Este website utiliza cookies que facilitam a navegação, o registo e a recolha de dados estatísticos.
A informação armazenada nos cookies é utilizada exclusivamente pelo nosso website. Ao navegar com os cookies ativos consente a sua utilização.

Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXVIII

Maria João Valente Rosa, demógrafa 'A imigração tem sido essencial para moderar e contrariar o declínio demográfico'

13-07-2026

O novo retrato do país que ultrapassou os 11 milhões de residentes, o envelhecimento da população, a baixa natalidade e o fenómeno do idadismo, tópicos para uma conversa atual com Maria João Valente Rosa. A investigadora defende ainda que a demografia tem vindo a perder espaço no ensino superior em Portugal.

A 22 de junho, o Instituto Nacional de Estatística (INE) atualizou o número de residentes em Portugal para 11.424.031 pessoas, tendo contabilizado 1.597.539 estrangeiros. Como classifica este marco histórico?

Este é, de facto, um marco histórico para Portugal, por duas razões fundamentais. Em primeiro lugar, pela profunda mudança metodológica na forma como o Instituto Nacional de Estatística estima a população residente. Em segundo lugar, porque revela que o país já tem mais de 11 milhões de residentes. Dito isto, importa deixar duas advertências. A primeira é metodológica. A adoção desta nova abordagem, que passou a basear-se na exclusiva utilização e integração de dados de diferentes fontes administrativas, constitui uma verdadeira reforma estatística e implica uma quebra de série, o que exige prudência na comparação destes resultados com as estimativas produzidas segundo a metodologia antiga. A segunda diz respeito à interpretação dos dados. O aumento agora divulgado não significa que Portugal tenha, de um momento para o outro, passado a ter muito mais população e muito mais estrangeiros residentes. Significa, antes, que os instrumentos estatísticos antes usados subestimavam a realidade demográfica do país.  

O facto de os estrangeiros representarem 14 por cento do total da população residente coloca-nos a par com o que se passa noutros países da União Europeia?

Coloca-nos próximos das percentagens observadas em muitos países com os quais habitualmente nos comparamos, como a Alemanha, a Bélgica, a Espanha ou a Irlanda. 

Os eleitores suíços rejeitaram em junho, em referendo, uma iniciativa da direita radical para limitar a população a 10 milhões até 2050. Mesmo sendo a Suíça um país que recorre com bastante frequência a estas consultas populares, como comenta esta iniciativa política?
Vejo essa iniciativa com bastante ceticismo, tanto do ponto de vista demográfico, como socioeconómico. Não existe um "número ideal" de habitantes que, por si só, torne um país mais equilibrado, mais próspero ou mais sustentável. Se olharmos para países com dimensões territoriais relativamente semelhantes à Suíça, como os Países Baixos ou a Dinamarca, encontramos dimensões populacionais distintas: o primeiro país tem cerca do dobro da população da Suíça, enquanto o segundo tem aproximadamente 2/3. Apesar disso, os países mencionados apresentam níveis elevados de desenvolvimento e de qualidade de vida. A questão, portanto, não é quantos habitantes um país deveria ter, mas sim como consegue assegurar condições para que a população viva e trabalhe com qualidade. Ideias do género da que suporta o referendo surgem frequentemente em contextos de maior pressão sobre áreas como a habitação, os transportes ou os serviços públicos. Contudo, os problemas decorrentes têm causas complexas que não se resolvem com soluções simples ou números supostamente “milagrosos”, como a fixação de um limite arbitrário de habitantes. Aliás, se o objetivo desta proposta for, na prática, limitar a imigração, considero que ela ignora desafios estruturais que afetam a maioria das economias europeias. Num contexto de envelhecimento demográfico e de baixa fecundidade, restringir a entrada de imigrantes tem vários impactos como o de agravar a escassez de mão de obra, o de reduzir o potencial de crescimento económico e o de aumentar a pressão sobre os sistemas de proteção social, para além do seu efeito óbvio na dinâmica populacional.

A queda na natalidade continua a fazer-se sentir no nosso país. A imigração é, cada vez mais, uma imperiosa necessidade demográfica para Portugal?

