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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXVIII

Melanie Tavares, psicóloga clínica 'A criança não é um adulto em miniatura e tem uma permanente necessidade de proteção'

14-09-2026

Em tempo de regresso às aulas, Melanie Tavares aborda temáticas transversais às crianças, aos jovens, às famílias e à comunidade escolar. A psicóloga clínica afirma que a escola é um dos «maiores sinalizadores» da exposição ao risco e vulnerabilidade por parte dos mais pequenos para as comissões de proteção. «O superior interesse da criança está efetivamente na lei, mas é difícil colocá-lo em prática», acrescenta.

O regresso às aulas é, para muitas crianças, um momento de ansiedade e mudança. Quais são os principais sinais a que pais e a comunidade escolar, nomeadamente os professores, devem estar atentos nesta fase?

Em primeiro lugar, gostaria de chamar a atenção dos pais, sobretudo, na entrada do 1.º ciclo. Muita dessa ansiedade sentida pelos mais pequenos é o espelho do que representa para os pais a entrada dos seus filhos na escola. O jardim de infância e o pré-escolar são outras etapas, mas a entrada no 1.º ciclo é vista como algo mais sério. E acabam por transmitir às crianças que agora «vão para a escola dos crescidos», o que acaba por condicionar a tranquilidade das crianças neste percurso perfeitamente normal. Em suma, era importante que os pais levassem isto com mais ligeireza e que entendessem que esta etapa é apenas mais uma fase de crescimento e não de problemas. Num degrau de escolaridade mais avançado existem outras questões: uma mudança de escola, uma troca de turma ou a perda da figura de um colega referência dentro da sala de aula dificulta, por vezes, a adaptação.

E o que defende que se deve fazer?

Nestes casos, é importante que os professores percebam as dinâmicas das crianças e dos jovens em contexto de turma, por exemplo, se estão mais isolados e menos integrados com os seus colegas. O fundamental é apreender alterações de comportamento que possam chamar a atenção, nomeadamente a sua autoexclusão de atividades grupais ou quando é o próprio grupo a excluir esse mesmo aluno. Bem sei que no atual contexto escolar é complicado para os professores terem tempo e uma escuta ativa para estarem com os alunos e conhecê-los. Onde é mais fácil identificar sinais de alerta é precisamente no 1.º ciclo, pelo facto de o professor, em regime de monodocência, passar mais tempo com os meninos.

Até que ponto é importante recuperar, depois das férias, rotinas regulares de sono, alimentação, estudo e utilização de ecrãs? Os pais devem impor desde logo horários e regras muito rígidas ou considera preferível uma adaptação progressiva às dinâmicas escolares?

Essa adaptação progressiva deve ser feita, pelo menos, uma semana antes de as aulas começarem. No início do ano letivo já devem estar definidas regras e rotinas. Mas é preciso sublinhar que as regras não devem ser impostas, mas negociadas, com as crianças e os jovens.  Quero recordar que um dos direitos da Convenção sobre os Direitos da Criança é, precisamente, a participação e a informação.  Contudo, a última palavra deve pertencer aos pais. Aliás, as regras e os limites devem ser definidos desde que as crianças nascem, de modo que o crescimento seja o mais saudável e harmonioso possível. E também para que elas tenham a perfeita noção que para além das regras e dos limites, existe o perigo e o risco. Esta contínua busca de tentar quebrar regras e limites por parte dos mais novos mais não é do um modo de afirmação como mais crescidos. A dependência dos ecrãs é evidente e está provada, por diversos estudos, que compromete ciclos de sono e aprendizagem. Confesso que fico um pouco chocada quando os pais me dizem: «Doutora, o meu filho deita-se às 4 da manhã, porque está a jogar “online” com os amigos.» E a culpa é de quem? Os filhos só fazem o que nós permitimos. É verdade que há uns que dão mais luta, mas como pais temos de estar à altura do desafio da parentalidade.

Estamos a pedir às crianças que vivam sem telemóvel na escola, mas fora dela estão permanentemente expostas às redes sociais. Não estaremos a combater apenas uma parte do problema?

Compreendo a questão, mas se retirarmos, aproximadamente, umas sete horas de exposição a ecrãs na vida deles já é um passo muito importante. Em particular, no contexto escolar, nomeadamente nos intervalos ou antes e depois das aulas, o reforço do convívio e de interação social entre pares. No contacto direto, a jogar à bola ou a fazer outra atividade física. Hoje em dia se passarmos num recreio de uma escola, quase sempre, impera o silêncio, e ninguém está a conversar, só estão de volta do respetivo telemóvel.  Com esta medida, o ganho está em promover a relação humana.

Os especialistas apontam que existe nas sociedades modernas um deslumbramento e uma adição à tecnologia, com impacto, nomeadamente nos mais novos, na distração digital e nos próprios resultados académicos. Quais são os impactos para a saúde mental desta chamada «era do scroll»?

