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Director Fundador: João Ruivo Director: João Carrega Ano XXI Nº248  Outubro 2018
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Entrevista

Patrícia Matos, apresentadora do “Diário da Manhã”
Bom dia, Portugal!

IMG_4002.jpgAcorda todas as manhãs milhões de portugueses. Patrícia Matos é o rosto das 6h30 às 10 da manhã na TVI e na TVI 24.

Como é ser o "despertador" de milhares de portugueses?

É fantástico! Adoro dizer "bom dia" e é maravilhoso pensar que as pessoas estão a acordar comigo, a sentir o despertar do dia com o "Diário da manhã", a informar-se connosco. É fantástico receber esse reconhecimento das pessoas na rua, nas redes sociais. E depois, é impagável sentir o dia a começar pelas nossas mãos, o "Diário da Manhã" é o primeiro espaço de notícias da TVI e TVI24 e eu também vejo a redação a acordar!

Qual é a rotina de trabalho e pessoal de um apresentador que entra no ar às 6h30?

A rotina tem de ser isso mesmo, uma rotina. Este horário é muito exigente e obriga a grande disciplina sob pena de alguma coisa não correr tão bem. O despertador toca às 3h50 e às 4h30 estou na TVI. Depois, segue-se revisão de textos de pivô, conversa com a equipa sobre assuntos do dia, maquilhagem, cabelo e às 6h20 estou no estúdio. A partir daí é "non stop" até às 10h e tem mesmo de ser: trânsito, tempo, jornais, convidados, notícias de última hora, novos textos para ver, o ritmo é alucinante. Quando acaba, o ritmo abranda: mudo de roupa, como qualquer coisa e preparo as entrevistas que já temos marcadas para o dia seguinte, por norma sou eu quem faz isso. Ao meio dia, acabou a parte TVI. É hora de almoço com amigas, ginásio, ou algum assunto pessoal para tratar. À tarde posso ter algum período de formação e depois regresso a casa, descanso, relaxo um bocadinho e não posso fazer muito mais, está quase na hora de dormir!

Mas esta rotina apenas existe nos meus passos porque as notícias são imprevisíveis. Não há dois dias iguais e nunca sabemos o que vai acontecer. Pode surgir tudo, como já se passou: sismos, tsunamis, atentados, acidentes, crimes. E partir do momento em que surgem, entre as 6h30 e as 10h, tudo pode mesmo acontecer.

Já apresentou boletins noticiosos ao fim de semana, à hora de almoço, em horário noturno e fixou-se no "Diário da Manhã". Como se tem adaptado ao fuso matutino e a esta espécie de mundo ao contrário?

É um verdadeiro mundo ao contrário, sim. Mas adaptei toda a minha vida para este horário e, até agora, tem corrido bem! Já fiz um mestrado e em outubro vou começar um doutoramento. Na verdade, este horário permite aproveitar imenso o dia. Se se conseguir ter a tal disciplina acaba por ser fácil. Mas claro que é um sistema anti-natura: pouca gente vive a meio da noite, e eu acordo mesmo a meio da noite. A meio da semana sou obrigada a fazer uma sesta. Mas o "Diário da Manhã" é o meu maior desafio na TVI. E estou absolutamente empenhada em fazê-lo vingar.

Tem apenas 32 anos e já é um dos rostos da TVI. Aliás, em Portugal existem muitos pivôs bastante jovens ao contrário, por exemplo, da realidade nos Estados Unidos, em que os cabelos brancos predominam. Acha importante a mescla entre juventude e experiência?

Os pivôs envelhecem, comem, choram! São pessoas absolutamente normais! Não podemos estar na mesma! Com as redações cada vez mais novas, o grande desafio é manter a memória. Sou absolutamente a favor. Não podemos crescer sem história, jamais. Temos de aproveitar esses activos que já testemunharam tantos momentos históricos, tantas situações irrepetíveis e sugar o que de melhor nos podem dar. E esses ajudarem os mais novos a crescer, a fazer melhor, a superar a sua prestação todos os dias. Só assim faz sentido.

Durante anos a rádio mandou nas audiências da manhã. Ultimamente, a TV tem ganho fulgor, mas as redes sociais ainda são o veículo preferido para milhões se informarem. Quais são as vantagens e os perigos de estar informado com base nas redes sociais e nos comentários, uns parciais outros coléricos?

São todos públicos diferentes. Hoje, as redes sociais são dos meios preferidos dos portugueses para se informarem. Há vários perigos: primeiro, a origem da informação, que pode ser fidedigna ou não e, depois, as partilhas e a velocidade a que tudo circula. Uma notícia, vídeo, post pode tornar-se viral em poucas horas, há vários exemplos disso e até muito recentes. Há relativamente pouco tempo surgiu o conceito do "jornalismo do cidadão" com o qual não concordo. Somos todos cidadãos mas não somos todos jornalistas nem temos a mesma capacidade de crítica e análise imediatas para perceber o que comunicar e de que forma o fazer e isso pode ser perigoso. Em televisão demora muito pouco tempo a destruir a imagem de alguém e nas redes sociais, arrisco, essa "eficácia" é ainda maior, não esqueçamos que uma vez na web, para sempre na web.

