Patrícia Matos, apresentadora do “Diário da Manhã”
Bom dia, Portugal!
Acorda todas as manhãs milhões de portugueses.
Patrícia Matos é o rosto das 6h30 às 10 da manhã na TVI e na TVI
24.
Como é ser o
"despertador" de milhares de
portugueses?
É fantástico! Adoro dizer "bom dia" e é
maravilhoso pensar que as pessoas estão a acordar comigo, a sentir
o despertar do dia com o "Diário da manhã", a informar-se connosco.
É fantástico receber esse reconhecimento das pessoas na rua, nas
redes sociais. E depois, é impagável sentir o dia a começar pelas
nossas mãos, o "Diário da Manhã" é o primeiro espaço de notícias da
TVI e TVI24 e eu também vejo a redação a
acordar!
Qual é a
rotina de trabalho e pessoal de um apresentador que entra no ar às
6h30?
A rotina tem de ser isso mesmo, uma rotina. Este
horário é muito exigente e obriga a grande disciplina sob pena de
alguma coisa não correr tão bem. O despertador toca às 3h50 e às
4h30 estou na TVI. Depois, segue-se revisão de textos de pivô,
conversa com a equipa sobre assuntos do dia, maquilhagem, cabelo e
às 6h20 estou no estúdio. A partir daí é "non stop" até às 10h e
tem mesmo de ser: trânsito, tempo, jornais, convidados, notícias de
última hora, novos textos para ver, o ritmo é alucinante. Quando
acaba, o ritmo abranda: mudo de roupa, como qualquer coisa e
preparo as entrevistas que já temos marcadas para o dia seguinte,
por norma sou eu quem faz isso. Ao meio dia, acabou a parte TVI. É
hora de almoço com amigas, ginásio, ou algum assunto pessoal para
tratar. À tarde posso ter algum período de formação e depois
regresso a casa, descanso, relaxo um bocadinho e não posso fazer
muito mais, está quase na hora de dormir!
Mas esta rotina apenas existe nos meus passos
porque as notícias são imprevisíveis. Não há dois dias iguais e
nunca sabemos o que vai acontecer. Pode surgir tudo, como já se
passou: sismos, tsunamis, atentados, acidentes, crimes. E partir do
momento em que surgem, entre as 6h30 e as 10h, tudo pode mesmo
acontecer.
Já
apresentou boletins noticiosos ao fim de semana, à hora de almoço,
em horário noturno e fixou-se no "Diário da Manhã". Como se tem
adaptado ao fuso matutino e a esta espécie de mundo ao
contrário?
É um verdadeiro mundo ao contrário, sim. Mas
adaptei toda a minha vida para este horário e, até agora, tem
corrido bem! Já fiz um mestrado e em outubro vou começar um
doutoramento. Na verdade, este horário permite aproveitar imenso o
dia. Se se conseguir ter a tal disciplina acaba por ser fácil. Mas
claro que é um sistema anti-natura: pouca gente vive a meio da
noite, e eu acordo mesmo a meio da noite. A meio da semana sou
obrigada a fazer uma sesta. Mas o "Diário da Manhã" é o meu maior
desafio na TVI. E estou absolutamente empenhada em fazê-lo
vingar.
Tem apenas
32 anos e já é um dos rostos da TVI. Aliás, em Portugal existem
muitos pivôs bastante jovens ao contrário, por exemplo, da
realidade nos Estados Unidos, em que os cabelos brancos predominam.
Acha importante a mescla entre juventude e
experiência?
Os pivôs envelhecem, comem, choram! São pessoas
absolutamente normais! Não podemos estar na mesma! Com as redações
cada vez mais novas, o grande desafio é manter a memória. Sou
absolutamente a favor. Não podemos crescer sem história, jamais.
Temos de aproveitar esses activos que já testemunharam tantos
momentos históricos, tantas situações irrepetíveis e sugar o que de
melhor nos podem dar. E esses ajudarem os mais novos a crescer, a
fazer melhor, a superar a sua prestação todos os dias. Só assim faz
sentido.
Durante anos
a rádio mandou nas audiências da manhã. Ultimamente, a TV tem ganho
fulgor, mas as redes sociais ainda são o veículo preferido para
milhões se informarem. Quais são as vantagens e os perigos de estar
informado com base nas redes sociais e nos comentários, uns
parciais outros coléricos?
São todos públicos diferentes. Hoje, as redes
sociais são dos meios preferidos dos portugueses para se
informarem. Há vários perigos: primeiro, a origem da informação,
que pode ser fidedigna ou não e, depois, as partilhas e a
velocidade a que tudo circula. Uma notícia, vídeo, post pode
tornar-se viral em poucas horas, há vários exemplos disso e até
muito recentes. Há relativamente pouco tempo surgiu o conceito do
"jornalismo do cidadão" com o qual não concordo. Somos todos
cidadãos mas não somos todos jornalistas nem temos a mesma
capacidade de crítica e análise imediatas para perceber o que
comunicar e de que forma o fazer e isso pode ser perigoso. Em
televisão demora muito pouco tempo a destruir a imagem de alguém e
nas redes sociais, arrisco, essa "eficácia" é ainda maior, não
esqueçamos que uma vez na web, para sempre na
web.