Sim. Nas atuais condições demográficas, a imigração constitui um dos principais fatores que permitem compensar a tendência de declínio da população residente em Portugal, embora não seja, por si só, suficiente para responder a todos os desafios demográficos do país. A realidade é que Portugal regista, desde 2009, um saldo natural persistentemente negativo: o número de nascimentos é insuficiente para compensar o número de óbitos. Esse défice seria ainda maior sem o contributo das mulheres estrangeiras residentes em Portugal, cujo peso nos nascimentos tem vindo a aumentar. Ainda assim, esse contributo não é suficiente para inverter o saldo natural negativo. Na realidade, o aumento da população residente observado nos últimos anos só tem sido possível graças ao saldo migratório positivo, isto é, porque o número de entradas no país supera o número de saídas num volume capaz de compensar o défice entre nascimentos e óbitos. Em suma, a imigração tem sido essencial para moderar, e em certos períodos contrariar, a tendência de declínio demográfico. Além disso, por se concentrar sobretudo em pessoas em idades ativas, também tem contribuído para atenuar (embora não evitar) os níveis de envelhecimento da população.

Na maior parte dos países da Europa, Portugal incluído, o recrutamento e integração de imigrantes, é o elefante na sala. Em nome do interesse nacional, devia haver uma linha de continuidade na política seguida no apoio e acolhimento dos imigrantes?

Penso que sim. Independentemente das legítimas diferenças entre governos quanto à política migratória, é desejável que exista uma linha na política de regular as migrações e de integração dos imigrantes. Muitos imigrantes encontram-se numa situação particularmente vulnerável. A incerteza quanto às regras de entrada, permanência ou regularização gera insegurança e pode levar algumas pessoas a optar por outros destinos. Existem, aliás, já sinais de que alguns imigrantes em Portugal estão a optar por prosseguir o seu percurso migratório noutros países europeus, como Espanha. O paradoxo é que Portugal, à semelhança de outros países europeus, necessita de imigrantes para o funcionamento da economia e da sociedade.

A questão da habitação e o aumento do custo de vida são fatores determinantes para o recuo da natalidade. Que contributos podiam dar as políticas públicas articuladas e consistentes para a recuperação da fecundidade?

A habitação e o custo de vida condicionam hoje as decisões de muitos casais, mas seria redutor explicar a baixa fecundidade apenas por esses fatores. Não é realista esperar que Portugal, tal como os outros países europeus, volte a atingir níveis de fecundidade próximos do limiar de substituição de gerações (2,1 filhos por mulher). Como costumo dizer, «o maior contracetivo é o desenvolvimento». À medida que as sociedades se tornam mais desenvolvidas, a fecundidade tende a baixar. Isso não significa, porém, que nos países de baixa fecundidade, o número de filhos que as pessoas efetivamente têm não possa aumentar moderadamente, aproximando-se do número de filhos que desejam ter. Em Portugal, um dos maiores desafios está na transição para o segundo filho. Mais do que políticas de natalidade, frequentemente associadas a incentivos pontuais ou prémios financeiros, importam reformas sociais, cujos efeitos na natalidade dificilmente se farão sentir no curto prazo, e que devem ser sustentadas para além dos ciclos eleitorais. Refiro-me a políticas públicas mais amplas que criam condições favoráveis para que as pessoas concretizem os seus projetos de parentalidade, como, por exemplo, a promoção da igualdade entre mulheres e homens no mercado de trabalho e na partilha das responsabilidades domésticas e parentais, a efetiva conciliação de tempos entre a vida profissional e familiar ou a valorização do trabalho dos mais jovens.

Portugal é um país onde o índice de envelhecimento demográfico não cessa de crescer, ainda que atenuado pelo reforço relativo da população em idade ativa. Esta é uma tendência inelutável e que obriga a mobilizar, muito rapidamente, infraestruturas de apoio e acolhimento aos nossos seniores?

Embora os níveis de envelhecimento da população possam ser atenuados no imediato pela imigração, é difícil inverter essa tendência, pelo menos a médio prazo. As gerações nascidas em períodos de elevada natalidade, que beneficiaram de ganhos muito significativos na esperança de vida, estão progressivamente a atingir idades mais avançadas. Mas o envelhecimento, pelas causas que o motivam como as melhores condições de saúde, não é uma doença. Contudo, a necessidade de infraestruturas de apoio será cada vez maior para responder a situações de perda de autonomia, de necessidade de cuidados de saúde complexos ou mesmo de solidão social não desejada, por parte das pessoas mais idosas. Lembro que muitas das pessoas que estão hoje nesta fase não esperavam viver tanto e, como tal, não se preparam, mesmo em termos financeiros, para períodos muito difíceis que podem acontecer no final da vida. Quanto às futuras gerações de pessoas mais velhas, embora já saibam que podem esperar viver mais tempo, contarão com redes de apoio familiar cada vez mais reduzidas e nem sempre reúnem condições no presente para planear o seu futuro.

