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Marisa Liz, cantora 'A escola devia educar para as emoções'

25-05-2026

O lançamento do mais recente álbum é o mote para a conversa com uma das mais reconhecidas artistas do panorama nacional. Marisa Liz partilha ainda reflexões sobre o sistema de ensino, que considera estar muito focado na dimensão lógica e da memória, em detrimento da vertente emocional.

O disco de estreia a solo «Girassóis e Tempestades», em 2023, dá agora lugar a uma nova proposta chamada «Relatos de um coração confuso». O que distingue e aproxima estes dois álbuns de estúdio?

Para começar em termos de proximidade, são ambos muito pessoais. Aliás, todos os meus trabalhos têm sempre esse cunho pessoal. Neste talvez tenha juntado de forma diferente as diversas influências que reuni. Quando parti para este disco a única certeza que tinha era o título, o que dava a clara noção que estava confusa sobre o que ia fazer e com o mundo que me rodeia. Esta confusão acabou por inspirar o título do álbum e transformar-se em canções, levando-me a sítios onde ainda não tinha ido musicalmente.

Também é uma das produtoras do álbum. Este trabalho representa o seu ponto mais alto em termos de maturidade artística?

Acho que sim. É um disco que descrevo como sendo cru e verdadeiro. Podia ter ido por um caminho mais seguro, mas preferi arriscar e ser feliz.

É também um disco com sabor a Brasil, com várias influências surgidas na sequência de uma viagem ao Rio de Janeiro, nomeadamente a colaboração com o compositor brasileiro Paulinho Moska. Para além disso, um dos singles («Gente aberta») tem letra e música de Erasmo Carlos, o eterno parceiro de Roberto Carlos. Por considerar que esta música é um hino à liberdade e ao amor, transmitir esta mensagem é cada vez mais importante nos conturbados tempos em que vivemos?

Sempre foi. Tenho a noção que precisava muito de ter esta canção no meu disco. Aliás, era mesmo a mensagem que faltava introduzir neste trabalho. Como no passado já tive outras, com o mesmo conteúdo, mas com uma forma diferente. Tenho tido, desde sempre, uma ligação muito próxima ao Brasil. Alias, acho que todos temos, desde as primeiras novelas brasileiras que aqui passavam, o que sempre gerou uma curiosidade muito grande relativamente à cultura. No outro disco já tinha tido uma colaboração do Chico César e neste aumentei o meu número de parcerias com músicos e compositores brasileiros, com destaque óbvio para o Paulinho Moska.  Precisava de aprender e de trabalhar com pessoas que admiro, tanto no Brasil, como em Portugal. Foram canções e caminhos que fomos descobrindo juntos.

Rui Veloso em «É por te amar» e a orquestra dirigida pelo maestro Martim Sousa Tavares na faixa «Nem sempre consigo ser boa» são outras participações especiais. Mas não esconde que o dueto com Camané em «Gente aberta» foi especial. Tratou-se da concretização de um sonho antigo?

Não vou chamar de sonho, mas antes uma vontade grande de partilhar uma canção com um artista da dimensão do Camané. Sabia que como em todos os duetos que tive na minha carreira, primeiro vem a canção, só depois veem as vozes. E nesta canção era o Camané que melhor se encaixava. Tive a oportunidade e a sorte de ele dizer «vamos a isso!».

«Expresso as minhas dores mais profundas através da música», é uma frase sua proferida há dois anos. A música é a forma mais sublime de exteriorizar e partilhar sentimentos, sejam eles positivos ou negativos?

O mundo da música é maravilhoso e mágico porque a música não tem língua, não tem base, não tem país, nem sexo, nem religião. É uma sorte poder exteriorizar aquilo que sentimos através da arte, neste caso, da música. Mas isso só se consegue com questionamento, aprendizagem e dedicação, características que os artistas vão aprofundando com o tempo. No meu caso, a música continua a ser a forma mais segura que tenho para me expressar.