Não sou nada contra as tecnologias, acredito que elas vieram para nos ajudar. Mas como em tudo, o que é excessivo é prejudicial. É um problema que tem de ser atalhado. O uso das tecnologias dá-nos uma estimulação numa área cerebral que é exatamente igual à adição do jogo, do sexo, das drogas e até do chocolate. Estamos constantemente a receber descargas de dopamina que é aquilo que nos faz sentir melhor e estar mais felizes. E é evidente que os miúdos estão mais adictos a esses conteúdos. Já se notam reflexos na saúde mental, nomeadamente ao nível da ansiedade, problemas no sono e na concentração, bem como na dificuldade em estar em espaços físicos com outras pessoas. Assistimos a uma hiperestimulação destas crianças que são bombardeadas por imagens e informações que têm dificuldade em gerir e assimilar. O próprio recurso à Inteligência Artificial (IA) não é garantia que estejam a consultar informação verdadeira e até acaba por enviesar os conhecimentos académicos pelas respostas que recebem, em resultado das buscas que fazem.

Estamos perante um deslumbramento generalizado pela tecnologia?

Nomeadamente as redes sociais veiculam imagens de vidas e resultados perfeitos. Quem vê isto e depois tenta e quer fazer igual e não consegue, acaba por ter problemas de autoestima. Quando, na verdade, não compreendem que o que lhes aparece à frente é apenas uma construção, uma encenação e um imenso vazio. É o caso de muitos “influencers” de sucesso, que acumulam imensos seguidores, e acabam por condicionar as escolhas, os comportamentos e a forma de estar dos jovens, seja na forma de vestir, na alimentação, passando pelos bens adquiridos.

Em 2024, ficou célebre o livro do neurocientista francês Michel Desmurget que apresentou a leitura como o principal antídoto contra a «fábrica de cretinos digitais» e o excesso de ecrãs. Sem moderação digital corremos o risco de estar a promover uma geração mais preguiçosa e menos capacitada do ponto de vista intelectual?

Eu e você tivemos a experiência, quando eramos estudantes, de ir à biblioteca à procura de um livro recomendado para um trabalho escolar ou universitário e se ele não estivesse disponível, teríamos de optar por uma alternativa ou então íamos para casa. Hoje vivemos num mundo que nunca mais acaba. Sinceramente, acho que só dificulta, porque já não se sabe onde é que vamos buscar mais conhecimento. Ficamos com a sensação de que falta sempre algo e que o trabalho está sempre inacabado.  Eu própria sinto que estou mais preguiçosa para escrever. São competências que vamos deixando de treinar.

Os próprios professores referem, frequentemente, que as competências de escrita e interpretação de texto por parte dos alunos estão a degradar-se rapidamente…
Os miúdos recorrem cada vez mais à simbologia e a abreviaturas, já quase que nem sabem escrever Português e ler é uma missão muito difícil, que acaba por se refletir na própria compreensão e interpretação dos textos que lhes são apresentados nas aulas ou nos exames. Os próprios conteúdos-vídeo das redes sociais só têm, no máximo, 30 segundos porque depois disso existe dispersão da atenção. É tudo muito imediato, concreto, simples e a mensagem tem de passar em muito poucos segundos. Vivemos uma fase em que os jovens que ainda preservam o gosto pela leitura e pela escrita começam a ser vistos como uma espécie de “nerds”, dificultando-lhes a própria integração e adesão aos padrões do que é ser adolescente nos dias de hoje. Considero que é um preconceito que começa a surgir.

A tecnológica META, que é presidida por Mark Zuckerberg, aceitou pagar 18 mil milhões de dólares por danos causados a menores através das plataformas Facebook e Instagram. Admite que este possa ser um marco e um virar de página no compromisso de autorregulação por parte destes gigantes para tornar as redes sociais locais mais frequentáveis?

No imediato, a única consequência será financeira para a empresa visada. Mas admito que põe a opinião pública mais alerta para exigir ferramentas mais seguras para a utilização das redes sociais por parte dos menores. É preciso filtrar melhor aquilo que acaba por entrar em casa, na escola e na vida de toda a gente, em qualquer parte do mundo, nos seres humanos de praticamente todas as idades. Defendo que se deve promover o sentido crítico, em estreita colaboração com os pais, e treinar a capacidade de resposta a determinados conteúdos e imagens que surgem. Também aqui é preciso envolver os professores.

Nos últimos meses têm sido relatados pela comunicação social múltiplos casos de exposição e abandono de crianças a situações de risco. Estas situações de vulnerabilidade infantil sempre existiram ou é a maior mediatização dos casos que lhes dá maior visibilidade?

