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Director Fundador: João Ruivo Director: João Carrega Ano XXI Nº248  Outubro 2018
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Universidade

Estudo em Coimbra
Vergonhas em criança

Marcela Matos copy.jpgIndivíduos cujas experiências de vergonha na infância e na adolescência funcionam como memórias traumáticas e se tornam centrais para a sua identidade e história de vida, estão mais propensos a desenvolver psicopatologia (sofrimento psicológico e emocional) na idade adulta, revela o estudo "Memórias da vergonha que moldam quem somos", realizado pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra ao longo dos últimos cinco anos.

A pesquisa, a primeira a nível internacional sobre a fenomenologia das experiências e memórias de vergonha (as suas componentes emocionais, cognitivas e comportamentais), explorou episódios de vergonha vividos na infância e na adolescência e em que medida passaram a funcionar como memórias traumáticas e autobiográficas, condicionando a sua identidade, comportamento e saúde mental na idade adulta. Compreendeu 3 mil entrevistas junto da população geral e 120 em pacientes com diagnósticos diversos (depressão, perturbações ansiosas, do comportamento alimentar e da personalidade, etc.).

Marcela Matos, que realizou a sua tese de doutoramento no âmbito deste projecto, alerta para a necessidade de intervenção clínica não só na vergonha, mas também nas memórias da vergonha. "Os clínicos devem estar mais atentos a esta emoção e ao seu papel na sintomatologia do doente. A vergonha é uma emoção transdiagnóstica e se não for detetada e tratada atempadamente pode, não só funcionar como um obstáculo à terapia, mas também estar associada a vários sintomas de psicopatologia e levar à autodestruição. Deve-se ainda apostar na adoção de medidas de prevenção na infância e na adolescência, nomeadamente junto dos agentes educativos", salienta.

No estudo, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e orientado pelos professores José Pinto Gouveia, da Universidade de Coimbra, e Paul Gilbert, da Mental Health Research Unit (Reino Unido), reconhecido como a autoridade mundial do estudo da vergonha, as memórias de vergonha mais traumáticas referidas pelos entrevistados foram: experiências de abuso físico, abuso sexual, negligência emocional, crítica e desvalorização, comentários negativos sobre o corpo, bullying e comparações negativas com outros (ex. irmãos).