Está na TVI
desde 2007 e fundou o projeto TVI 24. Há alguns anos duvidava-se
que houvesse espaço para um canal de informação 24 horas. Hoje
existem quatro, todos no cabo, e com índices de audiência
assinaláveis. Como explica este
fenómeno?
As pessoas têm necessidade de estar informadas em
tempo real, cada vez mais. Isso acontece por vários motivos:
curiosidade, necessidade e vontade. Todos os canais portugueses
apresentam programações diferentes, ainda que se toquem em alguns
momentos, como é o caso do futebol, fóruns, duração dos
noticiários. A audiência que esses canais têm é a prova que há
público para eles. Mas o imediato cativa muito a audiência e agora
já não precisam esperar pelas 13 horas ou pelas 20 horas para saber
o que se passa no mundo - a informação está à distância da
vontade. Mas deixe-me dizer que há três canais de
notícias, a RTP3, TVI24, SIC-Notícias. A CMTV é um canal
generalista!
Substituir
Manuela Moura Guedes no "Jornal Nacional" de sexta-feira, no dia 4
de setembro de 2009, foi a sua prova de fogo
profissional?
Foi um momento complicado por toda a situação.
Mas foi uma prova superada, o "Jornal Nacional" desse dia foi o
programa mais visto do ano de 2009. A expectativa era grande, mas
podia ter desaparecido ao fim de uns minutos e não, ganhou do
início ao fim. Havia uma grande expectativa e isso fez toda a
diferença e foi isso também que tornou o desafio mais temível. Sim,
foi a grande prova de fogo porque a redação da TVI não voltou a
viver um momento com tanta carga profissional e emocional, nós
somos pessoas e não conseguimos dissociar-nos da realidade. Estou
grata a quem confiou em mim para o fazer, a quem ainda hoje
considera que eu fui a escolha certa. Isso enche-me de
orgulho.
Testemunhou
momentos de grande tensão durante uma manifestação ocorrida no
Parlamento, em que chegou a ser atingida. Foi a prova de que ser
jornalista é uma profissão de alto risco e de desgaste
rápido?
Este foi outro momento complicado… às vezes
corremos estes riscos e estar na frente, informar, implica isto
tudo. Mesmo sendo em Portugal e durante uma marcha que estava a ser
pacífica até então. Nem percebemos muito bem como aconteceu porque
foi tudo muito rápido, a partir do momento em que fomos embrulhados
no meio da multidão. Não podíamos nem queríamos fugir para lado
nenhum.
O desgaste é grande perante situações de risco,
naturalmente. Só conseguimos sentir os verdadeiros efeitos depois,
quando o nosso corpo começa a relaxar, após o pico de adrenalina.
Mas os jornalistas vivem destas situações. E isto pode acontecer
numa redação, num jogo de futebol, numa entrevista… a realidade é
absolutamente imprevisível mas é isso que a torna apelativa, é isso
que motiva o jornalista: não saber nunca o que vai encontrar, onde
pode ir parar. Só temos de estar preparados para essas situações de
modo a fazer o nosso trabalho com a máxima calma e profissionalismo
e com o mínimo dano para nós, a experiência
ajuda.
O trabalho
de pivô fê-la abandonar a faceta de repórter. Sente saudades de
pegar no microfone e ir ao terreno, ao encontro da
notícia?
Muitas! Mas eu não abandonei, isso nunca se
abandona! Às vezes ainda vou, quando consigo "fugir" mas é verdade
que é mais raro, estou a tempo inteiro no "Diário da Manhã". A
reportagem é a essência do jornalismo, é isso que nos faz crescer,
que nos ensina, que nos move. É na rua, a sujar as botas que tudo
faz sentido, pelo menos para mim. Fiz muitas reportagens, das mais
diversas áreas (saúde, sociedade, economia), não fui sempre pivô,
mas falta-me ainda fazer tudo. As pessoas são maravilhosas, sem
elas não há mundo, não há história, não há nada. E elas não estão
numa redação. Sou sempre muito feliz cada vez que pego no microfone
e vou à procura da história.
Qual a sua
definição da profissão de jornalista no século
XXI?
Na base, o jornalista é sempre o mesmo, o
objetivo da profissão nunca pode mudar, sob pena de se desvirtuar.
