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Germano Almeida, especialista em política norte-americana ‘Trump não respeita a democracia’ 23-11-2020

Biden tomará posse a 20 de janeiro, mas não terá um mandato fácil. O comentador Germano Almeida afirma que Trump não morreu politicamente e que continuará a «morder os calcanhares» ao novo inquilino da Casa Branca.

Na altura em que falamos, Joe Biden segue com uma diferença folgada de grandes eleitores para Donald Trump, mas o ainda presidente continua sem reconhecer a vitória do seu opositor. Como é que chegámos até aqui?
Donald Trump desenhou e pré-anunciou esta estratégia – ou seja, a narrativa que as eleições iam ser fraudulentas – muito antes de 3 de novembro. A eleição de Biden é clara e não há fraude nenhuma. A diferença de grandes eleitores é de tal forma expressiva que não era pela recontagem de dois ou três estados que Biden deixaria de ganhar. Para além disso, todas as alegações dos advogados de Trump em tribunal não tiveram qualquer aceitação da parte dos juízes. Em suma, admito que haja alguma confusão relativamente a algumas dezenas ou centenas de boletins de votos – o que é perfeitamente natural num ato eleitoral com esta participação – mas não há qualquer sombra de fraude.

Estas foram as eleições mais participadas de sempre com a particularidade de ter havido muitos votos por correspondência. Foi isso que complicou o processo?
É preciso explicar que não há uma eleição americana, há 51 eleições americanas, em 51 estados diferentes. Admito que tenha havido algumas irregularidades – como há sempre – mas a tese de fraude é completamente absurda. Aliás, a comissão eleitoral já disse que estas foram as eleições mais seguras e eficazes de sempre. Para além disso, a vitória de Biden, tanto em estados, como no voto popular, é claríssima.

O impasse registado no Estado da Flórida, em 2000, em que Al Gore demorou um mês a reconhecer a vitória de Bush, é um fantasma que paira no ar?
Sim, toda a gente se lembra dessas eleições. Por vezes, também custa perceber como é que um dos países mais desenvolvidos e avançados do mundo não dispõe de uma forma mais rápida de contar os votos. O histórico de fraude nos Estados Unidos é residual. Já agora, deixe-me esclarecer que as recontagens que estão a acontecer em alguns estados são perfeitamente normais, em função de uma diferença relativamente pequena de votos entre os candidatos. A candidatura de Trump pagou 3 milhões de dólares ao Wisconsin para que seja feita a recontagem, um estado onde Biden ganhou com uma vantagem superior a 20 mil votos.

Presume-se que o processo terá de ser resolvido até ao dia da posse, 20 de janeiro. Mas o tradicional processo de transição parece comprometido. Pode estar em causa, em última análise, a segurança nacional?
Este imbróglio vai ser resolvido, mas a transição está a ser prejudicada. Para já, o importante é que Biden ganhou e vai ser o 46.º presidente dos Estados Unidos. O povo americano tomou a decisão, há 4 anos, de eleger uma pessoa que não respeita a democracia e isso tem consequências que estão diante dos nossos olhos. É uma pessoa que quando perde, diz que não valeu. Trump está a atirar o país para a lama e a prejudicar quem ganhou, as instituições e os próprios cidadãos.

O sistema eleitoral americano é sempre alvo de grande controvérsia e acusado de um certo anacronismo. Este sistema é potenciador de imbróglios eleitorais? Faz sentido?
As duas coisas. O sistema eleitoral americano é anacrónico e potencia imbróglios, mas faz sentido. Explico: os Estados Unidos não são uma democracia como as europeias, por exemplo. São uma república constitucional federada. Esta federação de estados foi pensada pelos pais fundadores a partir do pressuposto que a coesão interestadual é mais importante do que a noção da vontade da maioria. Se pensarmos bem, se fosse um sistema de sufrágio universal, se ganhasse o candidato que recolhesse maior número de votos, os estados mais pequenos não contavam para nada. Quem dominasse a Califórnia, a Flórida ou Nova Iorque ganhava as eleições. Repare: os democratas ganharam o voto popular em sete das últimas oito eleições, muito por causa de ganharem os estados que têm mais eleitores. Perante estes dados, os republicanos nunca permitiriam uma mudança de sistema eleitoral dos Estados Unidos, porque sabem que se o fizerem o seu candidato nunca chegará à Casa Branca.

Mesmo que Trump saia, ficam as raízes do “trumpismo” ou o ainda presidente vai andar por aí?
Trump vai andar por aí. É bom que se diga que ele não morreu politicamente. Ele obteve 73 milhões de votos, o que é a segunda maior votação de sempre de um candidato presidencial na América, só atrás dos 78 milhões de Biden. Não deu para a reeleição, mas é um valor com potencial mediático, social e político e que faz com que – neste momento - ele não tenha adversários à altura no Partido Republicano. E convém sublinhar que, do ponto de vista legal, Trump pode voltar a candidatar-se em 2024, porque só fez um mandato. A atração mediática que gera vai fazer com que ele, nestes próximos anos, procure converter os 73 milhões de votos que recolheu numa audiência de 40 milhões de telespetadores num programa qualquer que pode ser um “talk show” ou uma Casa Branca alternativa.