IMG_4122.jpgEstá na TVI desde 2007 e fundou o projeto TVI 24. Há alguns anos duvidava-se que houvesse espaço para um canal de informação 24 horas. Hoje existem quatro, todos no cabo, e com índices de audiência assinaláveis. Como explica este fenómeno?

As pessoas têm necessidade de estar informadas em tempo real, cada vez mais. Isso acontece por vários motivos: curiosidade, necessidade e vontade. Todos os canais portugueses apresentam programações diferentes, ainda que se toquem em alguns momentos, como é o caso do futebol, fóruns, duração dos noticiários. A audiência que esses canais têm é a prova que há público para eles. Mas o imediato cativa muito a audiência e agora já não precisam esperar pelas 13 horas ou pelas 20 horas para saber o que se passa no mundo - a informação está à distância da vontade.   Mas deixe-me dizer que há três canais de notícias, a RTP3, TVI24, SIC-Notícias. A CMTV é um canal generalista!

Substituir Manuela Moura Guedes no "Jornal Nacional" de sexta-feira, no dia 4 de setembro de 2009, foi a sua prova de fogo profissional?

Foi um momento complicado por toda a situação. Mas foi uma prova superada, o "Jornal Nacional" desse dia foi o programa mais visto do ano de 2009. A expectativa era grande, mas podia ter desaparecido ao fim de uns minutos e não, ganhou do início ao fim. Havia uma grande expectativa e isso fez toda a diferença e foi isso também que tornou o desafio mais temível. Sim, foi a grande prova de fogo porque a redação da TVI não voltou a viver um momento com tanta carga profissional e emocional, nós somos pessoas e não conseguimos dissociar-nos da realidade. Estou grata a quem confiou em mim para o fazer, a quem ainda hoje considera que eu fui a escolha certa. Isso enche-me de orgulho.

Testemunhou momentos de grande tensão durante uma manifestação ocorrida no Parlamento, em que chegou a ser atingida. Foi a prova de que ser jornalista é uma profissão de alto risco e de desgaste rápido?

Este foi outro momento complicado… às vezes corremos estes riscos e estar na frente, informar, implica isto tudo. Mesmo sendo em Portugal e durante uma marcha que estava a ser pacífica até então. Nem percebemos muito bem como aconteceu porque foi tudo muito rápido, a partir do momento em que fomos embrulhados no meio da multidão. Não podíamos nem queríamos fugir para lado nenhum.

O desgaste é grande perante situações de risco, naturalmente. Só conseguimos sentir os verdadeiros efeitos depois, quando o nosso corpo começa a relaxar, após o pico de adrenalina. Mas os jornalistas vivem destas situações. E isto pode acontecer numa redação, num jogo de futebol, numa entrevista… a realidade é absolutamente imprevisível mas é isso que a torna apelativa, é isso que motiva o jornalista: não saber nunca o que vai encontrar, onde pode ir parar. Só temos de estar preparados para essas situações de modo a fazer o nosso trabalho com a máxima calma e profissionalismo e com o mínimo dano para nós, a experiência ajuda.

O trabalho de pivô fê-la abandonar a faceta de repórter. Sente saudades de pegar no microfone e ir ao terreno, ao encontro da notícia?

Muitas! Mas eu não abandonei, isso nunca se abandona! Às vezes ainda vou, quando consigo "fugir" mas é verdade que é mais raro, estou a tempo inteiro no "Diário da Manhã". A reportagem é a essência do jornalismo, é isso que nos faz crescer, que nos ensina, que nos move. É na rua, a sujar as botas que tudo faz sentido, pelo menos para mim. Fiz muitas reportagens, das mais diversas áreas (saúde, sociedade, economia), não fui sempre pivô, mas falta-me ainda fazer tudo. As pessoas são maravilhosas, sem elas não há mundo, não há história, não há nada. E elas não estão numa redação. Sou sempre muito feliz cada vez que pego no microfone e vou à procura da história.

Qual a sua definição da profissão de jornalista no século XXI?

Na base, o jornalista é sempre o mesmo, o objetivo da profissão nunca pode mudar, sob pena de se desvirtuar. O jornalista tem de procurar sempre a verdade, o limite das explicações, as várias versões da história, com rigor. E é isso que tem de continuar a ser. Mas a sociedade hoje apresenta desafios que não existiam, por exemplo, há 20 anos ou até há 10, quando eu comecei. Hoje é preciso dominar mais assuntos, saber mais sobre tudo, e até estar disponível para aprender. O jornalista não pode parar a sua formação, não pode apenas alimentar-se da agenda diária, apesar de trabalhar com ela. O jornalista tem de saber o que outros fazem (cá dentro e lá fora), tem de procurar isso e não esperar que os assuntos venham ao seu encontro. E depois há as redes sociais que podem complicar o trabalho do jornalista devido à disponibilidade e até capacidade que é preciso ter para comunicar neste mundo tão específico. As linguagens nas várias plataformas são muito diferentes e o jornalista tem de entender, se lhe for dada essa tarefa e se assim também o quiser, que não pode comunicar na televisão da mesma forma que comunica no Facebook ou numa notícia de jornal.