O jornalista tem de procurar sempre a verdade, o limite das
explicações, as várias versões da história, com rigor. E é isso que
tem de continuar a ser. Mas a sociedade hoje apresenta desafios que
não existiam, por exemplo, há 20 anos ou até há 10, quando eu
comecei. Hoje é preciso dominar mais assuntos, saber mais sobre
tudo, e até estar disponível para aprender. O jornalista não pode
parar a sua formação, não pode apenas alimentar-se da agenda
diária, apesar de trabalhar com ela. O jornalista tem de saber o
que outros fazem (cá dentro e lá fora), tem de procurar isso e não
esperar que os assuntos venham ao seu encontro. E depois há as
redes sociais que podem complicar o trabalho do jornalista devido à
disponibilidade e até capacidade que é preciso ter para comunicar
neste mundo tão específico. As linguagens nas várias plataformas
são muito diferentes e o jornalista tem de entender, se lhe for
dada essa tarefa e se assim também o quiser, que não pode comunicar
na televisão da mesma forma que comunica no Facebook ou numa
notícia de jornal.
Queria ser
professora de inglês, mas acabou por dar os primeiros passos na
rádio com tenra idade, aos 12 anos, e depois num jornal regional,
até que vai parar à TV. Pode-se dizer que o pequeno ecrã foi uma
paixão tardia?
A televisão foi uma paixão tardia mas fulminante!
Toda a minha formação foi direcionada para a rádio mas o destino
interveio. Sou profundamente apaixonada por aquilo que faço. A
televisão é o meio mais completo, aquele que nos permite usar a
imagem, o som e o grafismo ao máximo. Se o soubermos fazer, o
resultado é tremendo. Hoje não me imagino a comunicar de outra
maneira apesar de nunca imaginar fazer isto. Estou onde quero
estar, faço aquilo que adoro e sei que sou uma
privilegiada.
André Vilas
Boas disse, quando treinou o FC Porto, que estava na sua cadeira de
sonho. O "Diário da Manhã" é a sua cadeira de sonho ou está nos
seus horizontes ser o pivô do "Jornal
Nacional"?
Os jornalistas querem sempre apresentar jornais
de referência e o "Jornal das 8" é um jornal de referência. Para
já, estou no "Diário da Manhã". Mudo quando a Direção de informação
da TVI assim o entender. Tenho ambição, claro que sim, mas não
tenho qualquer pressa, o caminho é que conta,
sempre.
A cadeira de pivô é sempre uma cadeira de sonho.
Para mim também, mas é acima de tudo, um lugar de imensa
responsabilidade, que tento honrar ao máximo todos os dias, de modo
a ser merecedora da confiança que depositam em
mim.
Para além de
jornalista é formadora e professora universitária. Do contacto que
tem com os profissionais do amanhã, sente que há talentos em
potência e que estão preparados e mentalizados para abraçar uma
profissão exigente, que exige tempo e disponibilidade ou que muitos
só se movem pelo fascínio da câmara e da
fama?
Sinto que há várias coisas, é um misto. Há
pessoas com imenso potencial e muita vontade, outras com igual
vontade mas menos potencial. A grande diferença em tudo é o
trabalho, a preparação, estar informado, dentro do meio e dos
assuntos. Jornalismo é talento, sim, tem de ser mesmo. Se não
houver é muito complicado mas se houver apenas talento e não houver
qualquer esforço, mais cedo ou mais tarde, o que os sustenta
termina. Por mais que se saiba, nunca chega. Nunca sabemos tudo,
nunca estamos a par de tudo. Quanto mais informação estiver na
nossa posse, mais facilmente gerimos todas as situações: as
simples, as difíceis e as dramáticas.
Mas sim, há também a ideia do sucesso fácil, que
não é compatível com o cenário de que falei antes. Parece tudo
fácil: "aparecer na televisão" é um sonho para muitas pessoas que
trazem uma ideia errada deste mundo. Temos uma frase que explica
tudo: televisão é ilusão! Têm essa ideia errada porque a
construíram assim ou porque viram exemplos que o corroboravam. O
erro está na base, na ideia inicial. Ao depararem-se com a
realidade, difícil e combativa, desistem. Quem quer ser jornalista
não pode desistir.
Muitos
licenciados em Jornalismo e Comunicação Social, fruto de um mercado
cada vez mais exíguo e nas mãos de cada vez menos grupos
económicos, viram o seu percurso desviado para áreas que nada têm a
ver com este campo de atividade. Que mensagem deixaria para estas
pessoas?
O Jornalismo é como outra área qualquer,
Medicina, talvez: são muitos candidatos para poucos lugares. Não há
uma forma simpática de encarar a realidade: está difícil, não há
lugar para todos e cada vez há mais jornalistas sem trabalho. Eu
sou otimista e apesar de todas as estatísticas me contrariarem
continuo a acreditar que tudo é possível. Se houver esforço,
espirito de sacrifício, muita dedicação, muita vontade, tudo é
possível. Se eu consegui porque não hão-de outros conseguir também?
Não desistir, nunca. Esta é a minha principal
mensagem.
Às vezes a vida resolve. Por
vontade própria, eu nunca estaria na televisão e afinal… é aqui que
sou feliz. Não devemos ser inflexíveis. É preciso olhar para todas
as opções, ponderar as alternativas e nunca descartar a
possibilidade de aprender, de crescer enquanto pessoa e
profissional porque serão sempre as características individuais as
mais diferenciadoras. O que nós somos ninguém pode ser e é por isso
que somos tão necessários!