O que parece claro é que não será na Fox News. Depois de um longo namoro, Trump e o canal de Murdoch andam de candeias às avessas…
É um caso curioso. A Fox News alimentou-se de Trump e Trump alimentou-se desta cadeia de notícias. Mas é preciso dizer que, apesar desta relação de grande proximidade, um canal de notícias nunca podia declarar numa noite eleitoral que ganhou Trump, quando a vitória de Biden era clara. Apesar das imensas pressões de Trump nessa noite, a Fox nunca recuou.

Como é que fica a credibilidade das grandes cadeias americanas, Fox News e CNN, quando durante todo o período eleitoral nunca esconderam o seu favoritismo pelos seus candidatos, Trump e Biden, respetivamente?
A Fox News mostrou uma independência que não esperávamos que tivesse. Este canal fez jornalismo e mostrou que o presidente mentiu, independentemente da proximidade que manteve com ele nos últimos quatro anos. Não pretendo isentar de culpas as cadeias de TV, mas quando o discurso político é tão extremado, é particularmente difícil que o discurso jornalístico seja moderado.

Até à data os confrontos nas ruas entre apoiantes de Trump e Biden não têm passado de algumas escaramuças. Teme que com o aproximar da tomada de posse o ambiente se degrade?
Penso que a fase de maior risco já passou. A sociedade americana é, ao mesmo tempo, fantástica e contraditória. É um país com uma cultura de violência, com uma história de armas e de confusão, mas que também se consegue reinventar. E um dos grandes trunfos deste país são as suas instituições, muito fortes e com leis. Se houver distúrbios e vítimas, quem cometer esses delitos será condenado, seja qual for a sua cor política.

O que é que muda com Biden, por exemplo, em termos da gestão da pandemia?
Será o grande desafio e o grande foco do novo presidente. Biden terá um mandato modesto nos seus objetivos, mas quererá recuperar a imagem reputacional de uma América decente, ouvindo os conselhos dos cientistas relativamente à forma como combater a Covid-19, para além do mais que provável regresso aos acordos do clima de Paris e à colaboração estreita com a Organização Mundial de Saúde. Mas antevejo que Biden terá um mandato muito difícil, porque, para além de estar em posição minoritária no senado, vai ter sempre Trump a morder-lhe os calcanhares e uma metade do país a achar que devia ter sido o candidato republicano a vencer.

E o relacionamento com China e Rússia, será de confronto?
Democratas e republicanos convergem que a China é a grande ameaça à segurança nacional americana e, sobretudo, ao posicionamento americano. Washington entende que a ascensão da China tem de ser travada e contida. Em relação à Rússia espera-se, pelo menos uma relação mais clara, em contraponto à ambiguidade permanente que existiu durante a administração Trump. Penso que a partir de agora a Rússia será, sem rodeios, considerada uma ameaça aos Estados Unidos.

A relação transatlântica com os europeus será recuperada?
Sem dúvida. Trump destratou os aliados europeus e nunca escondeu que entendia o projeto europeu como uma ameaça. Espera-se, por isso, o regresso de uma América mais confiável, amiga e transatlântica. Apesar disso, não creio que será fácil regressar ao nível de entendimento das administrações Obama e Clinton.

Diz-se que Biden fará um mandato e Kamala Harris pode ser a sua sucessora. Os EUA estão preparados para eleger uma mulher em 2024?
Acho que sim. Não foi por acaso que, em 2016, Hillary Clinton teve mais 3 milhões de votos do que Trump. É curioso que ainda não tenha sido empossado o presidente, e já estarmos a falar das próximas eleições. Eu acho que as presidenciais de 2024 vão ser as mais interessantes e importantes de todas. Porquê? Existe a certeza, quase absoluta, que Biden não se recandidatará, já que terá 82 anos. Acredito que quando Biden completar 80 anos de idade se irá lançar a questão sobre quem será o candidato democrata. Ou até mesmo antes, ao primeiro sinal de fraqueza ou debilidade física, essa questão poderá será falada. Mas regressando à sua pergunta, Kamala Harris tem tudo para ser candidata em 2024. É uma política inteligentíssima, muito bem preparada e consistente, que consegue chegar a vários segmentos eleitorais.

E do lado republicano?
Não afasto que seja Trump, mas também não rejeito que Trump avance e perca as primárias no partido. Nikky Haley é um nome com potencial, mas também temos os senadores Ted Cruz e Marco Rubio. E não podemos esquecer o atual vice presidente, Mike Pence, o candidato mais provável da herança do “trumpismo”, sem Trump. É alguém com quem se pode sentar à mesa a conversar. Os republicanos têm alguns bons quadros nas suas fileiras, o grande problema agora é que não têm tido a coragem de demarcar-se dos comportamentos inaceitáveis do “trumpismo”.

 

Cara da Notícia

Jornalista desportivo de olho nos EUA

Germano Almeida nasceu no Porto, a 30 de abril de 1978. Jornalista de profissão, é licenciado em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem no seu currículo várias passagens pelo jornal «A Bola» - onde cobriu o mundial de futebol de 2006, na Alemanha, e o europeu 2008, na Suíça - e fundou o site de desporto «Mais Futebol». Foi diretor de comunicação da Liga de Futebol Profissional, primeiro com Fernando Gomes e depois com Pedro Proença. Atualmente é analista de dados na Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e comentador da SIC de política norte-americana. É autor de quatro livros sobre este tema: «Histórias da Casa Branca»(2010), «Por dentro da reeleição» (2013), «Hillary Clinton: nunca é tarde para ganhar» (2016) e «Isto não é bem um presidente dos Estados Unidos» (2018)».

Nuno Dias da Silva
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