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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXVIII

1ª Coluna Alojar ou acampar

05-11-2026

Durante muitos anos Portugal não olhou com seriedade para a questão do alojamento estudantil. As caraterísticas dos estudantes deslocados mudaram. São mais exigentes. O aluguer de quartos em casas de família foi perdendo força e o mercado demorou a reagir. Mais grave do que isto é o facto dos diferentes governos acordarem tarde para esse problema. Só com o Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior (lançado em 2018), reforçado, em 2021, com os fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) se registou um aumento considerável na construção e requalificação de residências estudantis.

O objetivo foi claro: resolver um problema dramático que afetava e afeta os estudantes deslocados, com o propósito de se intervir em 18 mil camas em todo o país. Importa, no entanto, referir que se o Estado, enquanto Poder Central falhou na estratégia, as autarquias locais, sobretudo as Câmaras Municipais não fizeram mais do que assobiar para o lado demonstrando, sobretudo por parte dos municípios localizados no interior do país, uma clara falta de estratégia e ambição para os seus territórios.

Com efeito, o ensino superior é o principal instrumento de coesão territorial para as regiões localizadas em territórios demograficamente fragilizados. Ao não apostarem na construção de alojamento estudantil, ao desperdiçarem avisos no âmbito do Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior, e ao preferirem tricas e guerras provincianas, misturando política com educação, muitas regiões do país ficaram prejudicadas e ainda estão a sofrer por isso.

Recordo que quando o meu filho, hoje já diplomado, entrou para o ensino superior lhe referir a brincar que o melhor era comprar uma autocaravana e assentar praça num parque de campismo perto da universidade. O preço dos quartos praticados em Lisboa, mas também no resto do país, são, de facto, um entrave a quem tem filhos como estudantes deslocados. E se a ação social procura dar resposta a quem a ela tem acesso, a generalidade das famílias de classe média ficam de fora e acabam por não ter qualquer tipo de apoio ou entrada em residências públicas.

O Observatório do Alojamento Estudantil revela que o preço médio de um quarto em Lisboa é de 550 euros, mas – regra geral – os valores são mais elevados, elevando-se até aos 1150 euros; no Porto o valor ronda os 450 euros podendo chegar aos 850, e no Funchal o preço médio é de 520 euros. No resto do país os valores médios são mais baixos: 500 euros em Oeiras; 450 em Sintra, Sines e Portimão; 430 em Almada; 420 em Ponta Delgada; 400 no Barreiro, Faro e Setúbal; 350 em Aveiro, Braga, Esposende, Figueira da Foz e Guimarães; 330 em Évora; 320 em Barcelos, Caldas da Rainha e Santarém; 300 em Abrantes, Coimbra, Elvas, Leiria, Peniche e Viana do Castelo; 260 em Tomar e Viseu; 250 em Beja, Castelo Branco, Chaves, Portalegre, Rio Maior e Seia; 240 em Lamego; 230 no Fundão; 225 na Covilhã; 200 em Bragança e na Guarda; 190 em Oliveira do Hospital; ou 180 em Idanha-a-Nova.

O cabo das tormentas na habitação começa, portanto, logo à entrada na universidade. Não espanta que - com o curso nas mãos, o objetivo de terem uma vida independente e a sua própria família -, os jovens se sintam desprotegidos e façam acampadas. Pelo menos trouxeram para o debate nacional o problema que os afeta. A democracia também é isto, mas só tem sucesso se houver respeito de quem participa nas manifestações e de quem tem o dever de nos proteger. Nelas não pode haver lugar a ofensas ou agressões às forças policiais, nem cargas autoritárias sobre quem se manifesta. Desse modo, a o direito à habitação deixa de ser notícia.

João Carrega
Diretor carrega@rvj.pt
ULO
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