Sempre existiram os casos de abandono e exposição a modelos de risco, mas é evidente que determinados casos, pelo seu impacto, tornam-se mais mediáticos. Por isso é que também existem as comissões de proteção de crianças e jovens. Mas admito que a própria sociedade está mais sensível, mais consciente e mais disponível para fazer uma reflexão sobre as suas atitudes e comportamentos. Porventura, a sociedade como um todo está a tomar consciência do papel importantíssimo que tem no sistema de proteção das crianças ao abandono e a situações de risco. A criança não é um adulto em miniatura e tem uma permanente necessidade de proteção. O sistema de proteção deve começar na família, mas o que sucede é que nem sempre a família nuclear é protetora. Pelo contrário, é aí que reside o risco e o perigo. Para além, naturalmente, da família alargada, dos vizinhos e, naturalmente, a escola. Não esquecer que é na escola onde os meninos passam mais tempo acordados e onde estão mais tempo acompanhados por adultos. E eu ainda acredito que os professores são uma figura de referência e protetora na vida das crianças. Conhecem, em permanência, as dinâmicas, as famílias e são importantíssimos para remover o perigo e alertar quando as crianças estão ameaçadas. Não é por acaso que a escola é um dos maiores sinalizadores para as comissões de proteção de crianças e jovens.

Ouvimos falar muito de que o Estado é negligente e que podia ter prevenido situações que acabam por acontecer. O superior interesse da criança é, por vezes, uma frase pomposa, mas que está longe de ser aplicada na prática?

Infelizmente, tenho de concordar. Devíamos ter uma justiça mais amiga da criança e devia existir uma maior sensibilidade e atenção ao papel de proteção aos mais pequenos. Os conflitos parentais entre os direitos de pai e mãe são, por norma, resolvidos de forma salomónica, ou seja, metade para cada lado. E em vez de haver rotinas e proximidade com a escola, a criança anda semanalmente com a mochila às costas porque o pai e a mãe acham que devem ter esses direitos, quando o maior direito devia ser a estabilidade da criança, independentemente de estar numa casa ou noutra. Aliás, sobre este assunto tenho uma opinião muito particular: devia ser proibido a criança andar de mochila às costas, de casa em casa. O que seria fixado era a residência das crianças e quem mudava eram os pais. Enquanto isto não for para a frente, haverá sempre instabilidade, angústia e quebra de rotinas. Em suma, o superior interesse da criança está efetivamente na lei, mas depois é difícil colocá-lo em prática enquanto prevalecer que o superior interesse ainda é dos adultos.

Numa recente entrevista referiu que existe um défice de «interventores sociais nas escolas.» Quis com isso defender uma maior presença, por exemplo, de psicólogos inseridos na comunidade escolar?

Quando falo dos interventores sociais estou a referir-me, em particular, aos Gabinetes de Apoio ao Aluno e à Família (GAAF), que são estruturas que operacionalizam a mediação escolar que temos no Instituto de Apoio à Criança (IAC). Os GAAF trabalham a quatro níveis: a escola, o aluno, a família e a comunidade. Não existe na escola nenhuma resposta a esse nível. Por isso, o IAC tem mais de 50 GAAF a nível nacional, com esses interventores sociais, onde se incluem psicólogos, assistentes sociais, animadores, terapeutas, etc. Estes técnicos estão nas escolas não para darem matéria, essa função compete aos professores, mas disponíveis para ouvir, para estabelecerem uma relação de confiança, para sinalizarem situações de risco, para que estas não se transformem em perigo, etc.

No ano letivo de 2025/26, num universo de praticamente 60 mil alunos, apoiámos cerca de 7 mil e poucos alunos, nomeadamente em cerca de cinco centenas de casos de “bullying”, que foram praticamente todos resolvidos. Isto prova que quando trabalhamos em contexto de prevenção, e no recreio, no seio das dinâmicas dos miúdos, e também após o diálogo mantido com as famílias, em visitas domiciliárias, os resultados aparecem.  Desde que o aluno é sinalizado ao gabinete e depois faz-se uma avaliação no final do ano letivo, houve uma remissão dos problemas um pouco superior a 60 por cento. Em síntese, os GAAF fazem a diferença em muitos estabelecimentos de ensino deste país, mitigando vários problemas das escolas e dos alunos.

 

A CARA DA NOTÍCIA

Coordenadora da mediação escolar no IAC

Melanie Tavares é psicóloga clínica, com uma carreira dedicada sobretudo às áreas da infância, adolescência, educação, parentalidade e promoção dos direitos das crianças. Nasceu a 4 de março de 1976, em Joanesburgo, África do Sul, tendo vivido parte da infância no Brasil antes de se mudar para Portugal. É licenciada em Psicologia Clínica e do Aconselhamento pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e possui um diploma de Estudos Avançados em Serviço Social pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. É especialista reconhecida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicologia Educacional, Psicologia Comunitária e Necessidades Educativas Especiais. Integra o Instituto de Apoio à Criança desde 2004, onde atualmente desempenha funções de assessora da direção e coordena a mediação escolar, área orientada para a promoção de ambientes escolares mais harmoniosos, saudáveis e inclusivos. Presença regular nos órgãos de comunicação social, colabora assiduamente em programas na TVI, nomeadamente no «Dois às 10».

Nuno Dias da Silva
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