O apelido diz tudo, mas o jovem Diogo Zambujo traça o seu próprio caminho com o lançamento do primeiro álbum que resulta de uma década de histórias, vivências e inquietações.
Que experiências estão por detrás das 11 canções do álbum «Vir a Ser»?
Este disco é o resultado das histórias, das vivências e das inquietações que me acompanharam ao longo destes anos. O álbum começa com a primeira música que escrevi na vida, aos17 anos, e acaba por agregar os últimos 10 anos, visto que agora tenho 27 anos.
E dos 17 aos 27 anos é, precisamente, uma altura de muitas mudanças na vida de qualquer jovem, nomeadamente a entrada no ensino superior. Fui de Beja para Lisboa, para
tirar o curso de Comunicação Social. Tratou-se de uma mudança brusca. Depois de acabar o curso vai-se à luta em busca de trabalho, etc. Foram muitos desafios. Em resumo, são as histórias que me consumiram nesses anos, amores e desamores. Umas músicas são assumidamente autobiográficas, outras nem por isso.
Este primeiro disco representa, de alguma forma, o início formal de uma carreira ou é, antes de tudo, o corolário de um percurso que já vinha a construir há vários anos?
Acho que se pode considerar um pouco dos dois. Mas, de facto, acabamos por ser alguém quando temos algo cá fora que define a identidade. Já tinha os singles lançados, no início de 2026, mas o álbum só saiu em setembro, devido a alguns prazos e formalismos que tiveram de ser cumpridos. Já tinha o meu ”bebé” pronto para vir ao mundo, mas tive de esperar alguns meses…
Como foi o processo de criação e gravação do álbum? As canções nasceram primeiro que a música ou a partir das palavras ganharam forma musical?
No meu processo de composição nascem primeiro as palavras. Por norma, tenho esse impulso e logo depois dá para esculpir uma música que encaixe na letra. Depois faz-se umas emendas, uns acrescentos, para
fazer sentido na melodia. Curiosamente, nas últimas músicas, «Ferida sarada» e o «Outro quarto qualquer», até fiz ao contrário, começando primeiro pela música e só depois pela letra. E confesso que tem sido engraçado, até porque, para mim, a melodia é o mais difícil de sair.
Que músicos e géneros musicais mais o influenciaram na construção da sua identidade artística? É notória uma forte influência da sonoridade brasileira, inclusive uma das faixas tem a participação da cantora luso-brasileira Tainá, e o Diogo esteve na primavera, no Brasil, nos concertos com o seu pai António…
Acompanhei o meu pai em concertos por 12 cidades do Brasil. Desta vez, ele juntou o útil ao agradável e levou-me.
Fiz todas as primeiras partes dos concertos dele, em maio, onde toquei quatro ou cinco músicas do meu novo disco, num ambiente de guitarra e voz. O André, que produziu o meu álbum, também faz parte da banda do meu pai e preparou algumas surpresas nos concertos no Brasil. Ele e o meu pai juntaram-se a mim em palco numa das músicas. De facto, a sonoridade brasileira está sempre muito presente. A minha banda favorita são os brasileiros “Los Hermanos”, do Marcelo Camelo e do Rodrigo Amarante. Oiço os seus discos vezes sem conta e nunca me canso. Eles são muito conhecidos pela música «Anna Júlia», mas têm um trabalho musical fantástico, que eu venero.
A pergunta não é original, mas tomo liberdade de a fazer. Sendo filho de António Zambujo, até que ponto cresceu dentro da música e como procurou encontrar uma voz própria? Ter um apelido tão associado à música portuguesa é uma herança, uma responsabilidade ou também uma oportunidade?
Em primeiro lugar, é incontornável. Há que aceitar. Penso que é uma oportunidade. Pelo feitio e pela personalidade do meu pai, todas as pessoas têm muito boa impressão dele. Acho que isso facilita que gostem de mim. As nossas músicas são muito parecidas e até temos tons de voz muito semelhantes. A minha mãe fala sempre das expressões e dos trejeitos da cara. Apesar de ter crescido com a minha mãe, em Beja, visto que o meu pai veio para Lisboa, os genes não enganam.
Fale-me um pouco do seu tio, Zeca Serrano, que lhe ofereceu a primeira viola…
O meu tio materno possibilitou-me a primeira abordagem à música. O meu fascínio pela música nasceu com ele. Ele é da onda do rock e das influências anglo-saxónicas. Foi ele que me mostrou os Beatles, os The Cure, os Rolling Stones, etc. Ele teve várias bandas e chegou a tocar nos «Caracol Blues», um grupo que atuava em vários eventos pela região. Levava-me aos ensaios, etc. Pedi-lhe a guitarra emprestada para ele me ensinar alguns acordes. Até que um dia, talvez por achar que eu já tinha a guitarra há tempo demasiado, ofereceu-me uma. Foi um momento muito marcante.
Estudou música no Conservatório do Baixo Alentejo e no Hot Clube Portugal, em Lisboa. Pelo meio tirou um curso de Comunicação Social na Universidade Católica. Neste percurso académico, a música foi sempre a primeira prioridade?
No Conservatório lidava mal com a exposição, por ser tímido, e acabei por desistir de muitas audições. Acabei mesmo por desistir do piano. A aprendizagem formal de música ficou muito em “stand by”. Mas um lado da família sempre percebeu que eu gostava muito de música. O outro lado da família fez força para eu tirar um curso, caso a música desse para o torto.
Então, enveredei pela comunicação social, até porque sempre gostei muito de jornalismo cultural, musical e de cinema. A licenciatura foi muito útil. Deu-me ferramentas para escrever e até para lidar como entrevistado. Foi uma indiscutível mais-valia. Depois do curso fui para o Hot Club para perceber a vertente teórica da música. Há muita matemática por detrás da música, perceber as escalas, etc.
Mas como precisava de ganhar dinheiro, fui trabalhar para um restaurante. Estive dois anos e meio no «Bairro do Avillez», no Chiado, um espaço muito movimentado e que exigia muitas horas de trabalho. Quando abandonei o restaurante, já estava a ganhar algum dinheiro com os concertos e de há uns tempos a esta parte estou em “full time” na carreira musical.
Estima-se que sejam carregadas em diversas plataformas digitais milhares de faixas geradas por Inteligência Artificial (IA). É uma ameaça aos artistas e aos direitos de autor?
Para o crescimento e desenvolvimento da IA estão a ser utilizadas muitas músicas sem autorização dos artistas. É combustível para a IA criar novas músicas. Contudo, entendo que a IA não é um monstro de sete cabeças, tem um grande potencial que deve ser aproveitado. Creio que ainda não há um risco, mas é preciso que exista controlo. Os alertas recentes sobre a IA exigem cautela e prudência. E o mundo da música não pode ficar à margem.
A CARA DA NOTÍCIA
O primeiro disco aos 27 anos
Diogo Zambujo, nasceu em 1998, em Beja. Filho do consagrado António Zambujo, é um cantautor português que cruza influências da canção portuguesa, da música brasileira, do jazz, do rock e da pop contemporânea, numa escrita intimista e emocional. Depois de apresentar temas como «O Mundo Sou Eu», «Amor Sem Nome» e «Pisa a Poça», com a luso-brasileira Tainá, lançou em setembro de 2026 o seu álbum de estreia, «Vir a Ser». Com 11 canções, o disco explora o amor, a perda, a mudança e a descoberta pessoal.