O médico e autor João Magalhães em entrevista
Receita para obter um bom Médico
João
Magalhães é o autor do livro "Quero ser Médico", editado pela
Arena. Escrito a pensar nos jovens que, tal como ele, um dia
sonharam em entrar em medicina, "Quero ser Médico" ajuda potenciais
candidatos a médicos a conseguir as notas exigidas para ingressar
no curso e a terminar com êxito. Ele mesma conta (por e-mail) como
chegou à sua decisão de querer ser médico; os anos de voluntariado
em Moçambique e na Índia; e de como a empatia, mais ainda do que o
conhecimento, é determinante para o exercício da medicina.
Quais as são as principais linhas de
orientação que, os alunos que pensam num curso de medicina, podem
encontrar no livro "Quero ser Médico!"?
Na minha obra, partilho conteúdos que estão divididos entre três
principais linhas de orientação: 1 - Porquê medicina? A decisão; 2
- Como entrar em Medicina; 3- O curso de Medicina.
Na primeira parte do livro começo por apresentar os conceitos
fundamentais da Medicina e contar como a Medicina evoluiu até aos
dias de hoje. De seguida, apresento quais os pontos mais atrativos
e quais as dúvidas mais comuns relativamente ao curso e à profissão
médica. Esta parte também ajuda os mais indecisos a tomar uma
decisão sobre o seu futuro.
Na segunda parte do livro, dou as dicas mais fundamentais para
entrar em Medicina (ou qualquer outro curso com nota de acesso
alta). Dou dicas sobre todos os pontos mais importantes, desde a
escola e as aulas, ao estudo e às avaliações. Dei as dicas de modo
a que os alunos nunca deixem de ter tempo para realizar outras
atividades que também gostam. Esta parte também inclui algumas
mensagens para os pais dos alunos.
Na terceira e última parte do livro explico a estrutura e conteúdo
geral do curso de Medicina no nosso país, as suas características
principais e também partilho algumas dicas importantes para
realizar o curso com sucesso. O livro acaba a informar sobre as
possibilidades de estudar medicina no estrangeiro e e sobre o que
acontece depois de terminares o curso.
Ao todo, existe um total de 28 dicas concretas ao longo do livro.
Para além de todas essas dicas, uma das grandes vantagens do livro
é o facto de reunir uma série de outras ferramentas e informações
importantes: formas de acesso ao ensino superior, peso de cada
avalição na nota de candidatura, rankings das melhores escolas,
notas de acesso e vagas das faculdades de Medicina, websites úteis,
entre muitas outras.
Em que momento da sua vida decidiu que
queria ser médico?
Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que senti interesse
pela Medicina. Foi no dia em que celebrei o meu sexto aniversário
em Bedford, Inglaterra. Nesse dia, recebi como prenda dos meus avós
um livro grande chamado "O Nosso Corpo". Lembro-me bem de ter
ficado fascinado com a complexidade e a perfeição do nosso corpo, e
creio que foi imerso nas páginas desse livro que terei sentido a
aspiração a ser médico pela primeira vez.
No entanto, a decisão propriamente dita nunca nasce num momento
único e isolado. É uma ideia que vai crescendo e amadurecendo ao
longo do tempo e na medida que se vai passando por diferentes
experiências ao longo da vida.
Qual foi o melhor conselho que recebeu
quando entrou para medicina?
O melhor conselho que recebi quando entrei para medicina foi de
uma amiga minha que tinha entrado na minha faculdade (Universidade
do Porto) no ano anterior a mim. Fiz questão de realçar esse mesmo
conselho no meu livro: Realiza um esforço acrescido no primeiro ano
do curso, de modo a ultrapassar os "cadeirões do curso" à
primeira.
Sei que esta dica foi fundamental porque para além de ter ficado
com mais motivação, obtive boas notas e passei a ter uma média alta
"a defender". Dessa forma, acabei por manter um esforço mais
constante e natural ao longo do resto do curso.
Fez voluntariado na Índia e em
Moçambique, desse tempo há alguma história que o tenha tocado em
particular?
Sim. Tanto em Moçambique como na Índia, aquilo que mais me
marcou foi o facto de ter testemunhado que a felicidade tem pouco a
ver com os bens materiais que temos.
Em Moçambique fiz muitos amigos que viviam da forma mais simples
possível. Um dos meus melhores amigos chamava-se Mavô. Quando
conheci o Mavô, ele tinha 14 anos como eu, mas em vez de ter dez
mudas de roupa, tinha apenas uma muda que lavava ao fim de cada
dia. O Mavô tinha acabado de construir a sua primeira casa, com
barro, palha e as suas próprias mãos. Ao lado da sua palhota, tinha
umas galinhas, uma pequena plantação de milho, algumas árvores
frutíferas (mangueira, bananeira, papaieira)... e chegava! A
necessidade de trabalhar era praticamente nula porque a natureza
fornecia tudo. Apesar de ter pouco, tanto o Mavô como os meus
restantes amigos viviam com uma postura alegre e agradecida. A
saber sorrir diariamente com o pouco que tinham.
A viagem à Índia também me marcou muito. Fui acompanhado com a
minha mulher (na altura minha namorada) que esteve com um síndrome
febril durante várias semanas. Apanhámos um susto porque ela teve
mesmo de ficar internada no Hospital de Varanasi durante três dias.
Passadas duas semanas, numa cidade chamada Pushkar no meio do
Rajastão, foi a minha vez de apanhar uma gastroenterite aguda que
me deixou muito mal, com uma febre muito alta e a delirar.
Quando voltámos para Portugal pedi a minha mulher em
casamento.
Ela aceitou.
O seu livro também poderá levar à tomada
de uma decisão em contrário: "a medicina não é para mim"?
Claro que sim! Esse foi um dos grandes objetivos de escrever o
livro. Não apenas para ajudar aqueles que sentem uma forte
convicção relativamente à medicina, mas também para ajudar a
orientar todos aqueles que tenham dúvidas ou hesitações.
Atualmente, quais são as maiores
dificuldades encontradas no desempenho de uma carreira em
medicina?
As maiores dificuldades são as mesmas de quase todas as
profissões: manter um elevado nível de disciplina e atenção
constante; ter disponibilidade mental para conseguir identificar
aquilo que está mal e que pode ser melhorado; ter criatividade para
ultrapassar os problemas existentes de forma benéfica e eficaz; ter
uma boa capacidade de adaptação à mudança e aos novos avanços
existentes; saber refletir sobre as potenciais mudanças para não
arriscar trabalhar com irracionalidade; e por último, mas não menos
importante, saber conciliar a atividade profissional com a vida
pessoal e familiar.
Existem ainda alguns desafios relacionados com a própria realidade
clínica e a realidade do nosso tempo. Ter empatia e saber comunicar
com pessoas que têm todo o tipo de ritmos e feitios, pertencentes a
uma sociedade que é cada vez mais educada, curiosa e exigente.
Manter um rigor científico cada vez mais exigente e apurado.
«Nenhuma dificuldade é superior à nossa
determinação de a vencer» - Daniel Serrão. Para além da
determinação, quais são as outras características necessárias a um
médico?
Empatia e conhecimento científico. Nessa ordem.
Mais vale existir empatia sem conhecimento, do que conhecimento sem
empatia.
O cerne de todas as nossas decisões deve ser a empatia.