É uma mensagem que lhe está colada à pele e que proferiu ainda muito jovem: «quero conhecer o mundo a cantar». Trinta anos depois, continua a querer concretizar esse objetivo?

Lembro-me perfeitamente de ter dito essa frase e também me lembro que um dia mais tarde disse que, afinal, estava enganada. E esse dia foi quando a minha filha nasceu. E a partir daí a frase foi reconstruída: «eu ainda quero conhecer o mundo a cantar, se a minha filha conhecesse o mundo comigo». Hoje, no dia em que falamos, digo, com toda a sinceridade, não tenho nem a necessidade nem a vontade de conhecer o mundo a cantar. Gostava verdadeiramente que as pessoas conhecessem o meu mundo a ouvir. A verdadeira felicidade é conhecer o mundo com os meus filhos. As prioridades e as perspetivas sobre o que é ser feliz mudaram. Para mim, ter sucesso é estar feliz.

É frequente ser convidada para visitar escolas, a última das quais na Escola Portuguesa de Macau, em novembro. O que é que retira destas deslocações?

Na verdade, vou menos do que gostaria. Há muito tempo que tenho na minha cabeça ideias e projetos no âmbito da educação e da saúde mental e emocional. São temáticas que desde nova me interessam e me afetam (NDR: Marisa Liz revelou que foi diagnosticada com PHDA -Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção). A escola foi um caminho muito difícil para mim, pouco adaptado ao meu cérebro. Em vez de me abrir horizontes, acabou por fechá-los. Na minha opinião, a educação continua demasiado baseada e focada na parte lógica e de memória, em detrimento da vertente emocional.

Defende a generalização da formação do ponto de vista emocional para todos os intervenientes da comunidade educativa?

Completamente. A escola devia educar para as emoções. É fundamental aprender a lidar com as nossas emoções. Devia existir um plano nesse sentido para evitar cairmos numa lógica de compartimentação. Se o mundo está como está, só pode ser pela falta de informação que temos para lidar com as nossas inseguranças e emoções, bem como pela forma como lidamos com o próximo. A psicologia foi durante muito tempo vista como uma solução para os fracos e para os incompreendidos. Felizmente, hoje já não é assim, mas é preciso ir mais longe.

A violência de género é um dos problemas a que também a escola não escapa. Campanhas de sensibilização promovidas nomeadamente pelos professores podiam fazer a diferença e mudar mentalidades?

Todos podem fazer a diferença: os professores, os pais, os amigos, os familiares, etc. Para tomar boas decisões é preciso perguntar e questionar, tentando perceber o que funciona melhor para todos. Este tema é difícil. Dá muito trabalho pensar, mas dá ainda mais trabalho agir e fazer algo, arriscando tomar decisões diferentes. Perdura ainda uma mentalidade de outros tempos, de ditadura, em que é melhor manter do que fazer algo para mudar. Esta atitude tira-nos força. Se cometemos erros é porque, pelo menos, tentámos mudar alguma coisa. Estamos viciados emocionalmente em muita coisa, que achamos que nos protege. Temos mais medo do desconhecido do que do sofrimento a que já estamos habituados.

 

A CARA DA NOTÍCIA

A eterna vocalista dos Amor Electro

Marisa Liz, o nome artístico de Marisa Pinto, nasceu a 22 de outubro de 1982, em Lisboa. Iniciou a carreira ainda criança, participando em projetos como Popeline e Onda Choc. Mais tarde integrou a banda Donna Maria, antes de fundar os Amor Electro em 2010. Com temas como “A Máquina” e “Rosa Sangue”, a banda alcançou enorme sucesso. Além da música, destacou-se na televisão como mentora do programa «The Voice Portugal», onde participou durante várias temporadas. Em 2022 iniciou oficialmente a carreira a solo, lançando músicas como “Guerra Nuclear” e o álbum «Girassóis e Tempestades», no ano seguinte. «Relatos de um coração confuso» é o seu mais recente trabalho.

Nuno Dias da Silva
Universal Music Portugal/Diogo Branco
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