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Diretor Fundador: João Ruivo Diretor: João Carrega Ano: XXIII

Cultura Livros & Leituras

21-10-2021

Os mitos em torno da origem da linguagem humana, falada e escrita, são o chão onde nascem as histórias que acalentam a imaginação pelas veredas do maravilhoso. A linguagem dos pássaros é uma dessas sementes que, alimentadas pelas águas da curiosidade, tem suscitado uma colheita mais abundante. Em certas culturas, afiança-se mesmo que a dita linguagem tem proveniência angélica, tendo facultado a magia das palavras aos humanos, para que eles de desentendessem melhor até ao dia em que o mistério lhes fosse inteiramente revelado.

Milagrário Pessoal (Quetzal), de José Eduardo Agualusa (Huambo, 1960), agora reeditado, leva-nos pela mão de um velho anarquista angolano e de uma jovem linguista lusitana pelas páginas de uma descoberta inquietante: o súbito aparecimento de neologismos que surgem como pipocas de fonte desconhecida, com o propósito insidioso de subverter o idioma. O desafio é o de descobrir a fonte de tal anomalia, que terá tido origem num misterioso documento do século XVII, onde se afirma que as palavras terão sido roubadas à “língua dos pássaros”. O enredo é caprichoso como convém a um mistério, tanto mais que um dos jogadores joga com o naipe viciado. Adicionando viagens a Angola e ao Brasil, com personagens bem caprichadas, eis um livro que faz as delícias de qualquer amante da língua portuguesa nas suas diversas matizes.

Memórias de um Craque (Tinta-da-china), em reedição, de Fernando Assis Pacheco (1937 – 1995), jornalista e poeta, é o repositório das crónicas publicadas no jornal desportivo “Record”, em 1972. Como assinala Abel Barros Baptista, que organizou o livro: ”Como testemunho autobiográfico, é precioso a vários títulos, e não será o menor deles aquele respeitante à própria constituição literária (do autor), que em certos aspectos permaneceu fiel ao pequeno “craque”, aqui retratado em clave auto-irónica”. Ou como bem assinalou Manuel António Pina, no “Posfácio”, o autor fala consigo mesmo “escutando furtivamente a sua própria voz” de uma infância feliz em Coimbra, nos anos quarenta, quando o brilho das façanhas desportivas, de bola na calçada aos matraquilhos de toque rápido, se metiam na pele do narrador para nunca mais deixarem de ser o que eram: lembranças de um tempo de ouro e prata, que a memória narrativa eleva à estante dos melhores troféus. Nestas crónicas, é a voz do autor que ressoa, com o seu ar de ironia burlona, numa prosa festiva de grande alcance pirotécnico.

O tenente Maro Conde, polícia cubano com queda para escritor, também protagonista deste segundo volume de Quarteto de Havana (Porto Editora), de Leonardo Padura (n. 1955, Havana), encontra-se numa encruzilhada. Composto por “Morte em Havana” e “Paisagem de Outono”, seguimos os dilemas de Conde, numa cidade à beira da catástrofe atmosférica e dos jogos de poder que agitam as chefias da polícia criminal. Os amigos são um arrimo para as incongruências e dissabores de uma vida cheia de alçapões. No primeiro caso, visitamos o meio artístico e os meandros da vida marginal da capital. No segundo caso, também a arte está no centro da história, mas com um cunho diverso. Além disso, ele vê o seu chefe ser afastado, e questiona-se ao ponto de decidir demitir-se da função. Os quatro livros deste quarteto são, acima de tudo, um hino ou elegia, a uma cidade melancólica, plena de encantos fanados, mas que conserva uma alma caribenha à prova de furacões e outras intempéries mais humanas. Mas aventuras de Conde não terminam por aqui. Pode ser lido em A transparência do tempo”( na mesma editora).

Ente Dois Palácios (E-Primatur) do egípcio Naguib Mahfouz (1911 – 2006), Prémio Nobel da Literatura de 1988, é o primeiro volume da Trilogia do Cairo, esse vasto caos humano e urbanístico, entre os anos de 1917 e 1949, retratando a evolução da sociedade local desde os tempos do domínio britânico aos anos do pós-guerra e do nascimento de um novo país. A lupa do escritor vai reflectir no pequeno mundo de uma família o grande palco dos acontecimentos nacionais, numa aproximação dos comportamentos humanos a uma panorâmica de ângulo aberto, incluindo as vidas pessoais nas suas circunstâncias, num cidade de pequenas ruelas e impressionantes palácios, mesquitas e praças onde a vida se manifesta em toda a sua diversidade. Para um bom complemento de contexto, leia-se

História dos Povos Árabes (BookBuilders), de Albert Hourani (1915 – 1993), que é uma obra de referência fundamental quando se fala dos povos de língua árabe e os seus treze séculos de história em todos os azimutes do tema, uma janela para o mundo islâmico, em todas as suas vertentes.

José Guardado Moreira
 
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