais.
Sempre, por exemplo, os livros bilíngues se agradecem muito. Eu sou muito mau com os idiomas, infelizmente, não acredito que pudesse escrever um poema em inglês, nem em português, por isso, quando os livros são publicados nesse formato, agradece-se sempre muito.
Entre a poesia, a pintura e a advocacia, se pudesses dedicar-te a 100% a uma, fa-lo-ias?
Quando era criança estudei pintura, e deu-me para retomar a possibilidade de pintar, acho que tem sido uma grande necessidade para interagir de outra forma com a poesia. A poesia é um grande cosmos, um universo pessoal do qual não conseguirei separar-me, temo muito distanciar-me da poesia e acabo sempre por voltar a ela. Estudei a Licenciatura em Direito na Universidade Central de Las Villas e licenciei-me em 1996 com diploma de ouro, fiz estudos posteriores até chegar a ser Mestre em Ciências, mas uma especialidade como esta no meu caso proporcionou-me uma cultura extraordinária, uma visão muito humanista, no entanto, continuo a exercer esta profissão, e exijo-me cada vez mais.
Acredito que tudo na minha vida são complementos, tanto a prática da especialidade, como poder pintar, neste momento estou a fazer um doutoramento em ciências filosóficas, e acredito que são opções que me permitem superar-me, crescer na vida, mas antes de tudo ser feliz. Defendo essa felicidade, essa opção de sentir-te plenamente, de te encontrares livre para decidir. Por isso, acredito que dedicaria todo o tempo a tudo o que faço. É que desfruto do que faço, amo tudo o que faço, sinto que há mundos fronteiriços que me permitem seguir em frente, adentrar-me nessa vocação de entrega a lugares inesperados, onde a poesia é a grande cidade ou a grande ponte.
Neste momento eu poderia perguntar a mim próprio, como me recordarão as pessoas próximas, os amigos ou as pessoas que saibam da minha obra… Alguns dirão: ─Boitel, sim, o poeta advogado ou o poeta pintor… quem sabe.
Até penso, e comento-te isto vendo que há certos escritores que não vivem o suficiente porque pensam que encerrados numa sala se esquecem de tudo e se dedicam apenas a escrever em suas casas. Que é necessário assumir a experiência sincera e livre do instante, para depois fazer literatura. Acredito que não teria conseguido ser poeta sem esse empenho de assumir o justo e o correto no que faço como operário do Direito, que o meu mundo requer esses desenhos que faço para me aprofundar em outros universos. Também considero que é necessário viver para que a poesia seja suficientemente sincera até consigo mesmo, e poder receber outras experiências que não sejam apenas do plano intelectual.
Confesso-te que sou feliz por ser um escritor, por saber que os meus livros se publicam em vários países, por ter um grupo de amigos que me ligam e querem saber de mim. É algo mágico a sorte que tenho tido de escrever poemas, pois neles também me encontro e me reconheço. Hoje tenho cerca de 16 livros inéditos, e continuo a escrever com a ideia de que não escrevi nada, que sou um aprendiz. Sou feliz porque o que escrevo representa a minha verdade e a minha beleza, até que Deus queira.
Há autores que escrevem zangados, outros que preferem não escrever quando estão zangados. Motiva-te mais criar, seja pintar ou escrever poesia, quando te sentes feliz ou triste?
Acho que se pode escrever tanto zangado como feliz, o importante é que o que escrevas seja suficientemente sincero e necessário na tua vida, assim como o atraente que possa ser para o leitor. É preciso viver a partir da diversidade do ser, e a vida tem vários momentos para o conseguir.
Numa certa ocasião, tive um vizinho que punha a música alta, era música de discoteca, eu realmente não tenho nada contra essa música, mas as pessoas por vezes não entendem que cada género musical tem o seu espaço e que uma coisa é a música e outra é criar escândalo com ela. No entanto, com o tempo tornou-se-me indiferente, pois o que eu considero é que é necessário ter um estado de criação muito marcado para escrever, sentir-se à vontade, dedicar o tempo necessário para que o texto seja um território de constante superação.
Para quem escreves?
Escrevo para o leitor, como um ato de superação da minha poesia anterior, para só assim lhe oferecer o melhor de mim. Escrevo para uma personagem anónima, que possa reconhecer-me nesta contemporaneidade, de sentir como eu estas brechas que a existência oferece. Sentir que tenho sede, que me consterno, que tremo por vezes, que sou imperfeito, que sou também um grande perdedor, mas que sou capaz de subir uma montanha, de me sentar a contemplar a primavera.
