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Director Fundador: João Ruivo Director: João Carrega Ano XXI Nº248  Outubro 2018
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Entrevista

O médico e autor João Magalhães em entrevista
Receita para obter um bom Médico

Foto João Magalhães copy.jpgJoão Magalhães é o autor do livro "Quero ser Médico", editado pela Arena. Escrito a pensar nos jovens que, tal como ele, um dia sonharam em entrar em medicina, "Quero ser Médico" ajuda potenciais candidatos a médicos a conseguir as notas exigidas para ingressar no curso e a terminar com êxito. Ele mesma conta (por e-mail) como chegou à sua decisão de querer ser médico; os anos de voluntariado em Moçambique e na Índia; e de como a empatia, mais ainda do que o conhecimento, é determinante para o exercício da medicina.

Quais as são as principais linhas de orientação que, os alunos que pensam num curso de medicina, podem encontrar no livro "Quero ser Médico!"?

Na minha obra, partilho conteúdos que estão divididos entre três principais linhas de orientação: 1 - Porquê medicina? A decisão; 2 - Como entrar em Medicina; 3- O curso de Medicina.
Na primeira parte do livro começo por apresentar os conceitos fundamentais da Medicina e contar como a Medicina evoluiu até aos dias de hoje. De seguida, apresento quais os pontos mais atrativos e quais as dúvidas mais comuns relativamente ao curso e à profissão médica. Esta parte também ajuda os mais indecisos a tomar uma decisão sobre o seu futuro.
Na segunda parte do livro, dou as dicas mais fundamentais para entrar em Medicina (ou qualquer outro curso com nota de acesso alta). Dou dicas sobre todos os pontos mais importantes, desde a escola e as aulas, ao estudo e às avaliações. Dei as dicas de modo a que os alunos nunca deixem de ter tempo para realizar outras atividades que também gostam. Esta parte também inclui algumas mensagens para os pais dos alunos.
Na terceira e última parte do livro explico a estrutura e conteúdo geral do curso de Medicina no nosso país, as suas características principais e também partilho algumas dicas importantes para realizar o curso com sucesso. O livro acaba a informar sobre as possibilidades de estudar medicina no estrangeiro e e sobre o que acontece depois de terminares o curso.
Ao todo, existe um total de 28 dicas concretas ao longo do livro. Para além de todas essas dicas, uma das grandes vantagens do livro é o facto de reunir uma série de outras ferramentas e informações importantes: formas de acesso ao ensino superior, peso de cada avalição na nota de candidatura, rankings das melhores escolas, notas de acesso e vagas das faculdades de Medicina, websites úteis, entre muitas outras.

Em que momento da sua vida decidiu que queria ser médico?

Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que senti interesse pela Medicina. Foi no dia em que celebrei o meu sexto aniversário em Bedford, Inglaterra. Nesse dia, recebi como prenda dos meus avós um livro grande chamado "O Nosso Corpo". Lembro-me bem de ter ficado fascinado com a complexidade e a perfeição do nosso corpo, e creio que foi imerso nas páginas desse livro que terei sentido a aspiração a ser médico pela primeira vez.
No entanto, a decisão propriamente dita nunca nasce num momento único e isolado. É uma ideia que vai crescendo e amadurecendo ao longo do tempo e na medida que se vai passando por diferentes experiências ao longo da vida.

Qual foi o melhor conselho que recebeu quando entrou para medicina?

O melhor conselho que recebi quando entrei para medicina foi de uma amiga minha que tinha entrado na minha faculdade (Universidade do Porto) no ano anterior a mim. Fiz questão de realçar esse mesmo conselho no meu livro: Realiza um esforço acrescido no primeiro ano do curso, de modo a ultrapassar os "cadeirões do curso" à primeira.
Sei que esta dica foi fundamental porque para além de ter ficado com mais motivação, obtive boas notas e passei a ter uma média alta "a defender". Dessa forma, acabei por manter um esforço mais constante e natural ao longo do resto do curso.

Fez voluntariado na Índia e em Moçambique, desse tempo há alguma história que o tenha tocado em particular?

Sim. Tanto em Moçambique como na Índia, aquilo que mais me marcou foi o facto de ter testemunhado que a felicidade tem pouco a ver com os bens materiais que temos.
Em Moçambique fiz muitos amigos que viviam da forma mais simples possível. Um dos meus melhores amigos chamava-se Mavô. Quando conheci o Mavô, ele tinha 14 anos como eu, mas em vez de ter dez mudas de roupa, tinha apenas uma muda que lavava ao fim de cada dia. O Mavô tinha acabado de construir a sua primeira casa, com barro, palha e as suas próprias mãos. Ao lado da sua palhota, tinha umas galinhas, uma pequena plantação de milho, algumas árvores frutíferas (mangueira, bananeira, papaieira)... e chegava! A necessidade de trabalhar era praticamente nula porque a natureza fornecia tudo. Apesar de ter pouco, tanto o Mavô como os meus restantes amigos viviam com uma postura alegre e agradecida. A saber sorrir diariamente com o pouco que tinham.
A viagem à Índia também me marcou muito. Fui acompanhado com a minha mulher (na altura minha namorada) que esteve com um síndrome febril durante várias semanas. Apanhámos um susto porque ela teve mesmo de ficar internada no Hospital de Varanasi durante três dias. Passadas duas semanas, numa cidade chamada Pushkar no meio do Rajastão, foi a minha vez de apanhar uma gastroenterite aguda que me deixou muito mal, com uma febre muito alta e a delirar.
Quando voltámos para Portugal pedi a minha mulher em casamento.
Ela aceitou.

O seu livro também poderá levar à tomada de uma decisão em contrário: "a medicina não é para mim"?

Claro que sim! Esse foi um dos grandes objetivos de escrever o livro. Não apenas para ajudar aqueles que sentem uma forte convicção relativamente à medicina, mas também para ajudar a orientar todos aqueles que tenham dúvidas ou hesitações.

Atualmente, quais são as maiores dificuldades encontradas no desempenho de uma carreira em medicina?

As maiores dificuldades são as mesmas de quase todas as profissões: manter um elevado nível de disciplina e atenção constante; ter disponibilidade mental para conseguir identificar aquilo que está mal e que pode ser melhorado; ter criatividade para ultrapassar os problemas existentes de forma benéfica e eficaz; ter uma boa capacidade de adaptação à mudança e aos novos avanços existentes; saber refletir sobre as potenciais mudanças para não arriscar trabalhar com irracionalidade; e por último, mas não menos importante, saber conciliar a atividade profissional com a vida pessoal e familiar.
Existem ainda alguns desafios relacionados com a própria realidade clínica e a realidade do nosso tempo. Ter empatia e saber comunicar com pessoas que têm todo o tipo de ritmos e feitios, pertencentes a uma sociedade que é cada vez mais educada, curiosa e exigente. Manter um rigor científico cada vez mais exigente e apurado.

«Nenhuma dificuldade é superior à nossa determinação de a vencer» - Daniel Serrão. Para além da determinação, quais são as outras características necessárias a um médico?

Empatia e conhecimento científico. Nessa ordem.
Mais vale existir empatia sem conhecimento, do que conhecimento sem empatia.
O cerne de todas as nossas decisões deve ser a empatia.