Queria ser professora de inglês, mas acabou por dar os primeiros passos na rádio com tenra idade, aos 12 anos, e depois num jornal regional, até que vai parar à TV. Pode-se dizer que o pequeno ecrã foi uma paixão tardia?

A televisão foi uma paixão tardia mas fulminante! Toda a minha formação foi direcionada para a rádio mas o destino interveio. Sou profundamente apaixonada por aquilo que faço. A televisão é o meio mais completo, aquele que nos permite usar a imagem, o som e o grafismo ao máximo. Se o soubermos fazer, o resultado é tremendo. Hoje não me imagino a comunicar de outra maneira apesar de nunca imaginar fazer isto. Estou onde quero estar, faço aquilo que adoro e sei que sou uma privilegiada.

André Vilas Boas disse, quando treinou o FC Porto, que estava na sua cadeira de sonho. O "Diário da Manhã" é a sua cadeira de sonho ou está nos seus horizontes ser o pivô do "Jornal Nacional"?

Os jornalistas querem sempre apresentar jornais de referência e o "Jornal das 8" é um jornal de referência. Para já, estou no "Diário da Manhã". Mudo quando a Direção de informação da TVI assim o entender. Tenho ambição, claro que sim, mas não tenho qualquer pressa, o caminho é que conta, sempre.

A cadeira de pivô é sempre uma cadeira de sonho. Para mim também, mas é acima de tudo, um lugar de imensa responsabilidade, que tento honrar ao máximo todos os dias, de modo a ser merecedora da confiança que depositam em mim.

Para além de jornalista é formadora e professora universitária. Do contacto que tem com os profissionais do amanhã, sente que há talentos em potência e que estão preparados e mentalizados para abraçar uma profissão exigente, que exige tempo e disponibilidade ou que muitos só se movem pelo fascínio da câmara e da fama?

Sinto que há várias coisas, é um misto. Há pessoas com imenso potencial e muita vontade, outras com igual vontade mas menos potencial. A grande diferença em tudo é o trabalho, a preparação, estar informado, dentro do meio e dos assuntos. Jornalismo é talento, sim, tem de ser mesmo. Se não houver é muito complicado mas se houver apenas talento e não houver qualquer esforço, mais cedo ou mais tarde, o que os sustenta termina. Por mais que se saiba, nunca chega. Nunca sabemos tudo, nunca estamos a par de tudo. Quanto mais informação estiver na nossa posse, mais facilmente gerimos todas as situações: as simples, as difíceis e as dramáticas.

Mas sim, há também a ideia do sucesso fácil, que não é compatível com o cenário de que falei antes. Parece tudo fácil: "aparecer na televisão" é um sonho para muitas pessoas que trazem uma ideia errada deste mundo. Temos uma frase que explica tudo: televisão é ilusão! Têm essa ideia errada porque a construíram assim ou porque viram exemplos que o corroboravam. O erro está na base, na ideia inicial. Ao depararem-se com a realidade, difícil e combativa, desistem. Quem quer ser jornalista não pode desistir.

Muitos licenciados em Jornalismo e Comunicação Social, fruto de um mercado cada vez mais exíguo e nas mãos de cada vez menos grupos económicos, viram o seu percurso desviado para áreas que nada têm a ver com este campo de atividade. Que mensagem deixaria para estas pessoas?

O Jornalismo é como outra área qualquer, Medicina, talvez: são muitos candidatos para poucos lugares. Não há uma forma simpática de encarar a realidade: está difícil, não há lugar para todos e cada vez há mais jornalistas sem trabalho. Eu sou otimista e apesar de todas as estatísticas me contrariarem continuo a acreditar que tudo é possível. Se houver esforço, espirito de sacrifício, muita dedicação, muita vontade, tudo é possível. Se eu consegui porque não hão-de outros conseguir também? Não desistir, nunca. Esta é a minha principal mensagem.

Às vezes a vida resolve. Por vontade própria, eu nunca estaria na televisão e afinal… é aqui que sou feliz. Não devemos ser inflexíveis. É preciso olhar para todas as opções, ponderar as alternativas e nunca descartar a possibilidade de aprender, de crescer enquanto pessoa e profissional porque serão sempre as características individuais as mais diferenciadoras. O que nós somos ninguém pode ser e é por isso que somos tão necessários!

Nuno Dias da Silva