O outro lado do aumento da esperança média de vida é que as pessoas também estão ativas até mais tarde, mantendo a competência e a experiência, para trabalhar mais anos, mesmo acima da idade legal estabelecida para a reforma. O que acontece é que as entidades públicas e as empresas não valorizam este capital humano. O idadismo é uma forma subtil de discriminação?

Sim. À medida que a esperança de vida aumenta e a saúde melhora, aumenta o número de pessoas nas idades superiores que mantêm a capacidade física e cognitiva, a experiência e a vontade de continuar ativas para além da idade legal de reforma. No entanto, persistem estereótipos que associam mais idade a menor produtividade, menor capacidade de adaptação ou menor interesse em aprender e trabalhar. É precisamente aqui que o idadismo se manifesta. O idadismo é uma forma de discriminação baseada na idade cronológica, quando avaliamos os outros (ou até a nós próprios) a partir desse único atributo, como se ele resumisse o valor, as capacidades ou o potencial de cada pessoa. E custa muito à sociedade e à economia. A experiência acumulada, o conhecimento institucional, a capacidade de decisão e a transmissão de saberes entre gerações, bem como as redes de relacionamento e o conhecimento tácito constituem recursos valiosos, com sérios custos sociais e financeiros se desperdiçados. O World Economic Fórum, num relatório recente (junho de 2026), refere que se estima que os países da OCDE venham a sofrer perdas de produtividade de quase 500 mil milhões de dólares até 2040, devido ao subemprego e ao desemprego entre adultos com 55 anos ou mais, em comparação com os trabalhadores mais jovens.

A série documental disponível na Netflix intitula-se «Como Viver até aos 100: Os Segredos das Zonas Azuis» e acompanha uma viagem global para descobrir como algumas comunidades (localizadas no Japão, Itália, Estados Unidos, Grécia e Costa Rica) alcançam níveis extraordinários de longevidade e vitalidade. O que faz destas comunidades diferenciadas? Acredita que, em breve, poderão surgir outras “zonas azuis” no mundo, inclusive em Portugal?

O que distingue estas comunidades não é apenas o facto de as pessoas viverem mais anos, mas sobretudo viverem mais anos com boa saúde e qualidade de vida. A investigação sobre as chamadas “zonas azuis” sugere um conjunto de fatores comuns entre elas: alimentação equilibrada, atividade física incorporada no quotidiano, baixas taxas de sedentarismo, fortes laços comunitários, ambientes físicos e sociais que favorecem escolhas saudáveis, bem como um sentido de propósito de vida. Nestas comunidades, a saúde não resulta de uma intervenção isolada, mas de um modo de vida global que combina fatores biológicos, sociais, culturais e ambientais. A longevidade é, por isso, um produto coletivo e não apenas individual. É possível que, no futuro, surjam outras “zonas azuis” como aquelas que a investigação identificou, incluindo em Portugal. Mas isso exigirá políticas e contextos que favoreçam estilos de vida saudáveis, combatam a solidão social e promovam a participação das pessoas ao longo de todo o ciclo de vida. O envelhecimento saudável e a longevidade vivida de forma plena requerem, assim, um investimento financeiro, em saúde, em relações sociais, em formação e em sentido de propósito, em todas as fases da vida, e não na sua última etapa.

A Inteligência Artificial (IA) está em todo o lado e a implantar-se em todos os quadrantes da sociedade. Do ponto de vista da demografia que impactos antecipa fruto da imparável sofisticação tecnológica?