Escrevo por uma grande necessidade de me encontrar com o meu outro Luis Manuel Pérez Boitel, que bate à porta e ainda não conhece nada de mim, mas reclama que lhe escreva, e termina por me abraçar. Escrevo para chegar a conhecer esses territórios que ainda não conheço na sua plenitude, mas onde posso viajar, adentrar nos seus céus e compreender que sou um homem que teve de viver entre finais de um século e princípios de outro, e isso não poderei mudar.
Cara da notícia
Vencedor de muitos prémios
Luís Manuel Pérez Boitel (Remedios, Villa Clara, Cuba, 1969), advogado, poeta, crítico e pintor cubano foi o vencedor na língua castelhana do “Prémio Internacional de Poesia António Salvado Cidade de Castelo Branco”, na 4.ª edição, em 2024, com a obra “Las Tentaciones Griegas”, publicada em edição bilingue, português e espanhol, pela Labirinto, com tradução para o português por Luís Norberto Lourenço. Boitel é membro da Unión Nacional de Escritores y Artistas de Cuba, membro de Honor da Unión Hispanoamericana de Escritores e membro da Sociedad de Escritores Latinoamericanos y Europeos. Obteve a Distinción por la Cultura Cubana do Ministério da Cultura da República de Cuba. Recebeu uma vintena de prémios internacionais, entre eles: o Prémio Casa de las Américas en Poesía (2002), o poemário Aún nos pertenece el otoño, o Prémio Internacional de Poesia Nosside Caribe (Itália, 2004), o livro No llames a la noche (2005) obteve o Prémio Internacional Desiderio Macías Silva em Guanajuato, o Prémio Internacional de Poesia Bambamarca Voces de la Tierra (Caracas, Venezuela, 2010), o Prémio de Poesia dos I Juegos Florales de Tegucigalpa (Honduras, 2011), o poemário Hay quien se despide en la arena (2011), em 2013 obteve o Prémio Internacional de Poesia em Língua Espanhola “Manuel Acuña” da Secretaria de Coahuila no México, o poemário Artefactos para dibujar una nereida, pela sua trajetória na poesia e pela sua qualidade e claridade poética, recebeu em 2023 o Prémio de Literatura em Espanhol Ernest Hemingway. Livros de poesia: Unidos por el agua (Editorial Capiro, 1997), Los inciertos dominios del escriba (Editora Abril, 1999), Bajo el signo del otro (Editorial Letras Cubanas, 2000), La oración del inquilino (Editorial Sed de Belleza, 2001), Aún nos pertenece el otoño (Editorial Casa de las Américas, 2002. Segunda edição na Editorial Capiro, 2018), Para no quedar en el andén (Editora Capiro, 2002), Nunca preguntes por la gloria (Editorial Letras Cubanas, 2003), No pidas el perdón (Editorial Sed de belleza, 2004), Antes que la noche acabe: Antología personal (Editorial Monte Ávila Editores, 2005), En esta extraña circunstancia (Editorial La cuadrilla de la langosta, 2005), Ciudades del invierno (Editorial Ediciones Ávila. 2005), No llames en la noche (Editorial Azafrán y cinabrio, 2005), Memorial de invierno (Editorial Casa de Teatro, 2006), La sagrada estación (Editorial Capiro, 2006), Un mundo para Nathalie (Editorial Cauce, 2007), Las naves que la ausencia nombra (Editorial La Garúa Libros, 2008), Conversaciones con máscara (Litera Libros, 2009), Hay quien se despide en la arena (Editorial La Ronda, 2010), Algo parecido a un ciprés (Editorial Cadelpo, 2011), Artefactos para dibujar una nereida (Editorial Secretaría de Cultura de Coahuila, México, 2014. Segunda edición, Editorial Letras Cubanas, 2018), Un hombre errante (Editorial Capiro, 2015), Cartas de Rilke (Ensaio, Editorial Capiro, 2015), La isla invertebrada. Antología de poetas cubanos, selección, nota y prólogo de Pérez Boitel (Editorial Capiro, 2018), Mecánica sobre el ciudadano A (Editorial Vigía, 2018), El libro de los hijos de Lev (Ediciones El fortín, 2019), El libro de la rosa muerta (antologia pessoal, El Arco & la Flecha Editores, 2022). Tem obra traduzida para: holandês, francês, inglês, italiano e português.