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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXVII

Opinião Livros & Leituras

05-09-2023

Contos Hieroglíficos (Antígona), de Horace Walpole (1717 – 1797), inventor do género gótico, reúne nesta pequena pérola, contos de imaginação, “escritos um pouco antes da criação do mundo”, com personagens e situações rocambolescas, mais do domínio do sonho e das fábulas antigas, com um toque de supremo gozo delirante, capazes de suscitar o bom humor e disposição, e que muito influenciaram, entre outros, Edward Lear e Lewis Carroll.

Micromegas (Tinta-da-china), de Voltaire, com tradução e posfácio de Rui Tavares, resume em poucas páginas o “pluralismo céptico” do autor de “Cândido, ou o Optimismo”, glosando o saber do seu tempo, desferindo um profundo golpe na possibilidade do conhecimento que se afirme por meio de teorias desconexas, irrisórias ou simplesmente idiotas. Um habitante de Sirius e outro de Saturno de visita à Terra põem tudo em pratos limpos.

Receitas de Inverno da Comunidade (Relógio d´Água), de Louise Gluck, Premio Nobel de 2020, é o oitavo volume da obra da poeta norte-americana, que esta editora em boa hora tem vindo a publicar, onde se conjugam os fios particulares com os grandes temas que animam os clássicos gregos e latinos, aqui revisitados e recriados por uma voz muito pessoal, que faz desta poesia um hino ao atemporal vertido do quotidiano:

“ Temos de apoiar bem o pé /antes de pôr o peso todo sobre ele”.

Teoria da Nuvens (D.Quixote), de Mário Cláudio, é uma pequena jóia de ourivesaria de alto quilate, onde se conjugam, numa cidade reconhecível, um estudioso de San Juan de la Cruz, uma fotógrafa tresloucada, um colecionador de raridades, El Greco e mais um punhado de personagens compondo um divertimento sério, servido por uma prosa luxuriante, qual relicário barroco, com um final em crescendo: “Vagueava pelo país das nuvens, e pelos vales escuros, ouvindo dores e lamentações, esperando junto a uma tumba orvalhada, fica em silêncio, a escutar as vozes da terra, e alcançava a tumba que lhe atribuíam” (William Blake).

Um amor de Swann (Assírio & Alvim), de Marcel Proust, com prefácio, tradução e notas de Helena Carvalhão Buescu, publicado desde os anos 30 de forma autónoma, faz parte de “Em Busca do Tempo Perdido”, sendo considerado como uma súmula do mesmo, onde os amores de Charles Swann e Odette de Crécy, serve como telão das relações sociais de uma sociedade classista do meio parisiense do século XIX, e um tratado sobre o ciúme e as invejas que grassam no meio social burguês e aristocrático de uma época em mudança cultural acentuada.

Diário Mínimo (Gradiva), de Umberto Eco, reine um conjunto de artigos escritos para uma revista, e depois reunidos em livro, tendo por tema central um gozo nada menos que genial, sobre vários temas literários, desde a cultura de massas na Grécia Antiga, ao “nouveau roman”, passando por “pastiches” de Joyce, investigações antropológicas descabeladas, a descoberta da América em directo, relatórios delirantes de leitor, tudo em tom de paródia. “É esta a felicidade da paródia: não deve nunca temer o exagero”.

A Lição de Eneias (Edições 70), de Andrea Marcolongo (n.Crema, 1987),  aborda a personagem central da “Eneida”, de Virgílio, fazendo “uma oportuna meditação sobre recomeço, reconstrução, recuperação e renovação, que é também um retrato fascinante do herói mais complexo e surpreendente da Antiguidade”, à semelhança do seu criador, relutante mas decidido, num livro luminoso e muito bem escrito, que devolve ao leitor uma obra-prima da poesia latina.

As Mulheres de Tróia (Quetzal), de Pat Barker (n. 1943, Inglaterra), segue um livro anterior, “O Silêncio da Mulheres” (na mesma editora), as mulheres que fizeram parte dessa grande tragédia que foi a guerra, cerco e destruição de Tróia, cidade conquistada pela artimanha do manhoso Ulisses, aqui descrevendo a vida e destino das vencidas, depois dos vencedores disputarem os despojos, num inolvidável registo de como a visão das troianas está nos antípodas dos gloriosos feitos sanguinários dos varões gregos, beberrões e selvagens.

Montevideu (D. Quixote), de Enrique Vila-Matas (n. 1948, Barcelona), é sua obra mais recente, considerado Livro do Ano em 2022 pelo “El  Mundo”, onde o escritor catalão se interroga sobre a arte do romance, partindo do conto de Cortázar, e pondo em cena um escritor em pleno bloqueio literário, deambulando por Paris, Cascais, Montevideu, qual funambulista sem arame, seguindo os fios de um labirinto, em busca da resposta para a eterna pergunta: “o grande mistério do universo era que houvesse um mistério do universo”.

Tie-Break (Kalandraka), de Álvaro Enrigue (n, 1969, México), no original “Muerte Súbita”. Nas palavras do autor:” Não sei sobre o que é este livro, só sei que o escrevi muito revoltado porque os maus ganham sempre. Talvez todos os livros sejam escritos só porque os maus jogam com vantagem, o que é insuportável”. Servindo-se de uma partida de ténis em Roma, entre o pintor Caravaggio e o poeta Quevedo, estamos em 1599, com a Contra-Reforma anunciando o Barroco e a Inquisição, da conquista do México, da “Utopia” de More, e a destruição do novo mundo.

As Personagens (Relógio d´Água), de Ana Teresa Pereira, é mais um extraordinário capítulo de uma obra incomparável, com ecos de Borges, James, Hawthorne, Maupassant e Woolrich, ou filmes antigos, espelhos, duplos e labirintos, numa alquimia única, como se pode atestar pela novela “O Vampiro e a Estátua” que encerra o volume. “O mundo é um lugar estranho, habitado por seres estranhos”.

José Guardado Moreira
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