A demografia não ficará imune às transformações que as novas tecnologias, incluindo a inteligência artificial (IA), trazem na forma como vivemos, como envelhecemos, trabalhamos, constituímos família e nos relacionamos com os outros. Apesar de toda a incerteza nos seus impactos, podem contribuir, por exemplo, para aumentar a esperança de vida através de avanços na prevenção, no diagnóstico precoce e na medicina personalizada. Poderão também reforçar a autonomia das pessoas mais velhas e de indivíduos com problemas graves de saúde, através de sistemas de monitorização e assistência inteligente que favoreçam a permanência nas suas comunidades por mais tempo. No domínio da fecundidade, a transformação do mercado de trabalho, a maior flexibilidade laboral e os avanços da medicina reprodutiva poderão influenciar as decisões sobre ter filhos, quando os ter e em que condições. Da mesma forma, a expansão do trabalho remoto e da economia digital poderá alterar os padrões de mobilidade e reduzir a dependência da localização física para estudar ou trabalhar. Num contexto de envelhecimento demográfico e de escassez de mão de obra, a evolução tecnológica poderá também aumentar a produtividade e automatizar mais tarefas, atenuando alguns dos efeitos da redução da população em idade ativa, embora dificilmente substitua a necessidade de pessoas em muitos setores. Contudo, a evolução tecnológica poderá não se saldar apenas em benefícios. Existe, por exemplo, o risco de agravamento das desigualdades entre grupos populacionais e territórios, em função do acesso diferenciado às tecnologias e às competências digitais. O grande desafio será, portanto, garantir que os ganhos proporcionados pelos avanços tecnológicos contribuam para uma maior longevidade, bem-estar e inclusão, e não para novas formas de exclusão social.

Num encontro recente, os presidentes russo e chinês, Vladimir Putin e Xi Jinping, respetivamente, foram filmados a discutir a possibilidade de prolongar a vida humana e alcançar a imortalidade através de avanços biotecnológicos e transplantes de órgãos. O líder chinês estimou que a esperança média de vida poderá atingir 150 anos neste século. Este cenário é real ou digno de ficção científica?

Apesar dos extraordinários progressos da medicina e da biotecnologia, não existe atualmente evidência científica de que a esperança de vida humana possa atingir os 150 anos neste século. É verdade que existe consenso científico sobre a existência de um limite máximo para a longevidade humana. Contudo, enquanto alguns cientistas defendem que esse limite poderá ser superior ao que hoje imaginamos, e ficar mesmo próximo dos 150 anos, outros consideram que a espécie humana já está próxima do seu teto biológico. Porém, o que até ao momento conhecemos é que o recorde documentado de longevidade humana continua a pertencer a Jeanne Calment, que viveu 122 anos e 164 dias, tendo morrido em 1997.

Como investigadora e docente que há várias décadas acompanha de perto estas matérias, tendo também sido diretora da Pordata, como avalia as investigações levadas a cabo pelos centros de saber, nomeadamente as universidades? Que áreas da Demografia exigiriam mais estudos?

Apesar do trabalho de qualidade que tem vindo a ser desenvolvido por vários investigadores, paradoxalmente, numa altura em que os desafios demográficos ocupam um lugar central no debate público, a Demografia tem vindo a perder espaço no ensino superior em Portugal. Isso preocupa-me bastante, porque a "escola" nesta área está a perder massa crítica e a renovar-se insuficientemente. Por isso, diria que há um importante passo a dar no sentido de reforçar a formação em Demografia e criar condições para atrair novos investigadores. Quanto aos grandes desafios da investigação nesta área destaco a interação da Demografia com outras áreas do saber como a Economia, a Saúde, a Sociologia, a Matemática, a Computação, a Geografia, o Ambiente, entre tantas outras. Essa partilha muito beneficiará a compreensão necessária, por exemplo, dos processos e impactos associados à chamada “segunda transição demográfica”, a fase em que se encontra grande parte das sociedades contemporâneas mais desenvolvidas.

 

A CARA DA NOTÍCIA

Ex-diretora da Pordata

Maria João Valente Rosa nasceu em Lisboa, a 27 de maio de 1961. É demógrafa, investigadora e professora universitária da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL). Dirigiu durante 10 anos a Pordata – Base de Dados de Portugal Contemporâneo, um projeto da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Assegurou a representação nacional em várias instâncias europeias e internacionais (Comissão Europeia, Eurostat, OCDE) relacionadas com a produção de estatísticas e de indicadores e é membro do conselho executivo do Comité Consultivo Europeu de Estatística.

Nuno Dias da Silva
Raquel Wise
Voltar